Capítulo 2 Almoço com Andréas

Às doze e meia em ponto eu guardo o laptop, pego a bolsa e caminho até a porta da sala dele. Bato duas vezes.

— Pode entrar.

Andréas está em pé, já de terno completo, gravata no lugar. Quando me vê, sorri de um jeito que faz parecer que ele esperava exatamente por isso.

— Pontual, como sempre — ele diz, pegando o casaco. — Eu gosto disso em você.

— É só educação, senhor.

— Não. É você sendo você.

Ele abre a porta e espera eu passar primeiro. No elevador, aperta o botão do térreo e se vira para mim.

— Você sabe que a metade do escritório fica te olhando quando você anda pelo corredor, né?

Eu rio, meio sem jeito. Mas não é mentira.

— Exagero.

— Não é. Eu também fico. Só que eu disfarço melhor.

O elevador desce devagar. Eu encosto no espelho e cruzo os braços, tentando não sorrir demais.

Eu nunca imaginei que o CEO da Beaumont Capital ia falar assim comigo. Andréas Beaumont. Trinta e quatro anos, o homem que fecha negócios de nove dígitos sem suar. E eu, Benedetta, vinte e cinco, analista sênior de estratégia, formada em economia, no meio do mestrado, vivendo num apartamento decente em Brooklyn Heights. Não sou rica. Mas também não passo aperto. Tenho meu salário bom, meu plano de carreira, minha vida estável. Sempre soube que era bonita. As pessoas comentam. Mas isso nunca me fez achar que alguém como ele ia notar de verdade.

As portas se abrem. Ele coloca a mão levemente nas minhas costas, só para me guiar para fora, e tira logo em seguida.

— O restaurante fica a três quadras. A pé está bom pra você?

— Perfeito.

Na calçada o sol está forte. Nova York em movimento, taxis buzinando, gente andando rápido. Andréas caminha do lado de fora da calçada, me protegendo do fluxo, como se fosse automático.

— Então — ele começa, olhando de lado —, como está o mestrado?

— Cansativo. Mas está andando. Estou na parte de finanças comportamentais agora.

— Sério? Eu li um artigo sobre isso mês passado. Aquele sobre viés de confirmação em decisões de investimento.

Eu paro por um segundo, surpresa.

— Você leu isso?

— Eu leio muita coisa. Principalmente quando a minha analista sênior de estratégia está fazendo mestrado no assunto.

Ele pisca, divertido.

— Não finge que não sabia que eu acompanho.

— Eu não sabia que você prestava tanta atenção.

— Em você? Sempre.

Chegamos ao restaurante. É pequeno, com mesas de madeira clara e janelas grandes. O maître reconhece Andréas na hora e nos leva para uma mesa no fundo, mais quieta.

Ele puxa a cadeira para mim antes de se sentar.

— Obrigado — eu digo.

— Sempre.

O garçom chega rápido. Andréas pede água com gás para os dois e depois olha para mim.

— Você escolhe o vinho. Eu confio no seu gosto.

— São só doze e meia.

— E daí? A gente não está no escritório. E eu quero te ver relaxada.

Eu rio e pego a carta.

— Tá. Um branco leve então.

Enquanto o garçom anota, Andréas se inclina um pouco para frente, os cotovelos na mesa, o sorriso de novo naquele modo charmoso e sem pressa.

— Sabe o que eu estava pensando hoje de manhã?

— O quê?

— Que a gente trabalha junto há quase dois meses e eu ainda não te levei para almoçar sozinho. Que falha minha.

— A gente almoça com a equipe quase toda semana.

— Não é a mesma coisa. Hoje é diferente.

Ele para, me olha nos olhos e continua, mais baixo:

— Hoje eu quero só a sua companhia.

Eu sinto o rosto esquentar um pouco, mas mantenho a voz firme.

— Você é bem direto, hein?

— Só quando vale a pena. E com você sempre vale.

O garçom volta com a água. Andréas agradece com educação e depois volta o olhar para mim, como se o resto do restaurante não existisse.

— Então, Benedetta… me conta uma coisa que eu ainda não sei sobre você.

Eu demoro um segundo para responder. Ele espera, sem pressa, girando o copo de água entre os dedos.

— Uma coisa que você ainda não sabe… — eu repito, pensando. — Eu toco piano. Mal. Mas toco.

Os olhos dele se iluminam de verdade.

— Sério?

— Sério. Minha mãe me obrigou a ter aula dos sete aos quinze. Eu parava de estudar toda vez que ela saía de casa. Hoje só mexo no teclado quando estou estressada.

— Então eu preciso te deixar estressada com mais frequência.

Eu rio e balanço a cabeça.

— Não ajuda.

— Ajuda sim. Eu quero ouvir.

— Nem pensar. Eu toco horrível.

— Eu não ligo. Eu só quero ver você tocando.

O garçom volta com o vinho. Andréas prova, faz um gesto de aprovação e serve os dois copos. Depois ergue o dele na minha direção.

— Às descobertas do almoço.

Eu bater o copo no dele.

— Você é bem insistente.

— Só quando algo me interessa de verdade.

Ele bebe um gole e se reclina na cadeira, o terno ainda impecável, o sorriso leve.

— Sua vez. Me pergunta qualquer coisa.

Eu penso por um momento, aproveitando o silêncio confortável entre a gente.

— Por que você nunca fala da sua família?

O sorriso dele diminui só um pouco, mas não desaparece.

— Porque não tem muita coisa pra falar. Meus pais morreram quando eu tinha dezenove. Não tenho irmãos. Fiquei meio… sozinho desde então.

— Sinto muito.

— Não precisa. Já faz tempo. E eu construí tudo isso sozinho. Às vezes é mais fácil assim.

Ele dá de ombros, como se quisesse mudar de assunto sem ser rude.

— Agora eu que faço a pergunta pesada. Você tem alguém?

A pergunta vem direta, mas o tom continua leve.

— Não.

— Bom.

Eu arqueio uma sobrancelha.

— Bom?

— Bom pra mim — ele corrige, sem nenhum constrangimento. — Seria bem mais complicado flertar com você se tivesse alguém no meio.

Eu ainda não acredito que estou sentada aqui com ele. Andréas Beaumont, o homem que a metade de Nova York quer impressionar, pedindo vinho, puxando minha cadeira e perguntando se eu tenho alguém. E o pior: eu estou gostando. Gostando demais.

— Você não tem medo de alguém do escritório ver a gente?

— Não. Eu sou o chefe. E a gente não está fazendo nada de errado. Ainda.

Ele enfatiza o “ainda” de um jeito que me faz morder o lábio por dentro.

O prato chega. Salmão grelhado para mim, um risoto de cogumelos para ele. A conversa flui fácil. Ele pergunta sobre o mestrado, sobre o que eu quero fazer daqui a cinco anos, sobre o bairro onde eu moro. Escuta de verdade. Ri das minhas histórias bobas da faculdade. Conta uma ou outra sobre reuniões chatas com investidores, imitando a voz de um dos sócios de um jeito tão preciso que eu quase engasgo de rir.

Em determinado momento ele estica a mão e limpa, com o dedo, um pouco de molho que ficou no canto da minha boca. O toque é rápido, natural.

— Desculpa — ele diz, mas não parece arrependido. — Não aguentei ver.

— Você é um perigo.

— Só com você.

A conta chega. Ele nem deixa eu olhar o valor. Paga com o cartão e se levanta, puxando minha cadeira de novo.

Na saída, o sol já está mais forte. Ele coloca a mão outra vez nas minhas costas, só pelo tempo de me guiar pela porta, e depois caminha ao meu lado.

— Obrigado pelo almoço — eu digo.

— Eu que agradeço. Foi o melhor da semana.

Paramos na calçada, de frente para o prédio da empresa. Ele não se mexe para entrar.

— Benedetta.

— Hm?

— Eu quero te ver de novo. Fora do trabalho. Sem desculpa de apresentação ou arquivo.

Eu sinto o coração bater um pouco mais rápido.

— Tipo… um encontro?

— Tipo um encontro. Oficial. Sem equipe, sem slides, sem desculpas.

Ele espera minha resposta com aquela calma charmosa, as mãos nos bolsos do terno, o olhar fixo no meu.

— Eu… preciso pensar.

— Pensa. Mas não pensa demais. Eu sou paciente. Só não sou eterno.

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