Capítulo 5 Capítulo 05

Melissa . . .

Domingo . . .

Mesmo de olhos fechados, sinto tudo girar. Esfrego os olhos e me espreguiço na cama. Um cheiro diferente — mais forte, mais marcante — me envolve. Não é o meu perfume. Conheço esse cheiro. Relíquia.

Sento de uma vez, abrindo os olhos de par em par. A luz bate forte e levo a mão à cabeça com uma fisgada, soltando um gemido de dor. Tampo os olhos e pisco até me acostumar. Olho ao redor e a confirmação chega: não estou em casa.

Como vim parar aqui? Tento puxar na memória qualquer coisa da noite anterior, mas tudo é borrões — como se tivessem apagado aquelas horas da minha mente. Observo o quarto; já estive aqui, umas duas vezes, se não me engano.

Olho pra baixo e o coração dispara: estou vestindo só uma camisa masculina. Meu Deus… Não posso ter transado bêbada. E se não usou camisinha? Porra, Melissa! Merda, merda!

Encontro o que parece ser o banheiro. Não lembro direito — nas outras vezes estava de noite e… ocupada com outras coisas. Preciso de água gelada no rosto pra raciocinar. Tiro os cílios postiços e os deixo na cabeceira. Levanto, os pés doendo por causa do salto, e piso no chão frio. Entro no banheiro e encontro um sabonete. Molho, faço espuma e lavo o rosto, tirando o máximo de maquiagem que consigo — o resto só sai com demaquilante. Seco-me na toalha branca e encaro o reflexo limpo.

Pego a pasta de dente, passo no dedo e escovo assim mesmo. Apoio na pia, tentando reconstituir a noite.

— Merda! — Esbravejo, sem conseguir lembrar de nada.

Prendo o cabelo num coque, respiro fundo e saio — e levo um susto ao vê-lo ali, descarregando a arma. Bato as costas na parede. Hoje não é o meu dia.

— Bom dia. — Limpo a garganta e me sento na cama.

— Até que enfim a bela adormecida acordou. — Deixa a arma na cômoda e me olha. — O que tá pegando?

— Relíquia… como eu vim parar aqui? — Falo calma, mas por dentro tô surtando.

Ele ri, passando a mão no maxilar.

— Tu não se lembra, não? — Nego. — Porra… desse jeito fico até chateado, pô.

— É sério, Relíquia! — Passo a mão no rosto, impaciente. — A gente transou?

— Transar é palavra fraca demais pro que fizemos ontem à noite. Teu pescoço tá todo marcado, ó. — Aponta. — Tu deu teu nome ontem, heim? Se louco.

— Meu Deus… não acredito que fiz isso. — Toco o pescoço, negando.

— Pois é, branquela. Pode começar a acreditar. — Dobra o braço por trás da cabeça. — Qual foi, Melissa? Vai ficar assim mesmo? Agora não adianta fazer a santa não, caraí.

— Foi com preservativo… não foi?

— Não lembro não.

— Como assim não lembra?! — O coração quase sai pela boca. — É sério… tenta lembrar, pelo amor de Deus.

Ele que estava sério, molha os lábios, segura o riso e explode em gargalhadas.

— Para de rir, Relíquia! Isso não tem graça, o negócio é sério e você aí brincando.

— Não transamos, Melissa.

Solto todo o ar que nem percebi que prendia. Um alívio imenso percorre o meu corpo.

— Então o que eu tô fazendo aqui?

— Agora nada.

— Não tem como conversar com você. — Faço menção de levantar, ele ri e me puxa de volta, envolvendo minha cintura.

— Parei, parei. Cê tá chata hoje, heim? Se louco, cadê o espírito de harmonia?

No meu, pode ter certeza que não tá.

— Tu tava saindo do baile com aquele teu amigo, os dois mais chapados que o outro. Daquele jeito cês não iam chegar em lugar nenhum. Mandei um parceiro levar ele pra casa e te trouxe pra cá. E do jeito que cês tavam, não duvido nada que iam sair de novo assim que eu virasse as costas.

— Meu Deus… que vergonha. — Cubro o rosto. — Nunca mais bebo.

— É, man… primeiro a bebida te humilha.

— E a humilhação! E a minha roupa? Pelo amor de Deus, não me diz que eu tirei na rua…

— Tava fazendo o maior striptease, acredita? — Ri. — E também não ia dormir direito com aquele biquíni, então tirei.

— É body, Relíquia.

— Mesma fita. Te dei minha camisa pra ficar mais confortável, porque cê tava sem condições nenhumas de se trocar sozinha.

— Então você me trocou. — Faço um biquinho. — Bacana…

— Nem vem se fazer de tímida pro meu lado não. Tu pode ser tudo, menos tímida. — Abro a boca, ofendida. — Tô mentindo? Além do mais, tudo que tu tem aí eu já vi.

A mão dele desliza pela minha cofera descoberta, na maior cara de pau. Dou um tapinha, ele nem liga.

— Deixa de ser tarado. — Rio.

— Me ameaça e agora me bate. — Finge dor. — Tu não era assim não.

— Tá louco? Desde quando te ameacei? Eu heim? Você que tá ficando doido.

— Aah, não contei não? — Fala todo animado, igual fofoqueiro. — Quando cê me viu, já veio querendo me bater. Teve sorte que me pegou num dia bom.

— Mentira que fiz isso! — Coloco a mão na boca, contendo o riso. — Se fiz, tive motivo.

— Doidona demais. Falou que se eu fosse grosso contigo, ia me finalizar. Mó marra pra cima de mim. — Se acomoda, mostrando o braço cheio de tatuagens.

Não me seguro e caio na risada, imaginando a cena.

— Bom que agora sabe do que sou capaz. — Brinco, sorrindo. — Mas falando sério… obrigada por ontem. Por ter me ajudado e tido paciência.

Cuidar de bêbado não é fácil. Eu detesto ter que cuidar de gente quando tô sóbria. Ele é bruto, sim. Mas quando quer, consegue ser doce.

— Tu é firmeza, Melissa. Não tinha condição de te deixar lá sabendo que podia acontecer alguma coisa. E tinha como evitar. — Vejo sinceridade nos olhos dele. — E nem passou pela cabeça transar contigo naquela situação. Foi sem maldade, tá ligada? Te troquei sem malícia nenhuma.

— Obrigada… de coração.

— Que mané obrigada. Eu quero é o meu pagamento, tá achando que é fácil assim?

— Aceita xerecard? — Rio ao ver o sorriso malicioso que ele abre.

Ele vai responder quando o celular toca. Reconheço o som.

— Tá em cima da cômoda.

Pego o aparelho: “Mãe” brilha na tela. Atendo.

Ligação on . . .

— Oi, mãe. Bença.

— Deus te abençoe. Ficou de ligar ontem e não ligou… filhos ingratos são assim mesmo. — Rio do drama dela, sentando na cama. Relíquia me observa.

— A senhora que sumiu! Marcou de falar e desapareceu. Tô de olho, dona Marina.

— De olho em quê? Eu que tô de olho, tô longe mas tô de olho.

— A senhora acha que não tenho informante, né? — Brinco.

— Sua irmã? — Ri. — Vocês duas não podem se juntar.

— Com certeza não.

— Acordou agora? — Murmuro que sim. — O que aprontou no fim de semana?

— Quem? Eu? Nada.

Converso mais um pouco, matando a saudade. Nunca vi pessoa mais fofoqueira que ela — de longe fico sabendo de tudo.

— Manda um abraço pra Larissa e pro meu pai.

— Pode deixar. Se cuida. Eu te amo.

— Também te amo, mãe. Se cuida.

Ligação off . . .

Desligo com um aperto no peito. Saudade fode.

— Sua mãe? — Relíquia pergunta, digitando no celular.

— É.

— Tá com essa cara por quê?

— Que cara? Tô normal. É só saudade. — Murmuro, olhando o celular. — É complicado.

Cada dia que passa, dói mais. Mensagem e ligação não substituem estar lá.

— Não costuma visitar não?

— Desde que me mudei, fui só uma vez. Trabalho e faculdade tomam tudo. Não compensa ir e voltar no mesmo fim de semana.

— Por que eles não vêm pra cá? Curtir um baile com os cria. — Rio imaginando minha mãe no baile.

— Cancela a parte do baile. — Rio junto. — Pra virem, teriam que conciliar trabalho e a escola da minha irmã.

— Sua irmã tem doze, né?

— Isso aí. Lembra daquele dia que te contei dela e fiquei de te mostrar a foto? — Abro a galeria. — Aqui está. — Me aproximo e mostro.

— Caraí… é igualzinha a você. — Aproxima a imagem. — Tua cópia, man.

— Ela puxou a irmã mais velha, né? — Jogo o cabelo, convencida.

— Olhando bem… não, não puxou não. Tua irmã é mais bonita.

— Vai se foder. — Rio, sabendo que tá me provocando.

— E a sua mãe?

— Não vou mostrar mais não.

— Parei de palhaçada. Mostra aí.

— Só vou mostrar porque sou uma boa pessoa. — Abro a foto da família. — Aqui ó.

— Tua mãe é gata pra caralho, heim? Tá explicado a genética boa, porra.

— Respeita minha mãe, seu safado! — Bato no ombro dele, rindo.

— Genética boa mesmo. Quantos anos ela tem?

— Trinta e sete.

— Trinta e sete? Nem parece, véi. Novinha. Se pá eu falava que era tua irmã.

Rio, imaginando minha mãe ouvindo isso — ia ficar se achando.

— Todo mundo fala isso. — Sorrio pra foto. — Ia ficar toda boba.

— E esse é teu pai? — Confirmo. — Tua irmã tem os traços dele. Você não, é cópia idêntica da tua mãe.

— Ele é só pai de sangue da minha irmã. — Falo sem peso. — E você? Tem contato com a sua mãe?

Ele fica em silêncio, olha pra parede, limpa a garganta e muda a expressão.

— Deixei tua roupa em cima da cômoda.

O Relíquia de sempre volta — fechado, grosso, distante. A conversa morre ali. Se fosse outra hora, talvez me culparia. Mas sei que ela tá viva. Ele não quer falar, tudo bem. Mas não precisava ser assim. Eu aqui me abrindo toda, e ele fecha a cara desse jeito. Idiota. . .

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