Capítulo 2
Na hora do almoço, encontrei Chloe perto da máquina de café, na sala de descanso. Expliquei para ela a situação real do orçamento, do começo ao fim. Quando terminei, minha garganta estava seca.
— Então agora você entendeu, certo? — perguntei, olhando para ela.
Chloe franziu a testa e, por um segundo, achei que ela tinha mesmo prestado atenção. Mas, no instante em que me virei para ir embora, ela soltou uma risada fria, debochada.
— Arthur, uau. Você pensou bastante nessa.
Congelei. O jeito como ela disse foi tão cortante que doeu.
— Então essa é a historinha que você inventou pra encobrir o seu esqueminha de propina — jogar uma desculpa de que a empresa tá mal das pernas e esperar que eu engula?
— Você não acha mesmo que eu sou uma novata idiota, né?
— Gente de finanças sempre paga de profissional, como se estivesse acima de tudo, mas por trás? Nota fiscal fria, propina... vocês vivem disso.
Ela jogou o cabelo loiro para trás e ergueu o queixo, como se tivesse acabado de solucionar o caso.
— Todo mundo sabe que esse novo contrato de firewall vale mais de dez milhões de dólares. E você quer que eu acredite que a empresa não consegue nem bancar um jantar?
— Ah, por favor. Se vai mentir, pelo menos faz parecer verdade.
Eu fiquei atônito. Minha cabeça zumbia.
Chloe avançou batendo os saltos, parou bem na minha frente e olhou para mim de cima, como se estivesse me julgando.
— Enquanto eu estiver aqui, um parasita do ambiente de trabalho como você não vai sair impune roubando os funcionários.
Foi aí que eu, de repente, voltei a mim.
Eu não tinha recebido propina nenhuma. Então por que eu, um homem adulto, estava perdendo tempo me explicando para alguém tão delirante?
Assim que a segunda pausa de almoço acabou, Chloe voltou direto para o escritório aberto e começou a armar um escândalo. Ela se levantou num pulo da mesa e gritou para o salão:
— Pessoal! Tem cento e vinte pessoas nesta empresa!
— Só com a margem e a propina, certos executivos podem estar embolsando dez ou vinte mil!
— É dinheiro suficiente pra nossa equipe inteira estar tomando drinque numa praia em Miami!
— Então por que isso deveria estar enchendo o bolso de outra pessoa?
Enquanto falava, o olhar dela me cortava em linha reta.
Depois que ela começou, outras pessoas criaram coragem para se juntar.
— Exatamente. A gente rala o dia todo mandando e-mail pra cliente e correndo atrás de contrato, e outra pessoa fica aí mexendo em planilha do Excel e sai com dezenas de milhares?
Quando uma pessoa se manifestou, outras vieram atrás.
A confiança absoluta de Chloe fez todo mundo achar que ela devia ter algum tipo de prova concreta contra mim. E, como se não bastasse, naquele dia o CEO Richard tinha ido ao aeroporto buscar o Sr. Brooks, então não tinha ninguém por perto para encerrar aquela situação.
O resto da equipe de finanças continuou fingindo que digitava, claramente apavorado com a possibilidade de qualquer coisa respingar neles.
— Arthur, você não acha que deve uma explicação pra gente? — disse Chloe, cruzando os braços.
Ótimo.
Eu já tinha dito tudo o que havia para dizer. Se eles não acreditavam, não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Quem assina meu contracheque é Richard, não eles.
Tirei a polidez do rosto e disse, num tom baixo:
— Eu já expliquei. Não houve propina. Se você tem problema com isso, espera o Richard voltar e resolve com ele.
No instante em que percebeu que eu estava ignorando completamente a “advertência” dela, Chloe explodiu.
Ela marchou até a minha mesa e bateu a mão no meu monitor.
— Ah, então agora você tá na defensiva?
— Eu juro, eu não aguento esse tipo de velho branco tóxico como você no ambiente de trabalho. Você acha que ser mais antigo te dá o direito de manipular as pessoas e esmagar os funcionários aí embaixo!
Ela estava tão exaltada que parecia estar fazendo teste para virar a salvadora de Wall Street.
— Eu vim aqui pra dar um fim nesse tipo de abuso no trabalho!
— Arthur, eu sou o seu karma!
