Capítulo 2 A DOÇURA QUE NASCEU DO AMOR
Quando uma mulher é mais do que ela mostra.
REGINA ALENCAR MORETTI
Meu nome é Regina Alencar Moretti.
Tenho trinta e cinco anos. Italiana, com ascendência brasileira por parte da minha mãe.
Durante três anos eu acreditei que tinha encontrado o homem certo.
Matteo.
Loiro, olhos verdes, sorriso fácil. Aquele tipo de homem que conquista uma sala inteira apenas entrando nela. Matteo tinha um jeito de olhar que fazia qualquer mulher se sentir escolhida. Às vezes ele mordia o lábio inferior quando sorria, e aquilo parecia uma provocação silenciosa.
Foi assim que me conquistou.
Três anos.
Três anos acreditando que aquele relacionamento tinha futuro.
Matteo era romântico, divertido, atencioso. E também era um amante incrível. Eu nunca tive motivo para duvidar dele.
Ou pelo menos era isso que eu pensava.
O único problema entre nós sempre foram nossas profissões.
Ele trabalha como gerente executivo em um conglomerado internacional de infraestrutura, energia e investimentos estratégicos.
Eu sou médica.
Cirurgiã cardiovascular.
Isso significa que minha vida é composta de plantões intermináveis, chamadas de emergência, voos de última hora e salas cirúrgicas onde qualquer erro pode custar uma vida.
Meu pai sempre diz que eu nasci com o coração nas mãos.
Paolo Moretti.
Sessenta e oito anos.
Ex-professor de música.
Um homem que sempre acreditou que a arte era a forma mais bonita de entender o mundo.
Hoje ele enfrenta uma doença degenerativa terminal que lentamente rouba sua força. Os médicos são claros quanto ao prognóstico. Não existe cura. Apenas tempo.
Tempo que eu tento arrancar da medicina todos os dias.
Minha mãe, Isabella Alencar, morreu quando eu tinha apenas dez anos. Um infarto fulminante. Ironia cruel para a filha que um dia se tornaria especialista em corações.
Foi minha mãe quem descobriu meu talento para a dança.
E foi meu pai quem passou a me levar às aulas depois que ela se foi.
Por muitos anos eu acreditei que me tornaria bailarina.
Mas quando perdi minha mãe, percebi que o mundo não precisava de mais uma artista.
Ele precisava de médicos.
Hoje trabalho principalmente no Instituto CardioMed Milano, um dos centros cardiológicos mais respeitados da Itália. Mas minha especialidade são cirurgias complexas. Quando um hospital enfrenta um caso difícil, às vezes sou chamada para viajar.
É por isso que estou em Paris agora.
Acabo de sair de uma cirurgia de oito horas.
Estou sentada na sala de café do hospital com outros médicos e enfermeiros.
Meu corpo está exausto, mas minha mente ainda está alerta. Isso acontece sempre depois de cirurgias longas.
Em vez de ir para o hotel dormir, faço o que sempre faço.
Vou para o estúdio de dança.
Coloco uma música suave no pequeno sistema de som. O estúdio está vazio.
Abro minha mochila.
Coloco o collant.
Calço as sapatilhas.
Faço alongamento lentamente.
Meu corpo responde de forma automática, como se nunca tivesse parado. A flexibilidade continua ali. Guardada. Esperando.
A dança nunca saiu de mim.
Denise entra no estúdio e para na porta, me observando.
— Menina, que flexibilidade é essa?
Sorrio.
— Eu faço isso desde criança.
— Pelo visto nunca parou.
— Na verdade não.
Continuo alongando as pernas.
— Se não tem estúdio de dança perto, eu faço no hotel. Não importa onde eu esteja.
Ela cruza os braços, divertida.
— Agora entendi.
Depois inclina a cabeça.
— E o Matteo?
— Está em Paris.
— Sério?
— Veio para uma reunião.
Denise ergue as sobrancelhas.
— Você não falou com ele hoje?
— Falei que a cirurgia tinha sido reagendada.
Ela sorri.
— Então ele não sabe que você já chegou.
— Não.
— Humm. Surpresa romântica pro boy.
Dou uma pequena risada.
— Algo assim.
Denise dá dois passos para trás.
— Vou encontrar meus alunos.
— Vai lá.
Ela sai e o estúdio volta a ficar silencioso.
A música começa.
Fecho os olhos por um instante.
A imagem do meu pai aparece na minha mente. Ele sentado nas primeiras cadeiras de madeira do antigo estúdio em Milão, me assistindo ensaiar quando eu ainda era adolescente.
O sorriso orgulhoso no rosto dele.
Começo a dançar.
A música toma conta do espaço. Meus movimentos se tornam mais soltos, mais intensos. Cada passo carrega algo que eu não consigo colocar em palavras.
As lágrimas descem sem que eu perceba.
Papai.
Eu vou encontrar um jeito.
Eu prometo.
Vou descobrir como manter você aqui comigo pelo máximo de tempo possível.
A música termina.
Respiro fundo.
Troco de roupa rapidamente, pego minha mochila e saio do estúdio.
Chamo um carro de aplicativo.
O motorista me leva até o hotel onde Matteo está hospedado.
Durante o trajeto, imagino a expressão surpresa dele quando abrir a porta.
Três anos juntos.
Talvez ele fique feliz.
Talvez possamos jantar juntos.
Talvez eu conte sobre a cirurgia.
Talvez possamos simplesmente dormir abraçados depois de um dia longo.
O carro para.
Subo pelo elevador.
Uso o cartão que Matteo deixou comigo para abrir a porta da suíte.
O apartamento está escuro.
Silencioso.
Talvez ele esteja dormindo.
Talvez ainda não tenha chegado.
Caminho até o quarto.
Minha mão gira a maçaneta.
E o mundo para.
Uma mulher está gemendo.
Sentada sobre Matteo.
Meu corpo congela.
— Matteo. O que é isso?
Ele vira a cabeça, surpreso.
— Amor… você veio?
A mulher desce da cama rapidamente e se cobre com o lençol.
Olho para os dois.
Algo dentro de mim quebra.
— Sério que esse é o problema, Matteo?
Ele passa a mão pelo cabelo.
— Amor, eu sou homem. Tenho minhas necessidades.
O silêncio entre nós pesa mais que qualquer grito.
Três anos.
Três anos resumidos naquela frase.
— Não.
Minha voz sai baixa.
— Chega.
Ele se levanta.
— Regina, espera.
— Acabou.
Dou um passo para trás.
— Não precisa vir atrás de mim.
Saio do quarto.
Caminho pelo corredor sem olhar para trás.
Não grito.
Não choro.
Talvez esteja em choque.
Chamo outro carro.
Durante alguns segundos olho para a porta do hotel, esperando que Matteo apareça correndo.
Que diga que foi um erro.
Que diga que me ama.
Mas ele não aparece.
Entro no carro.
Peço para o motorista me levar ao aeroporto.
Consigo trocar minha passagem. Resta apenas um lugar na classe econômica. Não me importo.
Quero apenas ir embora.
O avião pousa na Itália no dia seguinte.
Chego em casa por volta das vinte horas.
Deixo a mala no chão.
Pego minha bolsa.
Vou direto para o estúdio.
Minha rotina.
Minha fuga.
Ali, sozinha, com collant, sapatilhas e música, deixo tudo sair.
As lágrimas vêm fortes agora.
A imagem daquela mulher sobre Matteo queima na minha mente.
Três anos.
Talvez eu tenha amado sozinha.
Quando finalmente paro de chorar, tomo um banho rápido.
Olho meu reflexo no espelho.
Não posso aparecer assim para meu pai.
Ele precisa acreditar que está tudo bem.
Dirijo até a clínica onde ele está internado há um ano.
Estaciono.
Respiro fundo.
Coloco um sorriso no rosto.
Entro no quarto.
— Onde está o homem mais lindo do mundo?
Meu pai levanta a cabeça.
Os olhos dele brilham.
— Minha menina? Você já chegou?
— Cheguei sim.
Dou um beijo no rosto dele.
— Passei em casa, tomei um banho e vim direto.
Ele franze a testa.
— Mas você estava em Paris.
— Peguei o avião ontem.
Ele me observa com atenção.
O olhar dele sempre foi bom demais para perceber quando algo está errado.
— Aconteceu alguma coisa?
