Capítulo 5 Capítulo 5
Sebastian
O problema não era o fato de ela ser humana.
O problema era que o mundo jamais a perdoaria por isso.
Vi Ellie desaparecer dentro da casa de Marcus e só relaxei quando a porta se fechou atrás dela. Mesmo assim, meu lobo permaneceu alerta, retesado sob a minha pele, como se esperasse que as próprias árvores atacassem.
Isso mudava tudo.
Não só para nós.
Para a matilha.
Para o equilíbrio de poder que existia havia décadas.
Uma companheira humana para três futuros Alfas não era apenas algo raro.
Era um risco.
E também... um milagre.
Afastei-me da casa devagar, forçando meus passos a permanecerem calmos, medidos. Por dentro, meus pensamentos já corriam três caminhos à frente, mapeando riscos, inimigos, desfechos.
Primeira prioridade: controle de informação.
Se as pessoas erradas descobrissem sobre ela, Ellie não estaria apenas em perigo.
Ela viraria um alvo.
Havia matilhas que nos odiavam. Matilhas que invejavam nosso território, nossa força, nossas alianças. Matilhas que esperavam por qualquer sinal de fraqueza.
Uma Luna humana em espera?
Aquilo era sangue na água.
Fui direto até Marcus.
Ele estava no escritório, de pé junto à janela, celular na mão, a postura tensa de um jeito que geralmente não era.
— Você sentiu — ele disse no instante em que entrei.
Não era uma pergunta.
— Sim — respondi. — Theo confirmou. Blake nega.
Marcus soltou o ar devagar e fechou os olhos.
— Ela é humana — ele disse.
— Sim.
— E filha da minha companheira.
— Sim.
Essa parte complicava ainda mais as coisas.
— Ela não sabe — disse Marcus. — Nada disso.
— Não pode saber — falei de imediato. — Ainda não.
Marcus se virou para me encarar.
— Você acha que conseguimos esconder isso dela?
— Não — fui sincero. — Mas podemos controlar quando ela vai descobrir. E como.
Marcus passou a mão pelo rosto.
— Eu nunca deveria ter trazido ela pra cá.
— Você não teve escolha — eu disse. — Ela é sua. E, cedo ou tarde, ela viria.
Porque o destino tem memória longa.
— Blake vai tornar isso mais difícil do que precisa — disse Marcus.
— Vai — concordei. — Mas ele vai se alinhar.
Marcus me estudou.
— Você já está planejando.
— Eu preciso.
Voltei a olhar para a janela, para as árvores, para as fronteiras invisíveis do nosso território.
— Precisamos aumentar as patrulhas em silêncio. Sem anúncio. Sem mudança visível. Só... mais olhos.
Marcus assentiu.
— Eu cuido disso.
— E o conselho — acrescentei. — Eles não podem saber ainda.
— Eles vão exigir explicações quando perceberem as mudanças.
— Sempre exigem — eu disse. — Eu cuido deles.
Marcus me olhou por um longo momento.
— Você se importa com ela.
Não era uma acusação.
Era uma constatação.
— Sim — respondi, simples. — E você também.
Blake era um problema.
Encontrei-o mais tarde naquela noite, nos penhascos, encarando o oceano como se quisesse se jogar nele ou lutar contra ele.
— Fugir dela não vai mudar nada — eu disse.
Ele não olhou para mim.
— Eu não estou fugindo.
— Você a rastreou pelo cheiro — rebati. — Isso não é indiferença.
O maxilar dele se contraiu.
— Ela não é uma de nós — ele disse. — Ela nunca vai sobreviver a este mundo.
— Isso não é motivo para rejeitá-la — falei com calma. — É motivo para protegê-la.
— E quando ela se machucar? — ele explodiu. — Quando alguém usar ela contra a gente? Quando ela morrer porque fomos egoístas o bastante pra mantê-la?
Dei um passo mais perto.
— Se isso acontecer, não vai ser porque ela é fraca.
Vai ser porque o mundo é cruel.
Os ombros de Blake cederam só um pouquinho.
— O destino não se importa com o que a gente quer — continuei. — Só se importa com o que é.
Theo foi mais fácil.
Sempre foi.
Ele estava sentado nos degraus dos fundos quando o encontrei, encarando o nada, um sorriso fraco no rosto, como se ainda pudesse senti-la.
— Ela está segura — eu disse.
Ele ergueu o olhar na hora.
— Você levou ela pra casa?
— Sim.
— Obrigado.
— Você já está envolvido — observei.
O sorriso dele não diminuiu.
— Ela é a nossa companheira.
Esse era Theo.
Verdades simples. Sem hesitação.
— Não seja descuidado — avisei. — A gente não sabe quem está olhando.
A expressão dele ficou séria.
— Você acha que alguém já sabe?
— Eu acho que sempre tem alguém que sabe — respondi.
Naquela noite, fiquei no meu quarto e encarei o mapa na parede.
Fronteiras. Terras de matilha. Velhos territórios rivais.
E imaginei uma garota humana com um livro nos braços, andando por um mundo que a devoraria com prazer se tivesse a chance.
Nós não vamos deixar isso acontecer.
Eu mexeria as peças antes mesmo de o jogo perceber que tinha começado.
Porque ela não era apenas a nossa companheira.
Ela era o nosso futuro.
E o mundo ou aceitaria ela...
Ou queimaria.
