Capítulo 1 Chefe Andréas

  • Benedetta

Eu entro no elevador do prédio na 5th Avenue e aperto o botão do último andar. O espelho mostra meu cabelo preso e a blusa azul-marinho que escolhi hoje. São 8h17. Estou um pouco adiantada, como sempre.

Quando as portas se abrem, o corredor está quieto. A recepção do escritório ainda não tem ninguém. Eu caminho até minha mesa, do lado da sala de Andréas Beaumont, e ligo o computador.

A porta da sala dele se abre.

— Bom dia, Benedetta.

Ele aparece de terno cinza escuro, sem gravata ainda. O cabelo ainda um pouco úmido. Me olha e sorri de lado.

— Bom dia, Andréas.

— Chegou cedo de novo — ele diz, parando perto da minha mesa. — Eu já estava pensando em mandar um café pra você.

— Não precisa. Eu trouxe o meu.

Ele apoia a mão na borda da mesa e se inclina um pouco.

— Mas o meu é melhor. E vem com um pedido.

Eu levanto o olhar.

— Qual pedido?

— Você me ajuda com a apresentação das 10h? O material que o pessoal de marketing mandou está confuso. Eu confio mais no seu olho.

— Claro. Me passa o arquivo.

— Depois eu te devo um almoço — ele diz, ainda com aquele sorriso leve. — Ou um jantar. Você escolhe.

Eu rio baixinho e balanço a cabeça.

— Você sempre começa o dia assim.

— Só quando você está aqui.

Ele volta para a sala dele sem esperar resposta. Eu fico olhando a porta fechada por um segundo e depois abro o e-mail. O arquivo já está na minha caixa de entrada, com o assunto: “Preciso de você nisso.”

Eu sorrio sozinha e começo a trabalhar.

Eu abro o arquivo e começo a ler. São dezessete slides, a maioria com gráficos que não batem e textos longos demais. Em vinte minutos já tenho várias anotações.

A porta da sala dele se abre de novo.

— Posso?

Andréas para ao lado da minha cadeira com dois cafés na mão. Um deles é o meu de sempre: americano com um pouco de leite.

— Você não precisava — eu digo, pegando o copo.

— Eu sei. Mas eu queria.

Ele puxa a cadeira de visita e se senta. Fica perto o suficiente para eu sentir o cheiro do perfume dele, aquele cítrico discreto que ele usa todo dia.

— Me mostra o que você achou — ele pede, inclinando o corpo na minha direção.

Eu giro a tela um pouco e começo a explicar.

— Esse gráfico da página quatro está errado. Os números do trimestre passado não batem com o relatório que a gente recebeu na sexta. E aqui, no slide sete, o texto está repetindo a mesma informação três vezes. Dá para cortar.

Ele escuta sem interromper. De vez em quando anota alguma coisa no bloco que trouxe. Quando eu termino o sétimo slide, ele balança a cabeça.

— Você sempre pega essas coisas mais rápido que eu.

— É só atenção.

— Não. É você... Perdão.

Ele me olha de lado e sorri de novo, aquele sorriso pequeno que ele usa quando está flertando sem disfarçar.

Ele flerta comigo desde que entreguei aqui, ou seja, há dois meses.

— Continua — ele diz. — Estou gostando de ouvir você falar.

Eu sigo. Aos poucos a gente vai ajustando os slides juntos. Eu digito, ele sugere, eu discordo de algumas coisas e ele cede com facilidade. Em certo momento ele pega a caneta da minha mão sem pedir e marca um ponto no papel.

— Aqui. Muda essa frase. Fica mais direta.

Nossos dedos se tocam por um segundo. Eu puxo a mão devagar.

— Ok.

Ele não comenta. Só continua olhando a tela.

Meia hora depois o material já está bem diferente. Mais limpo e claro.

Andréas se reclina na cadeira e estica as pernas.

— Pronto. Agora eu consigo apresentar isso sem passar vergonha.

— Você nunca passa vergonha, senhor.

— Com você do meu lado, menos ainda.

Eu rio baixinho e fecho o arquivo.

— Você precisa parar com esses elogios.

— Por quê? Estou só falando a verdade.

Ele fica olhando para mim por alguns segundos. O sorriso some um pouco, mas os olhos continuam leves.

— Você tem planos pro almoço?

— Ainda não.

— Então vem comigo. Tem um lugar novo a três quadras. Comida boa, barulho baixo. Eu pago.

— Andréas…

— Só almoço. Nada demais. A menos que você queira que seja demais.

Eu balanço a cabeça, mas não consigo evitar o sorriso.

— Você é bem direto, né?

— E mesmo assim você ainda não disse não.

Eu fico em silêncio por um momento, fingindo pensar. Ele espera sem pressa, o cotovelo apoiado na mesa, o queixo na mão.

— Tá. Só almoço.

— Só almoço — ele repete, mas o jeito que fala deixa claro que não acredita muito nisso.

Ele se levanta e ajeita o terno.

— Eu te busco às doze e meia. Não se atrase.

— Eu nunca me atraso.

— Eu sei. É uma das coisas que eu gosto em você.

Ele volta para a sala dele. A porta se fecha com um clique suave. Eu fico olhando para a tela vazia por alguns segundos, o café ainda quente na mão.

O relógio na parede marca 9h48. Ainda tem tempo antes da reunião. Eu abro o e-mail de novo e mando o arquivo revisado para ele, com uma mensagem curta:

“Pronto. E obrigada pelo café.”

A resposta chega em menos de um minuto:

“Obrigado eu. E o almoço ainda está de pé.”

Eu sorrio sozinha e guardo o celular na gaveta.

É só um almoço, nada além disso.

Próximo Capítulo