Capítulo 4 Encontro
Às oito em ponto o interfone toca. Eu olho pelo olho mágico e vejo o carro preto parado na frente do prédio. Um Bentley continental, baixo, brilhante, do tipo que não precisa gritar para chamar atenção.
Desço as escadas com o vestido preto simples e o casaco fino no braço. Quando a porta do prédio se abre, Andréas já está do lado de fora do carro, de camisa social escura e sem gravata. O cabelo um pouco mais solto que no escritório.
— Você está linda — ele diz, abrindo a porta do passageiro antes que eu chegue perto.
— Obrigada. O carro também.
Ele ri.
— O carro é só um detalhe. O importante é quem está dentro.
Eu entro. O cheiro de couro novo mistura com o perfume dele. Ele dá a volta, sobe no banco do motorista e liga o motor sem fazer barulho.
— Confortável?
— Muito... Não sou acostumada com carro de rico.
O carro sai devagar pela rua do Brooklyn Heights. A cidade começa a acender as luzes enquanto a gente cruza a ponte.
— Eu pensei em te levar para um lugar barulhento e cheio de gente — ele fala, olhando de relance para mim —, mas mudei de ideia. Quero conversar. Então escolhi um lugar mais quieto.
Paramos em frente a um restaurante pequeno no West Village. Fachada de tijolo, janelas amplas, mesas internas com luz baixa e algumas na calçada protegidas por aquecedores. O nome é só uma placa discreta: Lila.
O maître reconhece Andréas na hora e nos leva para uma mesa no fundo, perto de uma janela que dá para a rua arborizada. Ele puxa a cadeira para mim de novo, como da outra vez.
— Você sempre faz isso?
— Fazer o quê?
— Puxar a cadeira. Abrir a porta. Essas coisas.
— Sempre que estou com você. Virou hábito rápido. Sou um cavalheiro.
O garçom traz a carta. Andréas nem olha muito. Pede um vinho tinto que eu não conheço e depois se vira para mim.
— Você escolhe o prato. Eu como o que você comer.
— E se eu pedir algo que você odeia?
— Aí eu como mesmo assim e finjo que gostei. É o risco de sair comigo.
Eu rio e escolho um peixe grelhado com legumes. Ele pede o mesmo.
Enquanto esperamos, ele se inclina um pouco para frente, os cotovelos na mesa.
— Me conta como foi seu primeiro dia na Beaumont.
A pergunta me pega de surpresa. Eu giro a taça entre os dedos.
— Foi há quase dois meses. Eu tinha acabado de sair de um estágio em um banco menor. Mandei currículo sem muita esperança. Quando me chamaram para a entrevista com o time de estratégia, eu quase não acreditei.
— Eu lembro de você naquele dia.
Eu levanto o olhar.
— Lembra?
— Lembro. Você estava de blazer cinza, cabelo preso, e respondeu todas as perguntas técnicas sem piscar. O diretor de RH me mandou o vídeo da entrevista depois. Eu pedi para te contratar na mesma hora.
— Sério?
— Sério. Você tinha uma forma calma de explicar números complicados.
Eu sorrio, meio sem jeito.
— Eu estava morrendo de nervoso por dentro. Tinha acabado de me formar, ainda morava num quarto alugado em Queens, dividindo o aluguel com duas meninas da faculdade. Meus pais tinham acabado de se aposentar e eu não queria pedir ajuda. Cada centavo importava.
— E agora?
— Agora eu tenho meu apartamento. Ainda não é grande coisa, mas é meu. Pago as contas, faço o mestrado à noite, e não preciso mais contar moeda para o metrô. Está bom.
Ele escuta sem interromper, o olhar atento.
— E o mestrado? Por que finanças comportamentais?
— Porque eu gosto de entender por que as pessoas tomam decisões ruins mesmo sabendo que são ruins. Inclusive eu mesma.
Ele ri baixo.
— Isso foi uma indireta?
— Pode ser.
O prato chega. A conversa continua fácil. Ele me conta que começou a empresa com um sócio que saiu no segundo ano, que passou muitos meses dormindo no escritório, que o primeiro grande contrato veio de um cliente que quase desistiu na última hora. Fala sem se gabar, só contando.
Em determinado momento ele para de comer e me olha.
— Você sabe que a maioria das pessoas no escritório tem medo de mim, né?
— Eu sei.
— E você não tem.
— Nunca tive. Você é exigente. Não é cruel e nem um monstro.
— Com você eu nem consigo ser exigente direito. Você desarma.
Eu sinto o rosto esquentar um pouco, mas não desvio o olhar.
— Você fala demais de mim.
— Porque eu penso demais em você.
O jantar segue assim. Natural. Sem pressa. Quando a sobremesa chega — uma tarte de limão que a gente divide — ele pega a colher da minha mão sem pedir e prova primeiro.
— Está bom. Pode comer.
Na volta, ele dirige mais devagar. A cidade passa pela janela, luzes, gente, o barulho abafado do motor. Em um sinal vermelho ele olha para mim.
— Eu gostei de te ouvir falar da sua vida. Quero saber mais.
— Ainda tem tempo.
— Eu sei. Por isso não estou com pressa. Só estou… interessado.
O carro para em frente ao meu prédio. Andréas desliga o motor e desce antes de mim, abrindo a porta outra vez.
Na calçada a gente fica parada por um segundo. O vento da noite balança meu cabelo.
— Obrigada pela noite — eu digo.
— Eu que agradeço.
Ele se aproxima só um passo. Não tenta beijar. Só olha.
— Posso te mandar mensagem quando chegar em casa?
Eu demoro um segundo. Depois aponto com a cabeça para a porta do prédio.
— Ou você pode subir e me mandar mensagem de dentro do sofá. Se quiser.
O sorriso dele aparece devagar.
— Você está me convidando para entrar?
— Estou te dando a opção. Não precisa aceitar se tiver medo do meu sofá velho.
— Medo eu não tenho. Curiosidade, um pouco.
Eu digito o código e a porta se abre. Ele me segue pelo corredor curto até o elevador. No caminho ele repara nas plantas que a síndica insiste em deixar no hall.
— Essas plantas estão quase mortas.
— Eu sei. Eu já tentei salvar. Elas não querem viver.
— Drama de planta. Entendi.
No apartamento eu acendo a luz da sala. Não está bagunçado, mas também não está de revista. Tem um livro aberto no sofá, uma xícara de café esquecida na mesa de centro e a jaqueta do meu irmão jogada em cima da cadeira (ele mandou pelo correio semana passada “para ir se acostumando”).
Andréas para no meio da sala e olha ao redor com curiosidade genuína.
— É menor do que eu imaginei.
— É o suficiente para uma pessoa. Na semana que vem vira o suficiente para duas, quando o Lucas chegar.
— Quem é Lucas? — Pergunta com a mandíbula travada.
— Isso. Vinte e um anos, estudante de engenharia, especialista em deixar meia suja pela casa. Vai ser um espetáculo.
Ele ri e aponta para a prateleira.
— Você tem um troféu de… o que é isso?
— Campeonato de xadrez da faculdade. Eu tinha dezenove e achei que era boa. Ganhei uma vez e nunca mais ganhei de ninguém.
— Posso desafiar?
— Só se quiser perder.
— Combinado. Um dia a gente joga.
Eu deixo a bolsa em cima da mesa e caminho até a cozinha.
— Quer água? Vinho? Suco de caixa que está quase vencendo?
— Água está ótimo. O suco de caixa quase vencendo eu passo.
Ele se aproxima da bancada enquanto eu pego dois copos. Fica encostado ali, observando o apartamento com um meio sorriso.
— Você é bem diferente para um bilionário.
— Eu sei. A maioria espera que eu tenha um apartamento de vidro com vista para o Central Park e um mordomo. Eu tenho o apartamento de vidro. O mordomo eu dispenso. Prefiro subir em prédio de Brooklyn e beber água de copo comum.
Eu rio e encosto do outro lado da bancada.
— Meu irmão vai pirar quando souber que o CEO da empresa esteve aqui. Ele ainda acha que você é um personagem de revista.
— Então não conta. Ou conta. Eu posso aparecer de bermuda um dia só para quebrar a imagem.
— Por favor, não. Eu ainda tenho que morar com ele.
A gente fica ali conversando mais um tempo. Ele pergunta sobre o mestrado, eu pergunto sobre a primeira empresa que ele montou, ele conta uma história de uma reunião em que o projetor quebrou e ele teve que desenhar o gráfico na lousa. Eu conto da vez em que errei um número em uma apresentação e quase morri de vergonha.
