Capítulo 5 Capítulo 5

Capítulo 5

Aisha Saad

Era o barulho do alarme de incêndio,

aquilo não poderia estar acontecendo comigo, por Deus. Como eu sairia sozinha

por aqui, sem conhecer nada e sem a ajuda de um guia, como encontrei quando

cheguei e consegui resolver tantas coisas?

Meu corpo ficou tenso, enquanto

aquele barulho me assustava. Fui batendo nas prateleiras, senti produtos caírem

em cima de mim, mas me esforcei para conseguir sair.

Quando cheguei na porta, quase chorei de emoção, não queria morrer bem agora que estava tão perto da minha liberdade, não era justo.

Com os ouvidos super em alerta e

sentindo o ambiente mais quente, eu parei em frente à porta do quarto, tentando

ser racional e não me desesperar.

Pessoas falavam ao mesmo tempo,

contei quatro passos da porta para frente e fui andando, mas parei quando

percebi que tantas pessoas batiam e encostavam em mim, o que me deixou

desesperada, sem saber o que fazer.

“Eu queria tanto ver. Queria saber o

que estava acontecendo.”

— Alguém me ajuda? O que está

acontecendo? — chamei, sem saber para quem. Bati a bengala no chão, mas todos

estavam se afastando. Será que ninguém me ajudaria? Uma cega não tem valor nem

aqui? Onde ouvi falar que cegos eram respeitados, e principalmente mulheres? —

alguém bateu no meu braço com força e, para meu total desespero, a minha

bengala caiu. Me abaixei e comecei a procurar, sujando a mão pelo chão, parecia

ter corrido de mim, não encontrei. Espalhei as palmas das mãos por vários

lados, também reparei que o barulho parou.

— Ai. — Alguém pisou nos meus dedos,

doeu bastante, fiquei nervosa, mas não achei a bengala, até que alguém encostou

em mim.

— Calma moça, está aqui a sua

bengala. — A voz era de uma mulher. Tentei levantar o rosto, e por impulso, abri bem os olhos, eu queria muito voltar a enxergar.

— Obrigada. Eu não sei o que está

acontecendo, estou tão perdida. Pegou fogo no hotel? — a moça me ajudou a

levantar, eu fiquei muito apavorada.

— Não, fique tranquila. Foi apenas

um disparo do alarme de incêndio por falta de manutenção. Esse hotel está cada

vez pior. O dono não investe há muito tempo, foi recentemente preso e daí causa

esse alvoroço.

— Então, não está pegando fogo? —

respirei um pouco aliviada, me apoiando na bengala.

— Não, volte para o seu quarto. Quer

ajuda? — automaticamente me lembrei que ninguém poderia saber onde eu estava, e

também havia contado os passos.

— Imagina, não precisa. Muito

obrigada, obrigada mesmo, mas agora consigo voltar. — De repente, percebi o

cheiro dela, era muito parecido com aquele perfume forte que esbarrou em mim

pela manhã, mas porque estava tão diferente? Parecia gentil, até a voz era

diferente, “era outra”.

— Tem certeza? Não me custa

ajudar...

— Eu vou ficar aqui, vou tomar um ar

um pouquinho. — Menti. O mensageiro do hotel seria prejudicado se descobrissem

onde eu estava.

— Está bem, se cuida. — Eu agradeci

e fiquei no mesmo lugar, não tinha certeza se a mulher já havia ido, e serealmente não tinha incêndio, mas não tive outra opção. Precisava voltar para o quarto ou ir até a recepção, mas com o movimento, era arriscado me derrubarem.

Quando o cheiro da mulher diminuiu,

eu dei quatro passos para trás, e me virei, apalpando as paredes à procura da

porta, até que encontrei.

Fiquei em silêncio tentando ouvir vozes, mas parecia ser apenas um susto.

Comecei a andar devagar, me lembrei

do percurso e como era o quarto, então fui me abaixando e colocando as coisas

que caíram no lugar, tentando me acostumar com o mau cheiro que voltei a sentir

bem forte, vindo do esgoto.

Guardei a bengala ao lado da cama.

Já estava acostumada a arrumar camas pequenas como essas, sempre arrumei a

minha e a dos meus três irmãos, é uma tarefa simples para mim, depois de tanto

tempo. Então, deixei bem arrumada, tirei o hijab e os sapatos, e deitei.

Havia uma fresta de onde vinha o

cheiro do esgoto, passava vento e tive medo de aparecer ratos. Então, não

consegui dormir, passei a noite com medo, me virando de um lado para o outro.

Acabei pegando no sono pela manhã e

acordei com o barulho de batidas na porta. Vesti o hijab que estava na bolsa e

os sapatos, contei os passos até a porta, mas só abri porque ouvi a voz do

rapaz que me deixou ficar, dizendo que era ele.

— Que bom que veio. Alguma notícia

de trabalho? — segurei na parede e na bengala, ansiosa por uma boa resposta.

— Olha, eu não sei exatamente. A

moça da recepção comentou que ontem, em meio ao alvoroço do disparo do

incêndio, esqueceu de te dar um recado e agora você já tinha feito checkout,

então não teria como te dar.

— Você perguntou o que era?

— Sim. Mas lembrando, você não pode

ir até ela, aqui é como se você tivesse ido embora. Pode sair pelos fundos para

comer em alguma das lanchonetes lá de fora.

— Está bem. — Eu esperava pela

notícia.

— Bom, o recado era que Aaron Saad

ligou e perguntou se você estava hospedada aqui, e como foi antes do checkout e

mudança de turno, ela confirmou. Ele disse que viria ontem mesmo atrás de você

e agradeceu...

— Não pode ser.— Fiquei paralisada.

Se Aaron me encontrasse era o meu fim, eu precisava sair imediatamente deste

lugar.

Automaticamente vieram na minha

cabeça as palavras que ele usou na última vez que me ligou ainda em Israel,

quando precisei jogar o celular fora:

“Te achei sua safada. Não ouse fugir

daí, vou te levar agora mesmo para o seu noivo, ele aceita que tenha saído sem

permissão, desde que se case imediatamente.“ — comecei a mover a cabeça,

negando.

A bengala caiu no chão, com a

tremedeira e o desespero que me deu. Não me casaria com aquele velho

repugnante. Não, não casaria...

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