Capítulo 3 - Ele é lindo

Joana

"Hoje está um ótimo dia, não acha?"

"O quê? Você me ouviu, Sr. Jaime? Eu quero terminar nosso noivado."

"Eu vejo que seus problemas ainda não foram resolvidos." Senti ele apressando-se para mover minha cadeira de rodas. "E quanto ao nosso plano anterior de nos encontrarmos hoje?"

"Planos anteriores?"

"Isabela, você e eu estamos noivos, não estamos? Temos que planejar, você deveria me dar a data hoje, é por isso que estou aqui, querida. Seu pai não quis participar disso e deixou a decisão para você."

"Por favor, volte para sua casa. Eu não tenho mais sentimentos por você... pelo Marquês de Madrid."

"Isabela!" Ele saiu de trás de mim e parou na minha frente. "O que você está fazendo?"

"Desculpe." Fiz uma cara forçada, como é difícil dar um pé na bunda de alguém, pensei que seria mais fácil, só tinha dispensado meu ex-namorado babaca que me traiu.

"Por que você está falando assim de repente?"

Meu Deus! Que homem persistente, o que posso fazer para me livrar dele sem causar estresse?

"Refleti muito de ontem para hoje, desculpe, Senhor e Marquês." Baixei a cabeça para que ele fosse embora.

"Mesmo sendo um casamento pelo bem de nossas famílias, pensei que nosso relacionamento fosse mais profundo! Você não me ama mais?"

A melhor maneira de terminar um relacionamento é ser honesta, todo mundo sabe disso. E aquele homem precisava ouvir algumas verdades.

"Agradeço por tudo que fez por mim, podemos continuar como bons amigos, você conhece minha família, mas o casamento está cancelado."

"Então toda minha dedicação a você foi em vão?" Ele endireitou a peruca e deu dois passos para longe de mim. "Eu estava errado sobre nossos sentimentos serem mútuos?"

"Sim, o marquês estava errado."

Aquele homem mudou dramaticamente e se aproximou de mim, seu olhar emanava raiva e decepção. Jaime se abaixou e me agarrou rudemente pelo pulso direito.

"O que a família Bourbon quer é a posição social da família Orleans! É por isso que seu pai veio até mim como um rato velho e propôs este casamento. Todo mundo sabe que sua família está em declínio."

"Então, por favor, me solte agora. Você está me machucando."

"Você é uma ingrata! Deveria ser grata a mim por concordar em me casar com você, uma pobre coitada que não pode andar, pare e pense se outro homem vai te aceitar como você é."

"O que você disse?" Fortaleci meus braços e consegui escapar do aperto de sua mão. "Aproveite bem seus anos restantes, porque com esse pau murcho, é improvável que qualquer outra mulher que se respeite vá querer você."

"Modere sua língua, não se refira a mim como você." O babaca me deu um tapa no rosto e senti minha pele esquentar. "A partir de agora, serei seu marquês e marido, não importa o quanto você lute, não pode escapar deste casamento."

"Eu já disse, não haverá casamento." Retruquei sem desviar o olhar de seus olhos furiosos.

"Sempre te vi tímida, coloque-se no seu lugar e não fale mais alto ou ao mesmo tempo que seu futuro marido."

"Abri meus olhos, tive um vislumbre de como seria minha vida depois de me casar com você, não quero mais isso. Por favor, saia das minhas terras e não volte."

"Que rebeldia a sua, garota insolente. É melhor se preparar para servir obedientemente ao seu futuro marido."

Esse cara... como eu queria poder me levantar e chutar suas bolas murchas! Jaime arrumou seu terno de veludo e se afastou de mim. O desgraçado me agrediu e me deixou em uma cadeira de rodas no meio do jardim, que estupidez.

Vivo em uma época que mal entendo, me recuso a passar todos os dias aqui casada com um babaca!

"Vou ter que pensar em outra maneira..." murmurei e comecei a me mover girando as rodas, felizmente dois meninos escravos apareceram e me ajudaram a voltar para casa.

~

Finalmente aceitei minha nova vida como Isabela. Era intenso e real demais para ser um sonho, quem sonha por tantas horas? Se não houvesse mais possibilidade de voltar ao meu próprio tempo ou acordar daquele mundo, decidi me agarrar a ele e começar de novo do zero, esperando que nada do que eu fizesse mudasse o futuro.

Encontrei um caderno com anotações daquela jovem, quão tola ela era para escrever cartas de amor para aquele velho fedorento? Arranquei todas as páginas e, a partir de então, seriam minhas anotações. Se eu pudesse ser alguém com privilégios, desta vez faria tudo certo, começando por ajudar a abolir a escravidão, pelo menos inicialmente em minha casa.

Ouvi duas batidas na porta do meu quarto e prontamente autorizei a entrada.

"Temos um compromisso amanhã, filha." Revelou minha mãe, que caminhou sorridente em minha direção. "Esteja pronta cedo, você sempre se atrasa."

"Quem são os noivos?"

"Um duque desta nação, não sei quem é, mas seu pai o conhece, é alguém muito próximo de sua majestade, o rei Carlos II, da casa de Habsburgo."

"Tudo bem." Assenti, guardando minha euforia para mim mesma e fechei meu caderno, qualquer coisa escrita ali seria meu segredo.

"Quantos escravos você quer levar?"

Limpei a garganta.

"Precisamos conversar sobre isso, tenho o direito de exigir algumas regras nesta casa a partir de agora?"

Minha mãe franziu a testa e me olhou surpresa.

"Claro que tem, Isabela. O que você quer, jovem?"

"Devemos chamá-los pelos nomes, não de escravos." Comecei a suar frio, nunca se sabe qual será a reação dos seres humanos, sejam eles seus parentes ou não. "E além disso, devemos pagá-los pelos serviços, isso os deixará muito felizes."

Ela continuou me olhando ceticamente, mas logo vi um sorriso amigável florescer.

"Faremos como nossa filha deseja." Ela acariciou meu queixo.

"Obrigada por me ouvir, mãe, dentro do meu peito, eu sabia que você aceitaria." Suspirei aliviada; se ela aceitasse, meu pai também não resistiria.

"Mas por enquanto, não espalhe essa informação por aí, não podemos nos meter em problemas, certo?"

Assenti. Minha mãe saiu do meu quarto e me deixou perdida em meus devaneios sobre como me livrar de Orleans.

"Espere um minuto... Isabela, no casamento do duque, certamente verei vários convidados importantes, posso pensar em algo para usar a meu favor." Ponderei por alguns momentos, escrevendo as frases em cada linha do caderno. "Tenho informações que só alguém de fora deste mundo saberia. Não sei se algo assim funcionará com um nobre, mas... droga! Quem vai se interessar por mim? Maldita cadeira de rodas."

~

Na noite seguinte, nada de interessante aconteceu, apenas homens casados passaram por mim acompanhados de suas esposas e, entre nós, eu nunca concordaria em sair com alguém que estivesse noivo. De repente, para meu azar, ouvi aquela voz característica.

"Rápido, por favor, me tire daqui." Pedi abruptamente ao homem destinado a me guiar pela noite.

"Sim, senhora." Ele fez um esforço manual e começou a me afastar daquela voz.

Mas não foi o suficiente, alguns momentos depois nos encontramos no meio do pátio do palácio e, para minha surpresa, ele estava acompanhado por uma mulher de idade semelhante à dele.

"Que surpresa, Marquês Jaime! Adoraria te abraçar, mas acho que não posso por causa das minhas limitações." A mulher me encarou e depois desviou o olhar.

"Quem é essa mulher, Jaime?"

Ele forçou um sorriso através de seus dentes amarelados e tentou desviar da pergunta dela.

"Eu deveria estar fazendo essa pergunta, senhora. Ontem esse homem era meu noivo e agora está com outra mulher?"

Jaime de Orleans era descendente de uma poderosa família francesa que vivia na Espanha há muitos anos e me lançou um olhar severo, mas isso não me intimidou. Usei a mulher ao lado dele a meu favor, porque tudo o que eu queria era dar o troco na mesma moeda. O cara me enganou, na verdade, ele enganou essa garota tola ao afirmar ser um homem solteiro e, de fato, o idiota é casado. Mais uma vez, pedi ao meu empregado que me tirasse da presença daquele homem, e um sentimento de leveza tomou conta de mim enquanto me afastava.

Talvez tudo desse certo e eu não precisasse procurar outro homem para me ajudar, a esposa do marquês faria o trabalho sozinha. Meu servo me levou para fora do palácio e pedi que me deixasse sozinha, porque o ar puro e limpo do século XVI não se compara ao que respiramos no século XXI.

"Que droga!" Vi ele caminhando em minha direção com passos rápidos e concentrados.

De repente, enquanto eu tentava inutilmente virar a cadeira de rodas e sair dali, uma força repentina me agarrou.

"Está perdida, senhorita?" Fiquei aliviada com o timbre daquela voz penetrante.

Quem quer que fosse, virou-se e parou na minha frente. Quando Jaime se aproximou, não consegui conter meu nervosismo.

"Sou filha do Conde García Márquez de Valladolid." Suspirei, sem tirar os olhos do Marquês de Madrid. "Meu nome é Isabela Bourbon."

"Ah, a garota da família Bourbon. Ouvi coisas boas sobre você, sinto muito pelo seu infortúnio." Sua voz era cavernosa, mas reconfortante ao mesmo tempo, um verdadeiro mar de calma, que não combinava com o homem aparentemente carrancudo à minha frente. "Aquele velho de quase quarenta anos que você admira tanto é o Duque de Barcelona, Fernando Casanova, o que posso fazer por você?" Velho? Sério, ele acha que é o último pão da terra? Mas devo admitir, que homem bonito, ele só poderia existir em livros de romance, não é possível que ele já tenha existido em carne e osso. "Duque, esta é a primeira vez que nos encontramos, não me leve a mal, mas serei direta com o que quero." "Esse vestido não está muito curto? Suas pernas são bonitas para alguém em uma cadeira de rodas." Que comentário desnecessário, o que passa pela cabeça dele, não podia acreditar que ele olhou para minhas pernas.

"Me ajude!" Murmurei, evitando entrar no assunto do comentário dele.

Fernando era um homem alto, elegante, com uma aparência forte e imponente que desmentia sua verdadeira idade. Sua pele era naturalmente bronzeada, destacando sua aparência exótica e atraente.

Seu rosto era marcante e expressivo, com traços rústicos e olhos profundos que transmitiam um ar de mistério. Seu olhar penetrante e sobrancelhas ligeiramente arqueadas lhe davam uma expressão intensa e enigmática.

"Sempre digo que tudo é inesquecível na primeira vez. Até me conhecer é raro, então aproveite, minha doce senhora, porque dificilmente terá outra oportunidade como esta."

"O quê?" Aquele simples sorriso que ele me deu me deixou perplexa, que cara sem noção.

"Te assustei com minha voz e te deixei desorientada? Sei que é profunda e rouca às vezes, até eu me assusto, mas esse é meu charme, senhorita."

"Seu fascínio por si mesmo é fascinante, meu caro duque."

"Eu me amo antes de qualquer coisa." Ele enfiou a mão no bolso e tirou um relógio. "Se não precisa de mim, estou indo."

"Espere, tenho uma proposta a fazer." Disse com arrependimento na voz, claro que ele não aceitaria.

"Uma proposta?" Aquele sorriso era puro deboche.

"Não sei se é algo que devo dizer aqui... Sei algo sobre sua majestade."

Por trás daquele sorriso calmo, eu sabia que, com certeza, um homem astuto estava escondido.

"Ah? Que intrigante... Eu odeio aquele homem de duas caras!"

"O quê? Não fale assim do rei."

"Não há ninguém além de você e eu, por que se preocupar?"

Limpei a garganta, logo Jaime me alcançaria. Eu deveria dar mais detalhes.

"Os dias do rei estão contados" revelei algo bombástico que só alguém do futuro saberia e me enrolei ao redor do braço direito dele.

"Isabela? De todos os momentos... você se superou, garota!" Finalmente ele chegou, furioso, o homem rosnando como um cachorro velho. "Vamos, preciso te ensinar uma lição."

O Duque de Barcelona não gostou do fato de Jaime ter me arrastado e me libertou do meu tormento.

"Ele está no seu caminho?" Fernando me perguntou, sem desviar o olhar dos olhos arregalados de Jaime.

"O quê? Cuide dos seus próprios assuntos, meu caro nobre. Quem é você para tentar me impedir? Eu sou o Marquês de Madrid."

"Realmente... um marquês não é nada hoje em dia," disse Fernando com sua voz determinada.

Essa era minha melhor chance de me livrar de um ex-amante que eu nunca gostei. Aparentemente, a esposa de Jaime não resolveu nada, não pretendo viver sendo perseguida por ele. Antes que qualquer um deles pudesse dizer algo, abri a boca e acrescentei:

"Não acho que posso mantê-lo escondido por mais tempo, querido." Forcei um sorriso e olhei para o rosto de Fernando, esperando que ele entendesse minha atitude. "Sr. Orleans, sinto muito, mas o amante aqui era você, eu sempre estive com o Duque de Barcelona, ele é um homem experiente na cama que me satisfaz de todas as maneiras."

"O quê?" Ambos perguntaram ao mesmo tempo, e eu belisquei levemente o antebraço de Fernando Casanova, que homem bonito, mas extremamente lento.

"O rei..." sussurrei para ele.

"É verdade o que ela disse, estamos juntos."

"Isabela estava traindo ele comigo, meu nobre duque."

"Dizer isso diretamente para mim não faz diferença, você quer morrer?"

Jaime ficou assustado e deu alguns passos para trás.

"Bem, tenho que me despedir de você agora. Minha ajuda para minha carruagem está chegando." Meus servos se aproximaram do mesmo lado que Jaime.

"Por favor, tenha uma noite maravilhosa, meu amor!" Fernando disse com uma voz rouca.

"O que você acabou de dizer é verdade?" Mais uma vez, Jaime interferiu.

"Sim, é verdade. Eu me afeiçoei à filha da casa Bourbon."

"Como eu disse muitas vezes, nosso noivado acabou, Marquês Jaime." Minha voz estava firme, ele tinha que aceitar isso de uma vez por todas.

"Mas por que agora?"

"É tarde demais para se arrepender."

Meu servo cumprimentou os nobres e segurou o suporte para me guiar.

"Você quer cancelar nosso noivado?"

"Já está cancelado." Minha frase foi direta, sem hesitação na voz.

"Você realmente acha que tem o direito de..."

"Já chega, marquês, você pode seguir seu caminho."

"Claro, mas vou seguir meu caminho com essa garota, ela é minha noiva!"

"Você não ouviu o que ela disse?" Fernando o encarou sem vergonha, ele realmente havia abandonado seu lado arrogante e se juntado à minha causa. "Acredito que você ouviu que ela cancelou o noivado, então pare de pensar que ainda é seu noivo."

"Não sou do tipo de homem que vai ficar parado e deixar o vento destruir minha sala de estar."

"Feche a janela e o vento não destruirá nada."

Depois de ouvir a resposta de Fernando, Jaime me lançou um olhar vingativo e começou a se afastar.

"Obrigada por me ajudar, aquele homem estúpido me enganou."

"Quero te conhecer melhor, senhorita, adoro a maneira como você age e se comunica, você é uma mulher fora do comum." Ele sorriu e acariciou a parte de trás do meu pescoço, então meu salvador começou a se afastar.

Sério, ele acha que sou uma garotinha que precisa de tapinhas na cabeça?

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