Capítulo 2 Capítulo 2

Theo

O vínculo me atingiu como a porra de um carro.

Não foi aquele puxãozinho gentil que tinham me ensinado a esperar. Não foi uma consciência lenta, nem uma pressão suave no peito.

Aquilo foi impacto.

Num segundo, eu estava virando a esquina perto do mercado, distraído com o fato de Sebastian ter estado estranhamente calado a manhã inteira e de Blake ter estado estranhamente… Blake. No segundo seguinte, uma garota esbarrou em mim, e o mundo inteiro ficou silencioso, como se o universo prendesse a respiração.

Meu lobo avançou dentro de mim.

Minha. Minha. Minha.

Meu coração bateu com tanta força que doeu.

Segurei-a pelo braço antes que ela caísse e, quando meus dedos se fecharam em torno da pele dela, alguma coisa se encaixou dentro de mim com uma perfeição tão exata que chegou a ser assustadora.

Companheira.

Encarei-a de cima, e meu cérebro engasgou, tentando conciliar a realidade com o que o meu corpo já sabia.

Ela não era o que eu esperava.

Não porque não fosse bonita — ela era, de um jeito suave, real, que fez meu peito doer —, mas porque ela era… humana. O cheiro era inconfundível. Baunilha morna e papel e algo doce como canela, entrelaçado com sol e suor de caminhar no calor. Não havia lobo por baixo. Nenhum indício de transformação. Nenhum cheiro de alcateia grudado nela.

Humana.

Nossa companheira era humana.

Os olhos dela estavam arregalados, um pouco assustados, e ela pediu desculpas na mesma hora, como se presumisse que eu estava irritado, como se esperasse que o mundo fosse duro com ela.

“Eu não estava olhando”, ela disse depressa, recuando atrapalhada, as bochechas ficando rosadas.

Meu lobo choramingou, ofendido por ela.

Senti uma vontade repentina, irracional, de me colocar na frente dela como um escudo.

Como se o mundo pudesse machucá-la só de olhar.

“Tá tudo bem”, eu consegui dizer, mas minha voz saiu mais grave do que o normal. Mais áspera.

Ela piscou, me encarando. “Você… tá bem?”

Não.

Eu não estava bem.

A minha vida inteira tinha se rearranjado em dois segundos.

Companheira.

A Deusa da Lua tinha decidido me dar — nos dar — uma companheira e a entregou direto nos meus braços, como se fosse algum tipo de piada doentia.

Porque ela era humana.

E, no nosso mundo, humana significava vulnerável.

Humana significava frágil.

Humana significava que todo inimigo que a nossa família já fez veria nela uma fraqueza a explorar.

Meu olhar percorreu o corpo dela sem pedir permissão. Ela vestia jeans, tênis e uma camiseta larga que não fazia nada para destacar suas curvas, mas eu ainda assim via o contorno dos quadris, a maciez das coxas, o jeito como ela se sustentava como se quisesse desaparecer.

Como se tivesse aprendido a ser pequena.

Meu lobo rosnou.

Não para ela.

Para a ideia de que alguém, algum dia, tivesse feito com que ela sentisse que precisava se encolher.

— Você é nova — eu disse. Não foi uma pergunta. Era um fato que minha loba me deu, pelo jeito como o cheiro dela não pertencia à nossa cidade.

— Ah… sim. A gente acabou de se mudar — ela respondeu.

Se mudar.

Minha mente disparou. Humanos novos não simplesmente se mudavam pra cá. Não sem permissão. Não sem a matilha saber. Não sem—

A não ser que.

Meus pensamentos saltaram para Marcus.

O beta.

O braço direito do meu pai.

Se um humano se mudasse para território da matilha, Marcus saberia primeiro.

E se Marcus sabia…

Forcei meu rosto a parecer casual, algo amigável para humanos. Sorri, porque sorrir era mais fácil do que explicar por que meus olhos provavelmente estavam brilhando com pânico de lobo.

— Nada — eu disse quando ela pareceu confusa. — Desculpa. Eu sou o Theo.

— Ellie — ela respondeu. — Prazer em conhecer você.

Ellie.

O nome se acomodou dentro de mim como se pertencesse ali.

Meu peito apertou com tanta força que pareceu dor.

— É bom finalmente conhecer você, Ellie — ouvi a mim mesmo dizer.

Finalmente.

A palavra escapou antes que eu pudesse impedir.

As sobrancelhas dela se franziram, e meu estômago afundou, porque é claro que ela percebeu.

— Como assim…?

Eu me apressei em falar, rápido:

— É que… ahn. Não aparece gente nova por aqui com frequência. É bom conhecer alguém novo.

Não era exatamente uma mentira.

Só não era a verdade.

Ela me analisou, hesitante. Como se esperasse que eu risse dela. Como se esperasse que eu decidisse que ela não valia a conversa.

Algo dentro de mim ficou violentamente imóvel.

— Se você precisar de alguma coisa — eu disse, a voz ficando mais suave sem eu querer. — Qualquer coisa. Você devia vir me procurar.

Os lábios dela se entreabriram, como se ela não soubesse o que fazer com gentileza.

— Tá…? — ela disse, mas a palavra saiu insegura.

A vontade de prometer o mundo a ela foi repentina e ridícula.

Eu tive que lutar contra o instinto de tocar nela de novo.

Tocar nela fazia o vínculo rugir mais alto. Fazia minha loba exigir mais.

Minha.

Dei um passo para trás, forçando espaço entre nós, porque eu não confiava em mim para não fazer alguma coisa insana — como cheirar ela, marcar ela, carregar ela pra casa e dizer ao meu pai que a Deusa da Lua tinha entregue nossa companheira embrulhada em luz do sol e papel e canela.

— A gente se vê por aí — eu disse, baixo.

E então fui embora antes que eu estragasse tudo.

Antes que eu assustasse ela.

Antes que eu dissesse a palavra companheira em voz alta e visse o mundo dela se despedaçar.

Quando eu finalmente voltei para a casa da matilha, minha pele parecia apertada demais.

Nem era tão longe assim, mas minha loba ficava tentando me fazer dar meia-volta, ficava me puxando de volta até Ellie como se ela fosse oxigênio e eu tivesse dado minha primeira respiração e não soubesse como parar.

Empurrei as portas da frente e entrei direto no peso familiar do cheiro da matilha — cedro, terra, fumaça, força.

Lar.

Normalmente, aquilo me ancorava.

Hoje, parecia uma jaula.

A voz do meu pai veio flutuando pelo corredor. Alfa Weston. Conversando com alguém — provavelmente Marcus. As vozes estavam baixas, sérias. Aquele tipo de tom que significava assunto da matilha.

Eu devia ter ido até eles.

Eu devia ter contado sobre a humana.

Mas meus pés me levaram para a escada.

Na direção dos meus irmãos.

Porque aquilo não era só assunto da matilha.

Aquilo era sobre nós.

Blake estava na sala de treino, claro.

Ele sempre estava.

Se não estava lutando, levantando peso ou correndo, estava remoendo as coisas como se isso fosse um esporte.

Ele estava sem camisa diante do espelho, enfaixando as mãos, os músculos se retesando enquanto apertava o pano ao redor dos nós dos dedos. O suor deixava a pele brilhando, e a energia do lobo dele se desprendia em ondas afiadas o bastante para cortar.

Sebastian estava sentado no banco ali perto, calmo como sempre, passando um pano numa lâmina como se estivesse limpando uma arma antes de uma guerra.

Os dois ergueram o olhar no instante em que entrei.

Os olhos de Blake se estreitaram. “O quê?”

O olhar de Sebastian ficou mais atento, silencioso e focado. “Você está com cara de quem viu um fantasma.”

“Eu vi uma coisa”, eu disse, e minha garganta pareceu fechar. “Eu conheci a nossa companheira.”

O silêncio veio na hora.

Absoluto.

Blake congelou no meio da faixa.

A mão de Sebastian parou sobre a lâmina.

Por um batimento, pareceu que a sala inteira parou de girar.

Então a boca de Blake se curvou num troço que não era exatamente um sorriso. “Não.”

“Sim.”

Os olhos de Sebastian não se arregalaram. Ele não reagiu como Blake — sem explosão, sem negação.

Ele só me observou como se conseguisse enxergar através da minha pele.

“O que ela é?”, Sebastian perguntou.

Engoli em seco.

Humana.

A palavra tinha gosto de perigo.

“Ela é… humana”, eu admiti.

O lobo de Blake se inflamou tão rápido que o ar ficou elétrico.

Ele jogou a faixa no chão com tanta força que ela estalou contra o piso. “De jeito nenhum.”

“Não cabe a você decidir”, rebati, porque alguma coisa no jeito como ele disse — como se ela fosse um problema, como se ela fosse nojenta — acendeu algo protetor em mim.

Blake deu um passo à frente, os olhos faiscando. “Nem a você.”

“É o destino”, eu disse, a voz tremendo. “É a Deusa da Lua.”

Sebastian se levantou devagar, afastando a lâmina como se não quisesse assustar uma bomba. “Onde ela está?”

“Na cidade”, eu disse. “Ela é nova. Acabou de se mudar pra cá.”

O maxilar de Blake se contraiu com tanta força que eu ouvi os dentes dele rangerem. “Humana nova em território de matilha e ninguém contou pra gente?”

Hesitei, então falei o pensamento que vinha fervilhando na minha mente desde que Ellie disse que nós tínhamos acabado de nos mudar.

— Acho que Marcus está envolvido.

Os olhos de Sebastian faiscaram, calculistas.

— Marcus.

O lábio de Blake se retorceu.

— O Beta está escondendo uma humana no nosso território.

— Não — eu disse, porque meu lobo empurrou a palavra para fora com certeza. — Não escondendo. Protegendo. Como se ela pertencesse a este lugar.

Porque ela pertence.

Porque ela é nossa.

Blake me encarou como se eu tivesse enlouquecido.

— Ela não é do nosso tipo — disse, seco.

Eu me eriçei.

— O que isso quer dizer?

Blake deu de ombros, cruelmente casual.

— Quer dizer exatamente o que quer dizer. Ela é uma garota humana de jeans e tênis, com ombros de quem carrega mochila, curvas suaves e… ela não pertence ao nosso lado.

Meu lobo rosnou.

Dei um passo à frente antes mesmo de perceber que estava me movendo.

— Não fala dela assim.

Os olhos de Blake brilharam.

— Assim como?

— Como se ela fosse um erro.

A voz de Sebastian cortou a tensão, baixa e controlada.

— Chega.

O olhar de Blake foi até ele e, por um instante, vi algo cru por trás da raiva.

Medo.

Ele estava com medo.

Blake não sabia ser outra coisa.

Sebastian voltou a olhar para mim.

— Você tem certeza.

— Com tudo o que há em mim — eu disse. — O vínculo estalou no segundo em que eu toquei nela.

Sebastian ficou imóvel.

— Tocou.

Eu assenti e, no mesmo instante, me arrependi de ter dito aquilo, porque o corpo inteiro de Blake se retesou.

Blake passou por mim me empurrando, como se eu nem estivesse ali.

— Theo — Sebastian chamou, cortante, e o tom me fez parar no lugar.

Eu me virei.

A expressão dele era indecifrável, mas os olhos estavam mais escuros agora. Mais perigosos.

— Ela viu alguma coisa? — ele perguntou. — Ela sentiu alguma coisa? Você disse alguma coisa que pudesse deixá-la desconfiada?

— Não — eu disse depressa. — Eu não disse… eu não contei.

Sebastian assentiu uma vez.

— Bom.

Blake já tinha saído do cômodo.

Theo — eu fui atrás, o pânico subindo.

— Blake! Espera!

Mas Blake não esperou.

Ele nunca esperava.

Desceu o corredor como se fosse rasgar o mundo ao meio com as próprias mãos.

E meu estômago se revirou, porque eu sabia exatamente para onde ele estava indo.

De volta para a cidade.

De volta para Ellie.

De volta para a garota que nem sequer sabia o que era para nós.

Corri atrás dele, meu lobo andando de um lado para o outro dentro dos meus ossos como um animal enjaulado.

Porque, se Blake a confrontasse—

Se ele a assustasse—

Se dissesse alguma coisa que não pudesse retirar—

Nós poderíamos perdê-la antes mesmo de tê-la.

E a Deusa da Lua não dava presentes duas vezes.

Não assim.

Nunca.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo