Capítulo 1 RESPONSABILIDADE IMPOSTA
Quando a família exige mais do que você quer dar.
ALESSANDRO DE LUCA
Meu nome é Alessandro De Luca.
Tenho quarenta anos. Italiano. Solteiro.
E herdeiro de um império que nunca pedi para carregar.
Meu pai, Vittorio De Luca, construiu a De Luca Holding Group com as próprias mãos. Um conglomerado internacional que hoje domina setores de infraestrutura, energia e investimentos estratégicos em diversos países. Quando as pessoas pronunciam o sobrenome De Luca em salas de conselho ou encontros empresariais, há sempre um pequeno silêncio antes da conversa continuar. Um silêncio de respeito.
Ou de medo.
Meu pai começou do nada. Filho de imigrantes italianos pobres, ainda adolescente já carregava caixas em depósitos de logística e passava noites inteiras acompanhando obras em canteiros de construção. Ele cresceu acreditando em uma única regra: o mundo pertence a quem trabalha mais duro que os outros.
Disciplina. Estratégia. Controle.
Essas três palavras definem Vittorio De Luca.
Para ele, a família nunca foi apenas um conjunto de pessoas ligadas por sangue. A família sempre foi uma extensão do império. Um braço silencioso da empresa. Uma forma de garantir que aquilo que ele construiu com tanta dificuldade não desapareça quando ele fechar os olhos pela última vez.
Agora que os anos começaram a pesar sobre seus ombros, meu pai tem dois desejos muito claros antes de morrer.
Ele quer me ver casado.
E quer ver um herdeiro carregando o sobrenome De Luca.
Não por romantismo.
Por continuidade.
Porque ele sabe que, sem isso, o conselho da empresa pode começar a olhar para outro nome.
Matteo.
Meu primo.
Ambicioso, arrogante e absolutamente convencido de que nasceu para liderar algo grande.
Matteo sempre acreditou que o império De Luca deveria ser dele. Desde pequeno se comporta como se fosse apenas uma questão de tempo até que alguém perceba o suposto gênio escondido por trás daquele sorriso presunçoso.
Meu pai exige me ver pelo menos uma vez por semana.
Hoje é um desses dias.
E eu sei exatamente o que vou ouvir.
Chego à casa deles às vinte horas em ponto. Sempre no mesmo horário. Pontualidade é uma das regras silenciosas daquela casa. Não está escrita em lugar nenhum, mas todos sabem que existe.
O jantar já está sendo servido.
O aroma do molho de tomate fresco e manjericão espalha-se pela sala de jantar. Minha mãe está sentada à mesa, organizando os talheres com aquela calma que sempre a acompanhou.
Aproximo-me dela primeiro.
Inclino o corpo e beijo sua testa.
— Sua bênção, minha mãe.
Ela sorri, como sempre faz.
— Deus te abençoe, meu filho.
Depois olho para meu pai.
— Sua bênção, pai.
Ele levanta os olhos do prato.
— Hum. Deus te abençoe.
Sentamos.
Durante alguns segundos apenas o som dos talheres tocando os pratos quebra o silêncio da sala. Mas naquela casa o silêncio nunca dura muito tempo.
— Matteo está em Paris.
A frase do meu pai corta o ar como uma lâmina.
Levanto os olhos lentamente.
— Aprontando novamente. Ele completa.
Respiro fundo antes de responder.
— Quando você pretende tirar ele das empresas? Ele me pergunta.
Meu pai apoia os talheres no prato e me encara.
— Como está sua saúde, pai?
Minha mãe suspira discretamente.
— Alessandro, não provoque seu pai.
— Não estou provocando, mãe. Respondo enquanto corto um pedaço de pão. Só acho que ele não vai durar muito se continuar se estressando com a infantilidade do Matteo.
Meu pai solta um resmungo irritado.
— Ainda bem que você sabe. Aquele moleque está me desafiando.
— Então resolva isso. Digo calmamente. Tire ele das empresas.
— Você sabe que nossa empresa é familiar.
— E isso significa que temos que tolerar incompetência?
Meu pai se inclina para frente.
— Seus tios têm ações que passaram para Matteo. Eu não posso simplesmente expulsá-lo.
Cruzo os braços sobre a mesa.
— Então compre a parte dele.
Meu pai me observa com atenção.
— Ele vai se casar com uma coroa rica. Nosso dinheiro vai ser cafézinho para ele.
Meu pai franze a testa.
— Cafézinho, Alessandro? Você sabe que nossas empresas geram trilhões.
Dou de ombros.
— Modo de dizer.
Faço uma pequena pausa antes de continuar.
— Mas se Matteo está lhe dando dor de cabeça, o senhor pode resolver isso. Não precisamos dessa disputa.
Meu pai permanece em silêncio por alguns segundos.
— Sei que não gosta dele.
— Não gosto mesmo.
Inclino-me um pouco para frente.
— E se dependesse de mim, eu já teria quebrado a cara dele.
Minha mãe balança a cabeça.
— Alessandro.
Mas meu pai ignora o comentário dela.
— É exatamente por isso que você precisa se casar.
Levanto os olhos imediatamente.
— O quê?
— Quer que eu morra e você entre nessa guerra com Matteo?
— Pai.
— Regras, Alessandro.
A mão dele bate na mesa com força suficiente para fazer os talheres vibrarem.
— Só casando.
O silêncio que cai sobre a sala é pesado.
Meu coração acelera, mas não deixo isso aparecer no rosto.
— E você tem sessenta dias.
Demoro alguns segundos para reagir.
— Sessenta dias?
— Não discuta comigo.
Meu pai se levanta abruptamente da mesa. A cadeira arrasta pelo chão com um ruído seco. Ele sai da sala sem olhar para trás.
Minha mãe me observa com aquela expressão tranquila que sempre teve. Uma mistura de carinho e resignação.
Como se dissesse que eu já deveria estar acostumado com aquilo.
Ela toca meu braço com suavidade.
— Filho, você sabe que nunca me envolvi na sua vida.
— Eu sei.
— Mas dessa vez ele está certo.
Solto uma pequena risada sem humor.
— Mas eu não gosto de mulher nenhuma, mamãe. Como vou me casar?
Ela sorri com uma doçura que sempre me desarma.
— Talvez o problema seja esse.
Franzo a testa.
— Você sempre olhou para mulheres como contratos, Alessandro.
Ela segura meu rosto por um instante.
— Talvez esteja na hora de encontrar uma que você goste de verdade.
Minha mãe beija minha bochecha e se levanta da mesa.
Fico sozinho na sala.
O silêncio volta a ocupar o espaço.
Contrato.
A palavra ecoa dentro da minha cabeça.
Eu conheço contratos melhor do que qualquer outra coisa. Minha vida inteira foi construída em cima deles. Assinaturas, cláusulas, prazos, garantias.
Talvez.
Um sorriso lento surge no canto da minha boca.
Talvez essa seja exatamente a solução.
Levanto-me da cadeira, pego o celular no bolso do paletó e disco um número que conheço de memória.
Ele atende no segundo toque.
— Caio?
— Fala, Alessandro.
Olho novamente para a mesa de jantar vazia.
— Quer tomar um drink?
— Depende. Por quê?
Caminho em direção à porta.
— Tive uma ideia para resolver dois problemas.
Faço uma breve pausa.
— E acho que você pode me ajudar.
