Capítulo 2

Acordei na manhã seguinte com o telefone tocando e a cama gelada ao meu lado.

— Alô? — eu grasnei no telefone, esfregando os olhos com os dedos.

— Eu te acordei? — uma voz mordaz me fez sentar na cama, alerta. O sono sumiu dos meus olhos, e eu endureci o coração contra a enxurrada de insultos prestes a vir.

— N-não… eu já tava acordada — gaguejei, saindo da cama como uma criança culpada.

— Ah, é? Você acha que pode mentir pra mim? — a mãe do meu companheiro bufou. — É por isso que você não tem um filho. Que mulher responsável dorme até as nove da manhã? — exclamou, e eu me encolhi, afastando o telefone do ouvido.

— Dona… — tentei explicar, mas ela me cortou.

— Não. Não! Deixe eu terminar! Eu ouvi dizer que você foi ontem a mais uma charlatã, então me diga: já está grávida? — minha garganta se apertou. Eu quis me enfiar debaixo da cama, de tanta vergonha que me invadiu. — Já recebeu um bebê mágico agora? — ela debochou. Minha garganta ficou seca e meu peito se contraiu.

— Dona… — comecei de novo, mas ela me interrompeu com um rosnado que me paralisou em silêncio.

— Você é companheira do meu filho há mais de cinco anos e não tem nada pra mostrar por isso. — As palavras familiares escorreram da boca dela. Eu tentei endurecer o coração, mas foi inútil. As palavras dela afundaram direto no meu peito.

— Dona, nós… nós estamos tentando — expliquei, mas ela soltou um bufar, um som de desprezo e escárnio.

— Dona? Dona!? Quem é sua mãe? Uma mulher estéril como você nunca pode ter saído de mim.

— Dona! — exclamei, boquiaberta.

— Cala a boca! Eu disse que não sou sua mãe! — ela gritou. — Eu soube desde o minuto em que ele te escolheu que estava cometendo um erro, mas ele se recusou a ouvir. E agora olha a vergonha e a desgraça que você trouxe pra nossa família! Até a irmã mais nova dele, que é companheira há menos de um ano, já está esperando um filho! — ela berrou comigo. Eu imaginei o rosto dela, vermelho e furioso, através das lágrimas que se juntavam nos meus olhos. — Você tem uma pedra no lugar do útero? Você não é nada além de azar! Se não consegue dar um herdeiro a ele, então deixa ele em paz!

— Você… — mordi o lábio.

— Sim, eu disse! Deixe meu filho em paz! Deixe minha família em paz! Você dá azar, então faça um favor pra nós e deixe ele! — ela encerrou a ligação, e por um longo tempo eu fiquei com o telefone junto ao ouvido, repetindo as palavras dela na minha cabeça.

Deixe o Jackson.

Não era a primeira vez que ela me pedia para deixá-lo. Mesmo antes de ficarmos juntos, a Luna Martha nunca gostou de mim, mas eu amava o Jackson.

Quando eu ouvia a palavra “perfeito”, a minha mente sempre ia até ele. Com o cabelo loiro-areia e os olhos azuis, os ombros largos e o corpo alto e esguio, era difícil não gostar dele. A aparência, somada ao jeito descontraído, deixava tudo ainda mais perfeito. Ele sorria muito e era genuinamente gentil. Eu amava o Jackson antes mesmo de entender o que era amor; então, quando ele fez vinte e dois anos e ainda não tinha encontrado a companheira, eu pulei de alegria quando ele me escolheu.

Apesar de toda a resistência que ele enfrentou da mãe por me escolher, ele me defendeu. Ele me amava e eu o amava. Eu me considerava sortuda por ser amada por um homem como ele. Mesmo quando as pessoas começaram a comentar sobre minha barriga lisa, ele ficou do meu lado, mas, desde alguns meses atrás, as coisas mudaram. Eu nem saberia dizer o que aconteceu. Eu só sentia que ele estava se afastando de mim.

A ideia de uma vida sem o Jackson me enchia de um tipo de medo que eu não sabia explicar. Eu abandonei tudo para ficar com ele. Eu escolhi ele em vez da faculdade dos meus sonhos e me dediquei a ser a Luna perfeita para ele. Se eu perdesse o Jackson…

Eu sabia que estava perdendo ele, e sabia que a única coisa faltando no nosso relacionamento era um filho, então me esforcei ainda mais para engravidar. Mesmo assim, a deusa não olhou na minha direção nem uma vez. Os médicos diziam que estava tudo bem. Nós éramos um casal normal, então por que não conseguíamos ter filhos?

Enquanto eu tentava começar o meu dia apesar das palavras cruéis com que acordei, e da dor crescente abaixo do meu umbigo, meu telefone tocou de novo. “Janet” piscou na tela, e eu suspirei.

— Alô? — engoli em seco quando a voz da minha melhor amiga encheu meu ouvido. Janet era minha melhor amiga e a irmã mais nova do Jackson. Quando crianças, éramos inseparáveis, mas nossa relação tinha ficado tensa nos últimos meses.

— Espero que você não fique mal — ela disse quando eu não consegui responder ao cumprimento. — A mamãe acabou de me ligar, e eu sei que ela disse coisas dolorosas, mas ela não quer dizer aquilo — disse ela, e eu soltei uma risada rouca.

— Ela quis dizer cada palavra que disse — murmurei, dobrando as pernas sob o corpo ao me sentar e pressionando a barriga.

— Não, não leve o que ela disse tão a sério, Channy. A mamãe está ansiosa, só isso. Você sabe que as coisas estão difíceis para todo mundo. Jackson é o Alfa. Ele precisa de um herdeiro para garantir a posição dele.

Eu ri alto.

As coisas estavam difíceis para todo mundo? Era eu quem tinha que ir a médicos para todo tipo de exame invasivo, tomar centenas de comprimidos diferentes, ajoelhar no templo até os joelhos descascarem, arrastar um cervo montanha acima e beber o sangue dele. As coisas estavam difíceis para todos, mas era eu quem tinha que aguentar os olhares de desprezo dos membros da alcateia. Era eu quem virava alvo dos insultos da minha sogra. Era eu quem vivia com medo constante do futuro e com angústia por causa de como o meu companheiro me tratava. Se as coisas estavam difíceis para todo mundo, então o que eu diria? Que para mim eram fáceis? Será que alguém estava tão ansioso quanto eu por uma criança?

— Eu não tentei o meu melhor? — Não consegui impedir que a amargura vazasse no meu tom. — Eu fui a todos os médicos desta região. Os médicos dizem que está tudo bem comigo, então—

— Você está insinuando que o problema aqui é o Jackson? — Janet me interrompeu num tom cortante, e eu pisquei.

— Não? — perguntei, confusa. Embora ele só tivesse ido ao hospital comigo uma vez, o médico disse naquele dia que também não havia nada de errado com Jackson.

— Não, está parecendo que você está dizendo que o problema aqui é o meu irmão — rosnou Janet.

— Eu nunca disse isso — exclamei, puxando o cabelo, frustrada. — É só que… talvez a hora certa…

— A hora certa? — Ela me cortou de novo. — Jackie escolheu você porque precisava de uma companheira para dar os filhos dele. Ele está quase com trinta anos e sem um filho! Em que momento ele vai criar os filhos? Quando estiver velho e fraco? Você percebe que quanto mais cedo ele tiver um filho, mais cedo ele pode se aposentar? Você quer que ele lidere a alcateia até ficar velho e exausto!? — ela exclamou.

— Não… eu só… — Minhas sobrancelhas se franziram diante da raiva no tom dela. — Janet, por que você está falando assim? — perguntei, confusa, afastando o telefone da orelha para conferir o identificador de chamadas.

— Olha, todos nós já tivemos paciência até demais. Eu sou sua amiga, então quero o melhor para você, tá? Tente engravidar o mais rápido possível se você se importa com o seu casamento.

Fiquei ouvindo o sinal mudo quando ela desligou.

— Quanto tempo? — murmurei para mim mesma, com os olhos ardendo. — Quanto tempo vai demorar?

Toquei minha barriga lisa e cerrei os dentes quando um soluço ameaçou escapar. Fechei os olhos para segurar as lágrimas que se juntavam, mas meu estômago revirou e eu corri para o banheiro para vomitar.

Encostei as costas no azulejo frio da parede do banheiro e deixei as lágrimas caírem. Enfiando a cabeça entre os joelhos, gritei até ficar sem ar. Gritei até a garganta ficar em carne viva, até a mandíbula doer. Minha mente voltou à noite anterior e minha pele se arrepiou. Eu me senti barata, suja e nojenta.

Meu estômago embrulhou de novo e eu me debrucei sobre o vaso, vomitando, sozinha naquela casa enorme, sozinha e com medo do futuro.

Uma dor rasgou minhas entranhas e as lágrimas escorreram pelos cantos dos meus olhos. Eu fechei e abri os punhos, tentando ser forte, mas a dor se intensificou e eu acabei chorando feito um bebê.

Parecia que o mundo estava se fechando sobre mim. Minhas mãos e pernas tremiam quando me forcei a ficar de pé. Lavei o rosto e encarei de volta a criatura fantasmagórica que me encarava com olhos vermelhos, cansados.

Outra fisgada atravessou meu estômago e eu engasguei. Uma onda de tontura me invadiu e, então, decidi que precisava ir ao hospital. O hospital era um pesadelo para mim. Eu odiava o hospital, mas, com uma dor aguda rasgando por dentro, eu sabia que tinha que ir, então liguei para o meu companheiro.

Liguei uma vez, duas, depois três. Liguei arfando por ar. Devo ter ligado vezes demais, porque, quando disquei de novo, a linha dele estava desligada.

Fui dirigindo sozinha até o hospital.

Com uma mão no volante e a outra segurando a barriga, dirigi até o hospital, esperando e rezando para não bater o carro.

— A ginecologista não… — disse a recepcionista assim que eu entrei. — Ei… Luna… você está bem?

Ela saiu correndo de trás do balcão. Era uma pergunta boba, mas eu abri a boca num suspiro.

— Qualquer médico… — Não consegui terminar a frase quando o chão veio ao meu encontro.

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