Capítulo 1 Capítulo 1
Ellie
A primeira coisa que aprendi sobre a Flórida foi que ela não acreditava em espaço pessoal.
O sol não só brilhava ali — ele pressionava. Se inclinava sobre você como se tivesse algo a provar, como se estivesse pessoalmente ofendido com nuvens, sombra ou com o conceito de misericórdia. O ar era pesado, úmido e quente de um jeito que parecia menos verão e mais como ser lentamente cozida no vapor.
Quando a mãe enfiou o carro na entrada da garagem da nossa casa nova, minha blusa já estava grudada nas minhas costas.
Eu sentia falta do frio.
Sentia falta de camadas. Sentia falta de suéteres e moletons e botas e do jeito que o inverno me deixava me esconder. Sentia falta de como meu corpo podia desaparecer sob tecido macio e mangas largas demais.
Aqui, não havia onde se esconder.
“Ellie, querida”, disse a mãe, praticamente brilhando enquanto desligava o motor. “Não é lindo?”
Encarei a casa.
Chamar aquilo de casa parecia o mesmo que chamar um castelo de cabana.
Era enorme. Branca. Clara. Cercada por uma varanda que provavelmente dava para fazer um casamento pequeno. Palmeiras alinhavam o quintal como se tivessem saído de uma revista, e as janelas eram tão grandes e abertas que dava a impressão de que o lugar era alérgico à privacidade.
“Isso parece… caro”, eu disse com cuidado.
A mãe riu, jogando o cabelo para trás ao sair do carro. “O Marcus se dá bem.”
Marcus.
Meu futuro padrasto.
O homem que ela tinha conhecido fazia menos de um ano, numa conferência qualquer. O homem que, de algum jeito, tinha virado o centro do mundo dela em tempo recorde. O motivo de a gente ter se mudado de uma cidadezinha tranquila, cinzenta e fria no canto nordeste do país — onde ninguém olhava duas vezes para mim — para… isso.
Um lugar onde até a grama parecia mais saudável do que eu me sentia.
Joguei a mochila no ombro e saí do carro, imediatamente atingida por outra onda de calor.
“Isso é definitivamente… diferente”, eu disse.
Diferente era uma palavra educada para apavorante.
A mãe veio até mim e apertou meu braço. “Eu sei que é uma grande mudança. Mas pensa nisso como um recomeço. Lugar novo. Pessoas novas. Ninguém aqui te conhece.”
Era para aquela parte ser reconfortante.
Também era profundamente perturbadora.
Passei a maior parte da minha vida sendo invisível. Nem sofria bullying, nem era popular — eu só… estava lá. A garota quieta que sempre tinha um livro na mão. Aquela de quem os professores gostavam e que os colegas esqueciam.
Ser invisível era seguro.
Ser a novata significava ser vista.
E ser vista num lugar onde as meninas provavelmente usavam biquíni para comprar comida?
Isso parecia um pesadelo pessoal.
Olhei para mim.
Jeans. Tênis. Uma camiseta larga. Minha armadura de sempre.
Eu tinha um corpo tipo ampulheta, tecnicamente. Curvas nos lugares certos. Mas minhas coxas eram grossas, minha barriga não era chapada e eu nunca, nenhuma vez na vida, me olhei no espelho e pensei: Uau. Eu sou bonita.
Era mais: Dá pro gasto. Se ninguém olhar de perto.
“Vamos”, disse a mãe. “O Marcus deve chegar logo. Vamos te colocar lá dentro antes que você derreta.”
Lá dentro, felizmente, era fresco — mas ainda claro demais. Aberto demais. Arejado demais.
Tudo naquele lugar parecia esperar que alguém melhor do que eu morasse ali.
Estávamos na metade de levar as caixas quando eu senti.
Uma… pressão estranha.
Não era calor.
Não era frio.
Era só… alguma coisa.
Como se o ar tivesse mudado.
Como se o mundo tivesse inclinado, só um pouquinho.
Eu me endireitei devagar e olhei na direção da janela da frente.
E foi aí que eu vi.
Ele estava do outro lado da rua, ao lado de uma caminhonete preta.
Alto.
Largo.
Cabelo escuro.
Ele usava uma camiseta preta e jeans, e o tecido grudava nele como se tivesse medo de soltar. Os braços eram musculosos, os ombros, largos, a postura… alerta.
E ele estava me encarando.
Não de um jeito casual.
Nem de um jeito curioso.
De um jeito “que diabos é isso?”.
Nossos olhos se encontraram.
Alguma coisa se torceu com violência no meu peito.
Não eram borboletas.
Era como se meus pulmões tivessem esquecido como funcionar.
O corpo inteiro dele ficou rígido.
O maxilar travou.
Os olhos escureceram.
E então—
Ele desviou o olhar.
Completamente.
Como se eu não fosse nada.
Como se eu não existisse.
Como se eu não merecesse nem um segundo olhar.
Meu estômago despencou por motivos que eu não entendia.
“Uau”, mamãe disse, surgindo ao meu lado. “Essa cidade leva a boa forma muito a sério mesmo.”
Engoli em seco. “Aparentemente.”
Eu disse a mim mesma que não me importava.
Eu disse a mim mesma que ele era só mais um cara ridiculamente bonito da Flórida.
Eu disse a mim mesma que meu peito não estava… estranho.
Terminamos de desempacotar em silêncio.
Marcus chegou em casa uma hora depois.
Ele era alto, de ombros largos, com olhos gentis e uma presença que preenchia o ambiente sem sufocar.
“Ellie”, ele disse com carinho, estendendo a mão. “É muito bom finalmente conhecer você.”
Eu apertei. A pegada dele era firme, quente. “Prazer em conhecer você também.”
“Você é bem-vinda aqui”, ele disse. E soou como se falasse sério.
O jantar foi… estranhamente normal.
Eles conversaram sobre os planos do casamento. Sobre a cidade. Sobre como tudo era diferente de lá.
“Então o que as pessoas fazem por aqui?”, perguntei.
Marcus sorriu. “Coisas ao ar livre. Praia. Trilhas. Exercício. É uma cidade saudável.”
“Dá pra ver”, eu murmurei.
Mamãe riu. “Você vai se acostumar.”
Eu não tinha certeza se queria.
Naquela noite, eu não consegui dormir.
Tudo parecia quieto demais. Barulhento demais. Novo demais.
Na manhã seguinte, decidi explorar.
Eu caminhei.
E caminhei.
E caminhei.
E descobri que todo mundo aqui era bonito.
Os homens pareciam modelos. As mulheres pareciam influenciadoras. Até os velhinhos pareciam… agressivamente em forma.
Era como se eu tivesse me mudado sem querer para uma cidade povoada inteiramente por deuses gregos.
Eu estava na metade de um plano mental para virar eremita quando virei uma esquina—
E dei de cara com uma parede de músculos.
“Ai!” Cambaleei para trás.
Uma mão disparou e segurou meu braço.
“Cuidado”, disse uma voz grave.
Eu ergui os olhos.
E esqueci como respirar.
Ele era loiro. Alto. Olhos castanhos quentes. Um sorriso que devia ser ilegal.
“Desculpa”, soltei. “Eu não estava olhando.”
“Tudo bem”, ele disse, numa boa. Então franziu levemente a testa. “Você é nova.”
Não era uma pergunta.
“Ah… sou, sim. A gente acabou de se mudar.”
Algo… mudou na expressão dele.
Não foi ruim.
Não foi bom.
Só… intenso.
Então os olhos dele se arregalaram.
Só um pouco.
Como se ele tivesse visto algo impossível.
“Ah”, ele sussurrou.
“O quê?”, perguntei.
Ele piscou e então sorriu—grande, luminoso e charmoso demais. “Nada. Eu sou o Theo.”
“Eu sou a Ellie.”
“É bom finalmente conhecer você, Ellie.”
Finalmente?
Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, ele disse: “Se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você devia me procurar.”
“Tá…?”
Ele parecia querer dizer mais.
Aí pareceu reconsiderar.
“A gente se vê por aí”, ele disse.
E foi embora.
Eu fiquei olhando, confusa.
Então—
“Inacreditável.”
Eu me virei.
E lá estava ele de novo.
O cara de ontem.
Cabelo escuro. Olhos frios. Uma carranca como se fosse permanentemente gravada no rosto.
“Ah—oi?”, eu disse.
Ele me olhou como se eu tivesse ofendido pessoalmente ele só por existir.
“Fique longe do meu irmão”, ele disse, seco.
Minha boca se abriu. “Do seu… o quê?”
Ele deu um passo mais perto.
E o ar mudou.
Ele cheirava… incrível.
Como pinho e fumaça e alguma coisa selvagem.
“Eu disse”, ele rosnou, “fique longe dele.”
“Eu nem conheço ele”, retruquei, encontrando minha firmeza. “E com certeza não conheço você.”
“Ótimo”, ele disse, gelado. “Continue assim.”
Então ele foi embora.
Me deixando ali, com o coração disparado, completamente desnorteada.
Eu vi ele se afastar, raiva e confusão rodopiando no meu peito.
Eu ainda não sabia.
Mas eu tinha acabado de conhecer:
Blake.
E minha vida já não era mais minha.
