Capítulo 1
Minha colega de quarto influencer pagou uma pequena fortuna para cultivar uma bacia de “lama de beleza totalmente natural” no nosso banheiro.
Dez dias depois, aquela coisa rastejou para fora do rosto dela — na frente de trezentas pessoas numa festa.
E eu sabia que isso ia acontecer desde o dia em que vi pela primeira vez o que ela estava cultivando.
O cheiro me atingiu no segundo em que abri a porta do nosso banheiro compartilhado. Rato morto, ovo podre e leite azedo, tudo ao mesmo tempo.
Engoli em seco e me obriguei a olhar para a pia.
A bancada de mármore costumava ser branca. Agora estava soterrada sob montes de lodo preto-amarronzado, e o lodo soltava um vaporzinho fraco, como se alguma coisa ali embaixo estivesse respirando.
E piorava. Uma camada de penugem vermelho-escura tinha se espalhado pelos cantos do cômodo e subia pelas linhas de rejunte entre os azulejos do box.
— Tinsley! Que porra é essa que você tá cultivando aqui?
Escancarei a porta do banheiro e gritei para a sala.
Tinsley estava encolhida no sofá com um ring light, gravando um TikTok.
Ela revirou os olhos com tanta força que parecia doer, sacudiu o cabelo loiro descolorido e apertou o pause como se eu tivesse estragado o dia dela de propósito.
— Sloane, dá pra você não gritar a cada cinco minutos? Você tá acabando com a minha energia toda.
Ela ficou cutucando aquelas unhas postiças ridículas, falando comigo de cima, do jeito que sempre fazia.
— Isso é minha lama de fermentação crua da Amazon. Eu paguei caro de verdade — comprei de um xamã na dark web. Ela tem que fermentar no calor e na umidade pra absorver a energia da terra. Entendeu?
— Absorver a energia da terra?
Quase ri. Fui direto até ela.
— Você tem noção de que aquele monte de lodo tá criando fungo? Esse banheiro inteiro tá a um passo de virar um laboratório de risco biológico.
— Ai, meu Deus. — Ela tapou a boca com a mão e soltou uma risadinha de desprezo. — Você é tão uma marionete corporativa, com o cérebro lavado. Isso aí são esporos de Lótus Vermelho Milagroso. O xamã disse que eles comem as toxinas das camadas profundas da sua pele — renovação pura, natural. Alguém como você, que passa químicos sintéticos na cara todo dia, não reconheceria uma cura natural nem se ela te mordesse.
Inspirei devagar e me forcei a ficar calma.
Minha mãe é patologista de fungos sênior no CDC, e eu cresci no meio dos microscópios e placas de Petri dela. Eu sabia exatamente o que era aquela penugem vermelho-escura.
Não eram esporos de Lótus Vermelho Milagroso.
Lá no fundo da floresta tropical da América do Sul, existe um fungo que come carne. Ele ama calor e umidade.
E aqui vai a parte que transforma aquilo num pesadelo: os esporos dele desejam a gordura sob a pele dos mamíferos.
No momento em que encostam em você, eles se enterram nos folículos, criam raiz na camada de gordura e começam a se alimentar e a se reproduzir ali.
Quando estão completamente crescidos, rasgam a pele de dentro para fora e espremem para fora bolsas brancas e gordurosas.
Ele é proibido em todas as fronteiras. Num caso grave, mata.
— Tinsley, eu não tô nem aí pra qual vigarista te vendeu esse lixo. Eu só vou dizer isso uma vez.
Encarei os olhos dela e espaçei bem as palavras.
— Isso é um fungo carnívoro sem triagem. Se você não quiser que seu corpo inteiro apodreça, que você perca um membro ou morra de infecção no sangue, você joga isso num saco de risco biológico e queima. Agora. Depois você passa água sanitária nesse banheiro inteiro.
Tinsley parou, congelada, por um segundo.
Aí ela caiu na gargalhada, aguda e estridente.
— Ha! Sloane, o laboratório fritou seu cérebro? Sua mãe passa a vida olhando pra um microscópio. Quem é você, o CDC?
Ela se levantou num salto e enfiou o dedo no meu ombro.
— Isso é a minha crença. Isso é a minha liberdade. Você não tem nada a ver com como eu vivo. E se você encostar na minha lama mais uma vez, eu vou te denunciar pra diretoria por discriminação racial e destruição de propriedade privada.
Olhando para o rosto dela, contorcido de tanta arrogância, o pouco de pena que eu ainda tinha evaporou.
— Tá.
Dei um passo para trás e limpei o ombro onde ela tinha me cutucado, como se ela tivesse deixado alguma coisa contagiosa ali.
— Lembra que você disse isso. A partir de agora, aquele banheiro é todo seu. Eu e a Dani vamos usar o do corredor.
— Tanto faz! Um bando de caipiras ingratas.
Ela se jogou de volta no sofá, toda satisfeita, e apertou gravar de novo.
— Oi, gente! Hoje eu vou mostrar meu segredo exclusivo de skincare totalmente natural —
Virei as costas e voltei pro meu quarto sem dizer mais nada.
Ela queria esfregar um fungo devorador de carne no próprio rosto, na câmera. Eu tinha avisado uma vez. Não ia avisar de novo.
