Capítulo 3 O BAILE BENEFICENTE
A mulher de máscara que mexeu com o coração errado.
A manhã nasceu tímida em Milão. O céu cinza parecia anunciar um dia comum. Mas naquela noite a cidade receberia um evento que reuniria médicos, empresários, políticos e patrocinadores.
Um baile beneficente.
O objetivo era arrecadar fundos para uma pesquisa voltada ao tratamento de doenças degenerativas e câncer, um projeto que prometia abrir caminhos para uma droga experimental capaz de prolongar vidas.
Hospitais, universidades e investidores estavam envolvidos.
Entre os maiores patrocinadores estava o De Luca Holding Group.
O nome da família De Luca aparecia em todos os convites e discursos.
Por volta das vinte horas, Regina chega ao evento acompanhada por um pequeno grupo de enfermeiras e residentes do Instituto CardioMed Milano.
O instituto era um dos centros cardiológicos mais respeitados da região, por isso vários médicos haviam sido convidados.
O salão era enorme. Lustres de cristal refletiam luz dourada sobre mesas decoradas com flores brancas e velas altas. Um palco ocupava o centro do ambiente, enquanto um grande tecido vermelho pendia do teto, indicando que haveria uma apresentação artística antes do jantar.
Regina observa tudo com curiosidade.
Eventos como aquele nunca fizeram parte da sua rotina. Seu mundo normalmente se resumia a corredores de hospital, salas cirúrgicas e plantões intermináveis.
Ela procura um rosto conhecido.
— Onde está a Denise? O grupo dela não iria se apresentar esta noite?
Uma das bailarinas responde.
— Ela está chorando no banheiro.
Regina franze a testa.
— Chorando?
— A Pri se machucou.
Regina deixa a bolsa sobre uma bancada e caminha rapidamente até o banheiro.
Bate na porta da cabine.
— Denise, amiga, sou eu. Abre a porta.
Alguns segundos depois, a porta se abre.
Denise a puxa para dentro.
Os olhos da amiga estão vermelhos.
— Rê, estou acabada.
— Calma. O que aconteceu?
Denise respira fundo.
— A Pri torceu o pé na escada. Já levaram ela para o hospital.
— Meu Deus.
— Ninguém consegue fazer o papel dela. O contratante pediu duas bailarinas aéreas. Como vou apresentar sozinha?
Regina pensa por alguns segundos.
— Você mudou alguma coisa na coreografia?
— Não.
— Eu assisti aos ensaios.
Denise levanta o olhar.
— Por quê?
Regina sorri.
— Confia em mim?
— Claro.
— Então eu posso ficar no lugar da Pri.
Denise arregala os olhos.
— Rê, você está falando sério?
— Estou.
Denise a abraça com força.
— Eu te pago o cachê dela.
— Não precisa.
Regina já abre a porta.
— Vamos nos preparar.
Quarenta minutos depois tudo está pronto.
As bailarinas vestem figurinos elegantes e máscaras que cobrem metade do rosto.
Regina segura o tecido com firmeza e sobe com movimentos rápidos e seguros.
Seu corpo lembra cada detalhe da técnica.
A música começa.
As portas do salão se abrem.
As luzes diminuem.
Os convidados voltam a atenção para o centro.
A apresentação começa.
As duas bailarinas deslizam pelo tecido com movimentos sincronizados.
Regina se move com elegância.
A máscara cria um ar de mistério.
Durante alguns segundos ela esquece hospitais, diagnósticos e cirurgias.
Ali ela apenas dança.
Entre os convidados, Alessandro De Luca conversa com investidores, cumprimenta diretores e responde a perguntas que pouco lhe interessam.
Para ele aquele evento era apenas mais uma obrigação social.
Até que algo inesperado acontece.
Um movimento corta o ar acima dele.
Cabelos castanhos roçam de leve seu ombro.
Alessandro gira o corpo.
Uma mulher mascarada está pendurada de cabeça para baixo diante dele.
O rosto dela está a poucos centímetros do seu.
Olhos azuis.
Profundos.
Lábios vermelhos.
O olhar dela encontra o dele.
— Desculpa. Te assustei?
Alessandro não responde.
Apenas continua olhando para ela.
A música continua.
Regina gira novamente no tecido e sobe com leveza.
Os convidados aplaudem.
Ela executa outro movimento e se lança no ar antes de prender novamente as pernas no tecido.
Alessandro caminha até o bar.
Pede um drink.
Mas não consegue desviar os olhos daquela mulher.
Ela sobe outra vez.
Depois se solta.
Por um instante parece que vai cair.
Alessandro se levanta abruptamente.
O coração dispara.
Mas ela interrompe a queda com elegância e permanece girando no ar.
O salão explode em aplausos.
Algo naquela apresentação mexeu com ele de uma forma que não entendia.
Minutos depois a música termina.
As bailarinas descem.
No camarim, Denise abraça Regina.
— Muito obrigada, Rê. Você me salvou.
Ela ri.
— E você estava incrível.
— Deu para ver como você estava à vontade no ar.
Regina sorri.
— Obrigada, amiga.
Ela tira a máscara.
— Mas eu nasci para salvar vidas, não para dançar.
Do lado de fora, Alessandro passa pelo corredor.
Ele ouve risadas vindas do camarim.
Uma mulher de cabelos castanhos acima dos ombros tira a máscara.
Ela não parece uma bailarina profissional.
É uma mulher adulta.
Elegante.
Como alguém capaz de transitar naturalmente entre dois mundos.
Alessandro se recosta discretamente na parede.
Ele escuta.
— Que pena, Regina. Cirurgiã cardiovascular não é sua cara.
As duas riem.
— E agora cirurgiã tem cara?
— Claro que tem.
— Você nasceu para ser estrela.
Regina ri.
— Agora vamos lá. Preciso fazer um pouco de sala para o diretor do hospital e depois vou para casa.
Ela suspira.
— Estou virada há quatro dias. Cirurgia em Paris, cirurgia aqui, viagem, meu pai no hospital.
— Você não tem pena de mim?
A amiga ri.
— Está bem. Mas fica um pouco.
— Eu te espero para tomar um vinho depois.
Denise a abraça e sai.
Alessandro se vira imediatamente, fingindo observar o celular.
Vinte minutos depois Regina sai do camarim.
Agora veste um vestido longo elegante.
O cabelo está preso em um coque solto.
Alessandro caminha pelo corredor no instante em que ela passa.
Os dois se esbarram.
Regina perde o equilíbrio.
Alessandro a segura pela cintura.
— Desculpa.
Os olhos dele encontram os dela.
Por um segundo o tempo parece parar.
— Eu que peço desculpas.
— Saí sem olhar se vinha alguém.
Alessandro a ajuda a recuperar o equilíbrio.
Depois solta sua cintura lentamente.
— Posso me desculpar oferecendo uma bebida?
Regina sorri com educação.
— Não precisa.
— Estou bem, de verdade.
Ela inclina levemente a cabeça.
— Muito obrigada.
— Com licença.
Regina segue em direção ao salão.
Alessandro permanece parado por alguns segundos.
Depois arruma o paletó.
E entra novamente no salão.
Mas agora ele não está mais interessado em investidores, discursos ou negócios.
Seu olhar procura apenas uma pessoa.
A mulher mascarada de olhos de oceano e lábios vermelhos.
Pela primeira vez naquela noite, Alessandro De Luca deixou de ouvir investidores, negócios e cifras.
Tudo o que via era aquela mulher suspensa no ar.Fiz os cortes principalmente em repetições de cenário, descrições duplicadas e algumas frases que reforçavam a mesma ideia. A cena continua com o mesmo impacto e a mesma progressão narrativa, mas fica mais enxuta para atender ao limite da plataforma.
