Capítulo 2 — Dois Anos de Silêncio Produtivo

O segundo ano começou com um detalhe que eu quase não percebi: Eduardo parou de jantar em casa.

Antes, mesmo nas semanas mais ocupadas, ele aparecia pelo menos três noites por semana. Sentava, comia, olhava o celular, se levantava. Às vezes havia um comentário breve sobre o clima ou sobre algum evento de negócios que havia saído na imprensa. Não era companhia no sentido real da palavra, mas era presença. Uma confirmação de que aquele arranjo funcionava, que cada peça continuava no lugar onde havia concordado em ficar.

Quando as jantadas sumiram, eu esperei. Dei três semanas de margem — talvez fosse um projeto mais pesado, uma viagem que não havia sido anunciada, a vida de um executivo que às vezes desaparecia nos próprios compromissos. Depois de três semanas, comecei a prestar atenção diferente.

Durante esses dois anos, eu havia me tornado boa em uma coisa que a maioria das pessoas subestima: existir sem ser notada. Não era invisibilidade no sentido passivo, da pessoa que some nos cantos porque não tem nada a dizer. Era escolha ativa, cultivada com intenção. Uma ferramenta. A Camila que o Eduardo via, quando me via, era exatamente a Camila que eu queria que ele visse: educada, quieta, contida, sem demandas. A Camila que ninguém via era a que havia lido três vezes o Código Civil Brasileiro, dois livros sobre estruturas societárias brasileiras, e uma monografia sobre cláusulas leoninas em contratos de longa duração, publicada por um professor da USP que nunca imaginou que alguém fosse lê-la às duas da madrugada num apartamento do Itaim Bibi.

Dona Marta, a diarista, me ensinou mais do que qualquer livro.

Não intencionalmente — ela era de uma discrição absoluta, do tipo de profissional que faz o trabalho e não comenta nada sobre o que vê. Mas ela falava enquanto trabalhava, como muitas pessoas fazem, e eu era a única pessoa na casa que ficava quieta o suficiente para ouvir. Aprendi sobre o zelador, Seu Paulo, que guardava correspondência extra no armário do corredor quando Eduardo esquecia de avisar a portaria. Aprendi sobre a empresa de jardinagem que vinha às quintas-feiras para as plantas da varanda. Aprendi os nomes das pessoas que ligavam no interfone com frequência. Pequenas informações, cada uma sem peso sozinha. Juntas, eram um mapa.

— A senhora é boa de escuta — Dona Marta disse uma vez, passando pano na bancada da cozinha sem me olhar. — A maioria das patroas não para quieta o suficiente pra ouvir nada.

Eu sorri e continuei ouvindo.

Aprendi que a empresa de Eduardo tinha três sócios além da família Almeida: Rodrigo Maciel, um empresário mais velho que havia aportado capital na fase inicial, Fernando Assis, ex-sócio do pai que continuava na empresa mais por tradição do que por atividade real, e um fundo de investimento chamado Vega Capital que havia entrado dois anos atrás e que os jornais de negócios citavam como o principal motor da expansão recente. Aprendi que havia um processo de recapitalização previsto para o fim do ano — Eduardo havia mencionado isso em uma ligação que eu havia ouvido sem querer enquanto passava pelo corredor. Guardei a informação com os outros fragmentos.

À noite, quando o apartamento ficava quieto, eu abria o notebook e estudava. Direito contratual. Jurisprudência do STJ sobre rescisão de contratos. Cálculo de penalidades contratuais. A diferença entre contratos de natureza civil pura e instrumentos de direito de família. Não porque esperasse precisar de nada disso de forma específica — mas porque invisível que não aprende nada é só invisível. Invisível que aprende é outra coisa inteiramente.

Thiago Costa entrou na minha vida nesse período, mas pela periferia, de forma natural.

Ele era amigo do meu irmão mais velho, Marcos — tinham estudado juntos na PUC, saíam às vezes para assistir futebol, o tipo de amizade que sobrevive ao tempo porque é feita de afinidade real, não de conveniência. Advogado especializado em direito societário, escritório próprio na Consolação, a reputação de ser meticuloso e de responder mensagem às onze da noite porque genuinamente gosta do que faz. Eu o havia encontrado em dois ou três aniversários antes do meu casamento. Não tínhamos ficado em contato.

Depois de um ano dentro daquele apartamento, mandei mensagem para o Marcos perguntando como ele estava. Marcos disse que bem, que havia estado com o Thiago semana passada, que o escritório dele estava crescendo.

Dei um passo atrás. Esperei mais dois meses. Precisava ter certeza de que não estava tomando nenhuma decisão precipitada — de que aquela conversa que estava imaginando era realmente necessária, e não apenas o produto de um apartamento silencioso e de uma longa noite de terça-feira.

Era necessária.

Numa quinta-feira de manhã em que Eduardo havia saído às seis para uma reunião, mandei mensagem para Thiago diretamente: Oi, Thiago. Camila Fonseca, irmã do Marcos. Tô com uma dúvida de direito contratual. Você tem tempo pra um café?

Ele respondeu em quarenta minutos: Tenho sim. Amanhã às dez?

Nos encontramos numa cafeteria da Vila Madalena — longe o suficiente do Itaim Bibi para que não houvesse risco de cruzar com alguém que conhecesse Eduardo, discreta o suficiente para que a conversa não parecesse reunião. Eu havia escolhido o lugar com cuidado.

Fiz perguntas gerais. Sobre rescisão de contratos civis em geral. Sobre o que tornava uma cláusula contratual executável ou não. Sobre como penalidades por quebra de acordo eram calculadas no direito brasileiro. Perguntas de estudante curiosa, não de litigante. Thiago respondeu tudo com paciência e precisão, sem perguntar por que eu estava perguntando — uma qualidade rara num advogado, que normalmente quer saber o contexto antes de dar qualquer informação.

Antes de eu levantar para ir embora, ele disse, de forma casual mas direta:

— Se em algum momento você precisar de aconselhamento mais específico, pode falar comigo. Sou discreto.

Olhei para ele. Thiago tinha um rosto aberto, os óculos que ele empurrava para cima com o indicador quando estava concentrado, e o tipo de calma que vem de saber o que vale e não precisar provar.

— Eu sei — eu disse. — É por isso que liguei pra você e não pra um estranho da internet.

Os dois sorriram. Não era ainda uma aliança — era uma porta aberta.

Mas eu saí daquela cafeteria sabendo que, se alguma coisa mudasse, eu tinha onde ligar.

Mudou duas semanas depois.

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