Capítulo 4 O PREÇO DO TEMPO
Quando dois destinos se aproximam sem saber que precisam um do outro.
A música suave continuava preenchendo o grande salão enquanto os convidados circulavam entre mesas elegantes, taças de vinho e conversas discretas. O brilho dos lustres refletia nos vestidos de gala e nos ternos escuros que dominavam o ambiente.
Regina estava sentada em uma mesa lateral, um pouco afastada do centro da festa. Ao lado dela, Denise segurava uma taça de vinho e ainda parecia empolgada com o que havia acontecido minutos antes.
— Eu ainda não acredito no que você fez hoje — Denise disse, balançando a cabeça enquanto ria.
— Você simplesmente salvou minha noite.
Regina girava lentamente o vinho dentro da taça.
— Eu só ajudei, Denise.
— Não foi só isso.
Denise apontou discretamente para o salão.
— Você devia ter visto o olhar das pessoas.
Regina levantou os olhos.
— Que olhar?
— De encantamento. As pessoas ficaram hipnotizadas com você.
Regina deu um pequeno sorriso, mas logo voltou a olhar para o vinho.
Seu pensamento já estava longe dali.
A imagem do pai apareceu em sua mente novamente.
O quarto branco da clínica.
Os aparelhos.
A respiração cansada.
Denise percebeu imediatamente a mudança no rosto da amiga.
— Você está pensando nele de novo, não está?
Regina respirou fundo.
— Estou.
— Os médicos disseram alguma coisa nova?
— Não exatamente.
Ela tomou um pequeno gole do vinho antes de continuar.
— Mas aquela pesquisa que apresentaram hoje…
Denise inclinou o corpo para frente.
— Aquela nova droga experimental?
Regina assentiu.
— Aquela mesma.
— Você acha que pode ajudar seu pai?
Regina demorou alguns segundos para responder.
— Talvez.
Denise abriu um pequeno sorriso.
— Então isso é maravilhoso.
Regina balançou a cabeça lentamente.
— O problema não é esse.
— Qual é então?
Regina pousou a taça sobre a mesa.
— O preço.
Denise ficou em silêncio.
— Essas pesquisas nunca são baratas.
— Eu sei.
Regina olhou ao redor.
Empresários.
Investidores.
Homens acostumados a movimentar milhões.
— Eu não faço ideia de quanto eles podem cobrar por um tratamento desses.
Ela suspirou.
— Mas isso não importa.
Denise franziu a testa.
— Como assim não importa?
Regina respirou fundo.
— Se existir qualquer chance… qualquer mínima chance de manter meu pai comigo por mais tempo…
A voz dela falhou.
— Eu vou trabalhar dia e noite se for preciso.
Denise segurou a mão da amiga.
— Rê…
— Eu faço plantões extras.
— Viajo para qualquer país.
— Opero quantas vezes for necessário.
Ela respirou profundamente.
— Eu só preciso de tempo.
Denise apertou a mão dela.
— Você sempre foi assim.
— Teimosa.
Regina sorriu de leve.
— Determinada.
Enquanto isso, do outro lado do salão, Alessandro De Luca estava encostado no balcão do bar.
Ao lado dele, Caio segurava um copo de uísque.
— O contrato está pronto.
Alessandro não desviou o olhar do salão.
— Já?
— Você pediu rapidez.
Caio girou o copo.
— Agora só falta um detalhe.
Alessandro levantou uma sobrancelha.
— Qual?
— A mulher.
Caio deu um pequeno sorriso.
— Para quem exatamente você pretende entregar esse contrato?
Alessandro soltou um suspiro discreto.
— Esse é exatamente o problema.
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Eu tenho menos de sessenta dias para resolver isso.
Caio tomou um gole do uísque.
— E você realmente pretende casar com uma desconhecida?
— Não é casamento.
— É um acordo.
Caio riu baixo.
— Claro. Um acordo que envolve cerimônia, sobrenome e herdeiro.
Alessandro apoiou os cotovelos no balcão.
— Eu deixei tudo muito claro no contrato.
— Sem sexo.
— Sem envolvimento emocional.
— Sem expectativas.
Caio inclinou a cabeça.
— E o herdeiro?
Alessandro respondeu imediatamente.
— Inseminação artificial.
Caio soltou uma pequena risada.
— Claro.
— Tecnologia resolve tudo.
Alessandro continuou falando como se estivesse tratando de negócios.
— A criança nasce.
— Cresce.
— E quando tiver uns cinco anos…
Ele deu de ombros.
— Eu fico com ela.
— E a mulher segue a vida dela.
Caio ficou alguns segundos em silêncio.
— Você realmente acha que isso vai funcionar?
— Por que não funcionaria?
— Porque pessoas não são contratos.
— Elas se apegam.
Alessandro virou o rosto para ele.
— Se ela aceitar o contrato, ela já vai saber exatamente no que está entrando.
— Não haverá surpresas.
— A mulher que aceitar vai saber o que está assinando.
Caio observou o amigo por alguns segundos.
— Você realmente acredita que sentimentos podem ser organizados em cláusulas?
Alessandro não respondeu.
Seu olhar havia voltado para o salão.
Mais especificamente para uma mesa lateral.
A mesma mulher da dança.
Ele a reconheceu imediatamente.
Os mesmos olhos.
O mesmo cabelo castanho.
A mesma postura elegante.
Ela estava sentada conversando com uma amiga.
Caio percebeu a distração.
— Alessandro.
Nenhuma resposta.
— Alessandro.
Ele virou o rosto.
— O quê?
Caio seguiu a direção do olhar dele.
— Quem é ela?
Alessandro franziu a testa.
— Não sei.
Caio sorriu.
— Curioso.
— Você raramente presta atenção nas pessoas em eventos assim.
Alessandro não respondeu.
Regina levantou da mesa.
— Vou pegar mais vinho.
Ela caminhou em direção ao bar.
Alguns passos depois parou ao lado de Alessandro sem perceber.
Estendeu a taça.
— Mais um pouco, por favor.
O bartender serviu o vinho.
Quando Regina se virou para voltar à mesa, acabou esbarrando no ombro de Alessandro.
A taça inclinou perigosamente.
Ele segurou a cintura dela instintivamente para evitar que ela caísse.
Os olhos dos dois se encontraram.
E imediatamente veio o reconhecimento.
Regina soltou uma pequena risada constrangida.
— Meu Deus… desculpa.
Ela apontou levemente para ele com a taça.
— Eu estou começando a achar que tenho um problema sério em esbarrar em você.
Alessandro levantou uma sobrancelha.
— Duas vezes na mesma noite.
— Estatisticamente isso é curioso.
Regina sorriu.
— Primeiro eu quase caio em cima do seu ombro.
— Depois quase caio de novo.
— Você deve estar achando que eu sou desastrada.
— Ainda estou avaliando essa hipótese.
Ela riu.
— Justo.
Por um instante os dois ficaram se olhando.
Sem máscara agora.
Sem palco.
Sem distância.
Alessandro falou primeiro.
— A bailarina.
— Aquela era você.
Regina inclinou levemente a cabeça.
— Aquela sou eu… às vezes.
— Hoje eu só estava substituindo uma amiga.
— Então você não é bailarina?
— Não.
Ela levantou a taça.
— Sou médica.
— Cirurgiã cardiovascular.
Os olhos dele demonstraram um leve interesse.
— Bailarina e cirurgiã.
— Uma combinação incomum.
Regina deu de ombros.
— A vida às vezes é contraditória.
Alessandro estendeu a mão.
— Alessandro De Luca.
Regina apertou a mão dele.
— Regina Moretti.
Por um segundo ela reconheceu o sobrenome.
Todo mundo em Milão conhecia aquele nome.
Mas manteve a expressão tranquila.
Caio observava tudo alguns passos atrás.
Conhecia Alessandro bem o suficiente para perceber algo raro.
O amigo estava genuinamente interessado.
Enquanto isso Alessandro continuava olhando para Regina.
A ideia voltou à mente dele.
Uma solução.
Uma possibilidade.
Talvez o destino tivesse acabado de colocar a resposta para o problema dele bem ali, diante dos seus olhos.
