Capítulo 2

Dani e eu não perdemos a paciência com a Tinsley por causa da lama. Aquilo só foi a gota d’água.

Dani Reyes corre provas de velocidade pelo time de atletismo — entrou com bolsa esportiva, latina, pavio curto, tolerância zero pra qualquer um que jogue sujo.

Ela voltou do treino naquela noite, soube do banheiro e atirou a bolsa de academia direto no chão.

“Aquela loira desgraçada tá aprontando de novo?” O maxilar dela estava travado. “Mês passado ela ‘pegou emprestado’ teu sérum antialérgico de trezentos dólares, foi pega, e de algum jeito virou o jogo pra cima de você — disse que teus produtos tinham microplásticos e que ela tava te fazendo um favor, desintoxicando tudo. Semana passada ela jogou meu tênis de corrida de edição limitada no lixo porque é couro de verdade. Disse que eu tava ‘tirando uma vida’ e estragando o karma dela. Eu devia ter enfiado a cabeça dela na privada ali mesmo.”

Aquilo era a Tinsley em essência. Pegava o que queria e, no segundo em que você reagia, você virava o monstro que tinha feito algo contra ela.

“Fica longe daquele banheiro, Dani. Agora tá cheio de fungo vivo.” Eu lhe entreguei um frasco de álcool em gel. “Eu já tô procurando um lugar fora do campus. Por enquanto, a gente usa o banheiro do corredor.”

Nessa hora, meu celular disparou, vibrando sem parar.

Uma garota da nossa turma tinha me mandado um link do TikTok.

Eu abri, e minha pressão foi lá em cima.

Tinsley, sem maquiagem, olhos vermelhos nas bordas, fazendo aquela voz trêmula de vítima ferida pra câmera. “Gente, eu tô desmoronando de verdade. Tudo o que eu queria era seguir minha cura natural — cultivar um pouquinho de lama de beleza pura no meu próprio banheiro. E minha colega de quarto, toda metidinha, estudante de biologia, a sabe-tudo, não só pisoteou minhas crenças como quer jogar fora tudo pelo que eu trabalhei. Ela até ameaçou me matar. Por que o mundo é tão cruel com quem se importa com o planeta?”

O número de visualizações já tinha passado de cem mil. Os comentários eram um massacre coletivo.

“Meu Deus, te mandando amor, Tinsley. Sua colega de quarto é do mal.”

“Solta o nome dela! Vamos cancelar essa garota.”

“O natural é o caminho. Abaixo o veneno químico!”

“Ela tá mentindo sobre a gente na internet?” Dani arrancou o celular da minha mão, tremendo. “Eu vou arrancar a boca dela.”

Antes que eu conseguisse impedi-la, ela já tinha saído porta afora.

Um estrondo enorme — Dani chutou a porta da Tinsley e escancarou de uma vez.

Tinsley estava sentada com aquela lama vermelho-escura nojenta espalhada pelo rosto. O barulho a fez gritar. “Aaaah! Você ficou maluca?”

“Quem é do mal? Deixa eu te mostrar como é que o mal realmente se parece.” Dani atravessou o quarto, agarrou-a pela gola e a arrancou da cadeira.

“Me solta! Socorro! Ela é uma psicopata!” Tinsley se debateu, se esticando pra pegar o celular na mesa e filmar.

Eu entrei devagar, fechei a porta atrás de mim, peguei o celular dela e joguei direto no lixo.

“Tinsley. Escuta.” Eu cheguei bem perto, a voz lisa, sem emoção. “Você gosta de bancar a vítima online — problema seu. Mas coloca meu nome ou a minha cara mais uma vez, e meu advogado te entrega uma intimação por difamação até amanhã de manhã. Vai, tenta adivinhar. Seu pai, aquele que vende carro usado no Texas — ele consegue bancar honorários de advogado da Ivy League?”

A cor sumiu do rosto dela. Nada assustava mais a Tinsley do que alguém desmascarar o teatrinho de rica.

“Você — isso é bullying!” ela guinchou, alto e estridente, a voz tremendo.

“Chama do que você quiser.” Eu dei uma risada curta, e então meus olhos pararam no pescoço dela.

Bem na borda da máscara de lama, perto da clavícula, havia uma bolinha vermelha minúscula. Do tamanho de um grão de arroz, fácil de não notar. E bem no centro, um pontinho branco, apagado.

Os esporos já tinham entrado. Um deles encontrou um folículo e começou a criar raiz na gordura sob a pele.

Eu puxei Dani pra trás antes que ela acertasse um golpe. “Deixa, Dani. Não suja suas mãos. Pra que perder tempo com uma mulher morta?”

“O que isso quer dizer?” Tinsley berrou.

“Nada.” Eu me virei pra porta. “Aproveita seu Lótus Vermelho Milagroso. Tomara que teu corpo aguente tão bem quanto essa tua boca.”

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