Capítulo 4 Capítulo 4
Ellie
Decidi duas coisas na minha caminhada de volta para casa.
Primeiro: a Flórida era oficialmente o lugar mais estranho em que eu já tinha morado.
Segundo: eu nunca mais ia sair de casa.
Abracei meu livro contra o peito como se ele pudesse me proteger de homens agressivamente atraentes, com mudanças de humor e uma hostilidade sem explicação.
Eu não entendia nada daquilo.
Theo tinha sido... gentil. Gentil até demais. Como se estivesse me esperando, o que não fazia o menor sentido, porque ninguém espera por mim. As pessoas não me procuram em multidões. Não se iluminam quando me veem. Não agem como se me conhecer significasse alguma coisa.
E depois tinha Blake.
Grosseiro. Intenso. Irritado. Sem motivo nenhum.
Num minuto, ele tinha olhado para mim como se eu não fosse nada. No seguinte, como se eu fosse algo que ele queria destruir.
Ou proteger.
Eu não tinha certeza de qual era pior.
E a parte mais estranha?
Eu não conseguia parar de pensar nele.
O que era profundamente irritante.
Virei na rua que levava à casa de Marcus — minha casa agora — e diminuí o passo quando o vi.
Um terceiro.
Ele estava parado perto do portão da frente, com o celular na mão, o cabelo escuro preso na nuca. Ele ergueu o olhar quando me aproximei, os olhos atentos e analíticos.
Por um segundo horrível, achei que fosse Blake de novo.
Então percebi—
Ele era diferente.
Parecido. Mas diferente.
“Oi”, ele disse, com a voz calma e firme. “Você deve ser Ellie.”
Parei de andar. “Eu conheço você?”
“Não”, ele respondeu. “Mas sei que você é nova. Eu sou Sebastian.”
Meu estômago deu uma cambalhota estranha.
“Você... mora por aqui?”, perguntei com cuidado.
“Sim.”
Foi só isso. Apenas... sim.
Ele me estudava como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça.
“Me disseram que você esbarrou nos meus irmãos hoje.”
Meu cérebro travou. “Seus... irmãos?”
Ele assentiu.
Ah.
Ah.
Então Blake não era só um idiota com um clone.
Era um idiota com irmãos.
“Quantos irmãos você tem?”, perguntei.
“Dois.”
Dois.
Então eram três.
Não era o mesmo cara agindo de forma estranha.
Eram três caras diferentes agindo de forma estranha.
Isso... quase conseguia ser pior.
“Desculpe pelo Blake”, Sebastian disse. “Ele não... lida bem com surpresas.”
“Essa é uma forma de dizer”, murmurei.
Um vestígio de sorriso tocou sua boca. “Theo gostou de você.”
Senti meu rosto esquentar. “Ele não me conhece.”
“Conhece o suficiente.”
Aquilo era... ominoso.
“Então”, eu disse, gesticulando para a casa atrás dele, “você está aqui para gritar comigo também ou...?”
“Não”, ele respondeu. “Estou aqui para me certificar de que você chegou em casa em segurança.”
Meu peito se apertou. “Por quê?”
Ele hesitou.
Então disse: “Porque esta cidade nem sempre é o que parece.”
Certo.
Aquilo era oficialmente assustador.
Naquela noite, sonhei com lobos.
Grandes. Escuros. Dourados.
E com um par de olhos azuis me observando da floresta.
