Capítulo 3 Capítulo 03

Melissa . . .

Sábado . . .

O ruim de morar sozinha é que, se você não cozinhar, passa fome. E não dá pra ficar pedindo comida fora o tempo todo — sai caro demais.

O sábado chegou radiante, sol a pino. Dia perfeito pra ir pra praia, tomar uma gelada. E o que eu tô fazendo? Deitada, até agora. Sempre que chega o fim de semana, eu tô destruída: sem vontade de fazer nada.

Tiro o celular do carregador pra ver as horas: 13h15. Achei que era mais tarde. Desbloqueio a tela, entro no WhatsApp, respondo algumas mensagens e deixo as menos importantes pra depois. Abro a conversa da minha mãe — ela mandou mensagem de bom dia. Só Deus sabe o quanto sinto saudade da minha família.

Tô no Rio há mais ou menos um ano e meio, e nesse tempo voltei pra casa só uma vez. A faculdade toma a maior parte do meu tempo; não consigo encaixar uma viagem na rotina, e ir só no fim de semana não compensa — além de ser cansativo. Sou de Minas Gerais, mais especificamente de Belo Horizonte.

E quando falo que sinto saudade, me refiro à minha mãe, ao meu pai, à minha irmã e a uma tia. O resto é só parente, nem tenho contato.

Respondo minha mãe dizendo que ligo mais tarde. Levanto da cama com uma coragem que não tenho, vou ao banheiro e jogo uma água no rosto pra acordar — é o único jeito de começar o dia.

— Ô, Deus, perdoe esse pobre coitado! — Canto, batendo o ritmo no balcão. — Que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair, cair sem parar… Acho que vou me inscrever no The Voice.

Meus vizinhos têm sorte de morar ao lado de uma cantora como eu — escutam meu show de graça. Vejo que ainda são 13h30 e resolvo estender as roupas que coloquei na máquina ontem à noite. Tiro as poucas peças e as coloco num balde, depois estendo uma por uma no varal, aproveitando o sol.

Como já tô em movimento, passo a vassoura em todos os cômodos e arrumo o quarto. Não sei de onde sai tanta bagunça sendo que quase não paro em casa. Dobro os cobertores e os guardo, estico o lençol e arrumo as almofadas. Organizo a penteadeira — aquela que eu dei um rim pra comprar —, guardando as maquiagens e deixando tudo limpo. Passo a vassoura pra finalizar o quarto.

Hoje a casa tá tranquila, não tem muita coisa pra fazer. Falta só lavar a louça e varrer a cozinha. Ligo a TV da sala e entro no YouTube — não consigo arrumar casa sem música. Dou play em "Acaso" e deixo o ritmo me levar.

— Ai, Deus, essa toca na alma… — Pego a vassoura e vou pra cozinha. — VAI VER QUE UM DIA A GENTE SE ENCONTRA! — Canto, balançando o quadril e dançando com a vassoura. — VAI DEIXAR O ACASO TOMAR CONTA…

Lavo a pouca louça que sujei ontem; não suporto acumular coisas na pia, tenho verdadeira implicância com isso. . .

(...)

Termino de arrumar tudo às 14h10. Só agora começo a sentir fome — e não é fome de comida normal. Um pastelzinho cairia bem. É fim de semana, pode. Abro o iFood e procuro a pastelaria que sempre peço: dois pastéis de queijo com milho, meu favorito. Confirmo o pedido e vejo que chega em uns vinte minutos.

Me deito no sofá esperando, volto pro WhatsApp. Minha mãe disse que eu ia ligar e sumiu. Heloísa, minha parceira de farra, também sumiu — queria sair pra aproveitar o sábado.

Vejo mensagem do Alex, um ficante, me chamando pra uma resenha. Invento uma desculpa: tô cheia de coisa da faculdade, sem clima pra ficante hoje. Fico entretida no celular até que chega a notificação do iFood: pedido chegou. É essa mensagem que eu gosto.

Calço o chinelo correndo, pego o dinheiro na capinha do celular — nessa hora a gente até troca os chinelos. Desço até a portaria e encontro o motoboy.

— Boa tarde. — Me cumprimenta, abrindo a mochila. — Melissa, né? — Pergunta, olhando o pedido.

— Isso mesmo. Obrigada. — Entrego o dinheiro e pego o pacote.

— Agradeço pela preferência, boa tarde.

— Igualmente, bom trabalho. — Subo de volta.

Chamo o elevador e dou uma rebolada no espelho, como sempre faço.

— Boa tarde. — Desejo a um morador que entra quando eu saio.

Tranco a porta assim que entro. Só de sentir o cheiro, o estômago revira de fome. Pensei em passar uma máscara no rosto enquanto como, mas vai ficar pra próxima. Sirvo o suco de laranja que fiz ontem à noite e pego o ketchup. Conecto a TV na Netflix e abro Orphan Black.

— Enfim, liberdade ou solidão? — Pergunto pra mim mesma, dando play.

Não passaram dez minutos e o celular toca: "Gayzinho lindo". Pauso a série e atendo. . .

Ligação on . . .

— Fala comigo! — Falo assim que atendo.

— Fala comigo, eu quero saber o que tu tá fazendo de tão importante que não responde minhas mensagens! — Ouço a voz dele, toda revoltada.

— Uii, ele tá estressado. — Provoco, rindo. — Tô almoçando.

Belo almoço, Melissa, penso comigo mesma.

— O que é de tão importante? — Completo.

— Você tá livre hoje? Vai ter baile aqui na Maré, bicha. — Mordo o pastel, rindo do jeito que Gabriel fala — não me acostumo com esse "bicha" dele.

Gabriel é um amigo que fiz quando morava lá. Mesmo tendo me mudado, mantive contato e sempre nos vemos.

— Não sei, Biel. — Murmuro, pensando. — Você é mó safado, me chama mas na primeira oportunidade me deixa sozinha pra ficar com alguém.

— Que mentira! — Se faz de ofendido. — Pior que vou mesmo.

— Admite. — Rio. — Você sabe que eu te amo, mas não resisto à tentação. Além do mais… você sabe quem vai tá lá.

Relíquia. Agora lembro que ele falou do baile.

— Humrum, sei. — Mordo o pastel de novo.

— Mesmo que ele esteja, não vai dar em nada. Eu juro, Gabriel: se você me abandonar nesse baile, eu vou apagar esse seu fogo no rabo!

— Do outro lado ouço a comemoração dele.

— Você sabe que o fogo aqui só abaixa com extintor!

— Gargalho, quase engasgando com o pastel. — Morre não, Melissa, não até a hora do baile.

— Você não presta. — Bebo o suco pra descer. — Que horas?

— Lá pras nove.

— Tá bom. Te encontro às nove na pracinha.

Ligação off . . .

Ficamos conversando, atualizando as fofocas. O que seria minutos virou horas — só encerramos a ligação às 17h e pouco, e isso porque o celular dele tava descarregando. Conecto o meu no carregador pra ter bateria mais tarde.

Resolvo fazer uma hidratação no cabelo. Lavo só com shampoo, divido em mechas e vou aplicando a mistura de creme com ampola de vitamina e pantenol. Aplico no comprimento e subo massageando — sempre a dois dedos da raiz, porque meu cabelo é oleoso e se passar na raiz, dá pra fritar um ovo. Faço um coque e coloco a touca térmica. Enquanto age, passo uma mistura de argila verde no rosto, borrifando água de vez em quando pra não secar.

Uns vinte minutos depois, tiro a hidratação no chuveiro e finalizo com condicionador. Aproveito e tomo banho de uma vez.

Saio enrolada na toalha, me seco e visto um blusão. Sempre espero a maquiagem ficar pronta pra me arrumar direito. Tiro a toalha do cabelo, passo protetor térmico e vou secando com o secador e a escova. Depois passo a chapinha e finalizo com ar frio e aparador de pontas. . . .

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