Capítulo 3 Capítulo 3
Blake
Não.
Essa era a única palavra na minha cabeça enquanto eu saía da casa da alcateia.
Não ao destino.
Não à Deusa da Lua.
Não a uma companheira humana.
Meu lobo era um traidor.
No segundo em que Theo disse as palavras, alguma coisa dentro de mim já sabia. No segundo em que ele disse companheira, meu peito se apertou, como um punho se fechando em volta dos meus pulmões. No segundo em que ele disse humana, meu lobo avançou com tudo, como se não ligasse para lógica, política ou sobrevivência.
Minha.
Eu odiava essa palavra.
Eu odiava o jeito que ela soava.
Eu odiava o fato de que meus pés já estavam me levando na direção da cidade antes que minha mente alcançasse.
Eu me movi rápido, cortando por entre as árvores, seguindo um cheiro que eu não deveria ser capaz de reconhecer com tanta facilidade.
Baunilha.
Papel.
Algo quente e macio e… dela.
Era ridículo.
Eu não queria isso.
Nós éramos os futuros Alfas da alcateia. Não apenas um — três. Um raro vínculo de tríade alfa que levou gerações para nascer de novo. Precisávamos de uma companheira que pudesse ficar ao nosso lado. Uma loba. Forte. Respeitada. Alguém que não quebrasse no instante em que o mundo ficasse afiado.
Não uma garota humana de curvas suaves e olhos tímidos e um cheiro que fazia meu lobo querer se deitar aos pés dela como um idiota.
Ela estava errada.
Ela era um erro.
Ela era—
Minha.
Eu xinguei baixinho e forcei mais o ritmo, a cidade surgindo à vista entre as árvores.
Eu a encontrei antes do que pretendia.
Ela estava sentada num banco perto de um cafézinho, um livro aberto nas mãos, as pernas recolhidas um pouco para o lado como se estivesse tentando ocupar menos espaço no mundo.
A visão dela me atingiu como um soco.
Não porque ela fosse deslumbrante do jeito que as mulheres da alcateia eram.
Mas porque ela era… real.
Suave.
Quietinha.
Alheia.
E meu lobo perdeu completamente a noção.
Minha. Companheira. Proteger. Reivindicar.
Eu cerrei os punhos com tanta força que as garras cravaram nas palmas.
Ela ergueu o olhar.
Nossos olhos se encontraram.
E alguma coisa elétrica estalou entre nós.
A respiração dela falhou.
Meu lobo avançou.
Eu dei um passo à frente antes de conseguir me impedir.
Então eu parei.
Porque o medo cortou minha raiva como gelo.
Se inimigos descobrissem…
Se rivais soubessem…
Se alguém ficasse sabendo que os futuros Alfas tinham uma fraqueza humana—
Ela não sobreviveria uma semana.
Eu virei o rosto, maxilar travado.
Ela se levantou, hesitante.
“Ah… oi”, ela disse, incerta.
O som da voz dela fez alguma coisa no meu peito que eu não queria nomear.
Eu encarei ela.
E forcei frieza na minha expressão.
“Fique longe do meu irmão”, eu disse.
As sobrancelhas dela se ergueram. “Seu… o quê?”
Eu dei um passo mais perto, deixando um pouco da minha presença vazar. Não a pressão alfa inteira — só o bastante para deixar o ar pesado.
“Eu disse”, rosnei, “fique longe dele.”
A confusão dela virou raiva.
“Eu nem conheço ele”, ela retrucou. “E com certeza não conheço você.”
Ótimo.
Que continue assim.
“Ótimo”, eu disse, gelado. “Que continue assim.”
Então eu fui embora antes que meu lobo fizesse alguma coisa imperdoável.
Antes que eu estendesse a mão para ela.
Antes que eu respirasse o cheiro dela de novo e perdesse o pouco controle que ainda me restava.
Eu não voltei para a casa da alcateia.
Eu corri.
Quilômetros. Rápido. Forte.
Até meus pulmões queimarem e meu lobo uivar dentro do meu crânio.
Ela é nossa.
Ela é frágil.
Ela precisa de nós.
Ela vai morrer.
Esse último pensamento me parou na hora.
Eu me transformei, ossos estalando, pelo explodindo sobre a pele, e rasguei a floresta até desabar perto do rio.
Quando voltei à forma humana, fiquei sentado ali na terra, ofegante, encarando o nada.
Isso era um desastre.
Sebastian veria na mesma hora.
Theo tentaria protegê-la.
E eu?
Eu estragaria tudo.
Porque alguma parte de mim já sabia a verdade.
Eu não queria ela morta.
Eu não queria ela machucada.
Eu nem queria ela com medo.
Eu só… não queria ela.
E essa era a mentira.
Ao cair da noite, eu voltei.
Theo estava esperando.
“Você assustou ela”, ele acusou.
“Eu avisei”, eu rebati.
“Você apavorou ela.”
“Ela devia ficar apavorada!”, eu estalei. “Ela não pertence ao nosso mundo!”
Sebastian estava atrás dele, em silêncio.
“Ela está no nosso mundo, você gostando ou não”, Sebastian disse baixo.
Eu desviei o olhar.
Porque meu lobo ainda estava andando de um lado para o outro.
Ainda inquieto.
Ainda sussurrando:
Minha.
E eu estava começando a perceber…
A Deusa da Lua não comete erros.
