Capítulo 3 Aceito seu convite

Eu fecho a porta do apartamento e deixo a bolsa no sofá. O silêncio é bom depois do barulho da cidade. Tiro o salto, caminho descalça até a cozinha e encho um copo d’água.

O celular vibra em cima do balcão. É minha mãe.

Atendo na hora.

— Oi, mãe.

— Benê! Finalmente. Seu pai já estava achando que você tinha sumido.

A voz dela sai alta e alegre, com aquele sotaque de quem está de férias de verdade. Eu escuto o barulho de ondas ao fundo.

— Eu não sumi. Trabalhei o dia inteiro. Vocês estão onde agora?

— Búzios. Seu pai conseguiu uma mesa na beira da praia e está bebendo caipirinha como se não houvesse amanhã. Fala com ela, Carlos!

Meu pai grita de longe:

— Benedetta! Sua mãe só fala de você. Come direito, menina!

Eu rio e me jogo no sofá.

Meus pais são assim. Ela, professora aposentada de português, sempre preocupada se eu comi, se dormi, se estou me cuidando. Ele, engenheiro aposentado, mais quieto, mas nunca deixa de mandar mensagem perguntando se o ar-condicionado do apartamento está funcionando. Os dois finalmente decidiram tirar férias de verdade no Brasil depois de anos dizendo que “um dia a gente vai”. Agora estão há três semanas rodando o Rio e claramente sem pressa de voltar.

— E o Lucas? — minha mãe pergunta. — Já confirmou a mudança?

— Confirmou. Ele chega domingo. Vou buscar ele no aeroporto.

— Que bom. Vai ser bom ter companhia. Esse apartamento é grande demais pra você sozinha.

— Eu gosto de ficar sozinha.

— Sei. Até o dia em que você traz alguém pra jantar e não me conta.

Eu quase engasgo com a água.

— Mãe.

— O quê? Eu só estou dizendo. Você está diferente hoje. Mais… animada.

— Não estou.

— Está sim. Conta.

Eu demoro um segundo, olhando pela janela o prédio do outro lado da rua.

— Eu almocei com o Andréas hoje.

Silêncio do outro lado. Depois a voz dela sobe uma oitava.

— O chefe?! O bilionário?!

— Mãe, pelo amor de Deus, não grita.

— Carlos! Ela almoçou com o chefe!

Meu pai aparece de novo no fundo:

— Aquele alto de terno escuro que aparece nas revistas?

— É ele — eu confirmo, já me arrependendo de ter falado.

Minha mãe volta, mais baixa, mas ainda empolgada demais.

— E aí? Foi só trabalho?

— Foi almoço. Normal.

— Normal não existe com homem daquele jeito. Ele é bonito, né?

— Mãe.

— Responde.

— É. Ele é.

Ela solta um “aham” comprido, daqueles que eu conheço desde adolescência.

— E ele flertou?

— Um pouco.

— Um pouco ou bastante?

Eu rio, sem conseguir esconder.

— Bastante.

— Eu sabia. Você sempre foi bonita, Benê. E inteligente. Era questão de tempo.

— Ele pediu pra gente se ver de novo. Fora do trabalho.

Agora o silêncio é maior. Eu escuto só o barulho do mar.

— E você disse o quê?

— Que eu precisava pensar.

— Pensar o quê, minha filha? O homem é educado, bem-sucedido e claramente interessado. Só não vai se apaixonar rápido demais.

— Mãe, a gente só almoçou.

— Eu sei. Mas eu te conheço. Você já está sorrindo aí do outro lado da linha.

Eu passo a mão no rosto, tentando disfarçar o sorriso que realmente não sai.

— O Lucas vai morar aqui semana que vem. Vou ter que esconder ele no armário se alguém aparecer.

Ela ri alto.

— Seu irmão vai adorar ter um bilionário em casa. Só avisa ele pra não aparecer de bermuda furada.

— Eu aviso.

A gente fala mais um pouco. Ela me conta do restaurante de ontem, do passeio de barco, de como meu pai quase caiu da cadeira de praia. Eu escuto, ri, e por um momento esqueço o almoço, o olhar de Andréas e a forma como ele disse “eu sou paciente, só não sou eterno”.

Quando desligo, o apartamento volta a ficar quieto. Eu olho ao redor: o sofá grande demais, a mesa de jantar com só uma cadeira puxada, o quarto de hóspedes que a partir de domingo vai deixar de ser hóspedes.

Lucas vai chegar. Meu irmão mais novo, vinte e um anos, estudante de engenharia em Boston, finalmente transferindo pra uma universidade aqui em Nova York. Ele sempre foi o bagunceiro da família. Vai deixar meias pela sala e reclamar que minha geladeira não tem refrigerante o suficiente.

Eu pego o celular de novo e abro a conversa com ele.

“Domingo, 15h40, JFK. Não se atrasa. E não traz só roupa suja.”

A resposta vem em segundos:

“Eu sou um homem novo agora. Vou chegar cheiroso e com pasta de dente. Pode preparar o sofá que eu chego com fome.”

Eu rio sozinha e deixo o celular de lado.

Ainda tenho a mensagem de Andréas não respondida. Aquela que ele mandou quando eu entrei no Uber:

“Chegou bem? E sobre o que eu pedi… eu continuo esperando.”

Eu fico olhando a mensagem por um tempo. O apartamento está silencioso. O copo de água ainda na minha mão.

Digito devagar.

“Cheguei bem. E sobre o que você pediu… eu aceito.”

A resposta dele chega em menos de um minuto.

“Bom. Eu passo na sua mesa amanhã às 18h. Não inventa desculpa.”

Eu sorrio sozinha e deixo o celular de lado.

...

No dia seguinte o escritório está no ritmo normal. Reuniões, e-mails, uma call com o time de São Paulo que atrasa quinze minutos. Eu mal vejo Andréas pela manhã. Só um aceno rápido quando ele passa pelo corredor com dois diretores.

Às quatro da tarde a secretária dele, a Clare, para na minha mesa.

— Benedetta, o senhor Beaumont pediu pra você subir na sala dele quando puder.

— Agora?

— Agora.

Eu salvo o arquivo, pego o bloco de anotações por reflexo e caminho até a porta de vidro. Bato uma vez.

— Entra.

Andréas está sentado na beira da mesa, mangas do terno dobradas, sem gravata. Quando me vê, fecha o laptop e aponta para a cadeira na frente dele.

— Fecha a porta.

Eu fecho. O clique soa mais alto do que deveria.

— Você me chamou.

— Chamei. Senta.

Eu sento. Ele continua encostado na mesa, os braços cruzados, me observando de cima.

— Você aceitou.

Assenti.

— Eu quase não dormi ontem pensando se você ia mesmo responder.

— Exagerado, né?

— Não é. Eu fiquei aqui até tarde relendo a mensagem.

Ele se aproxima um pouco, ainda de pé. A distância entre a gente diminui.

— Sabe o que eu mais gostei na sua resposta?

— O quê?

— Que você não enrolou... Pensei que fosse me deixar de molho.

Eu levanto o olhar. Ele está perto o suficiente para eu sentir o perfume de novo.

— Você está bem confiante hoje.

— Estou. Porque você está aqui dentro da minha sala, com a porta fechada, e não parece com pressa de sair.

Eu rio baixinho, sem desviar o olhar.

— Talvez eu esteja gostando da conversa.

— Só da conversa?

— Por enquanto.

O sorriso dele aumenta. Ele se inclina um pouco mais, apoiando as mãos na mesa, um de cada lado da minha cadeira. Não me toca. Só reduz o espaço.

— Eu passei a manhã inteira em reunião pensando em como você ficou ontem quando eu limpei aquele molho da sua boca.

— Andréas…

— Não precisa fingir que não gostou. Eu vi.

Eu seguro o bloco de anotações com mais força do que o necessário.

— Você é bem descarado.

— E você está flertando de volta. Não acha que eu não percebi.

Ele tem razão. Eu estou. E, pela primeira vez, não estou tentando disfarçar.

— Talvez eu esteja — eu admito. — Só um pouco.

— Um pouco já me basta. Por enquanto...

Ele se afasta devagar, como se quisesse me dar espaço, mas o olhar continua no mesmo lugar.

— Sexta. Eu busco você às oito. Não precisa se vestir de gala. Só… vem.

— Onde a gente vai?

— Surpresa. Mas eu prometo que a comida é boa e a conversa melhor.

Eu me levanto. Ele não se move, só acompanha o movimento com os olhos.

— Está bem. Sexta às oito.

— Perfeito.

Quando eu caminho até a porta, ele fala de novo, mais baixo:

— Benedetta.

Eu paro e olho por cima do ombro.

— Se alguém perguntar por que você ficou tanto tempo aqui, inventa qualquer coisa. Ou não inventa. Eu não me importo.

Eu abro a porta e saio. O corredor está vazio. Meu coração ainda está batendo um pouco mais rápido do que o normal, e eu não faço a menor questão de esconder o sorriso enquanto volto para a minha mesa.

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