Capítulo 6 Capítulo 06
Melissa . . .
Desligo a tela do celular, levanto, pego minha roupa e vou até o banheiro. Troco de roupa, solto o cabelo e o penteio com os dedos. Ao sair, encontro a cama vazia e a porta da sacada aberta. Deixo a camisa dele sobre a cama e sento pra calçar os saltos — que os pés lutem.
Vejo que Gabriel me mandou mensagem perguntando se ainda tô no morro. Respondo que sim e combinamos de passar na casa dele.
— Obrigada por ontem à noite. — Agradeço de novo. — Boa tarde. — Digo e saio do quarto sem esperar resposta.
Se ele vier com grosseria, não vou ficar calada. Prefiro evitar — não vale a pena perder a paz. Caminho pelo corredor seguindo o caminho que lembro, passo pelos seguranças e desejo boa tarde. Corto alguns becos, andando devagar por causa do salto; hoje os pés doem de verdade.
Chego em frente à casa de Gabriel e grito por ele.
— Que voz de taquara rachada é essa? — Biel aparece no portão com a cara toda amassada.
— Acordou agora mesmo, né?
— Só acordei quando te mandei mensagem. Mulher, que baile foi esse?
— Nem me fala. Só lembro de flashes, minhas pernas estão todas doloridas.
— Eu também, a gente não parou um minuto se quer de jogar firme. Ô MÃE, OLHA QUEM VEIO TE VER! — Grita ao entrarmos na sala.
— Que gritaria é essa, Gabriel? Fala baixo! MELISSAA! — Eliane, mãe de Gabriel, fala assim que me vê. Sorrio e a abraço. — Você sumiu, menina!
— Sumi nada, tia. A senhora que sumiu! Já cansei de mandar mensagem pro Gabriel pedindo pra você ir me ver, mas nunca vai.
— Tô cheia de serviço. Você que tem que vir pra cá, ainda mais em dia de pagode — dorme aqui.
Eliane é um amor de pessoa, sempre me tratou super bem — Gabriel até fica com ciúmes. Quando morava aqui no morro, vivia lá, sem contar os pagodes que ela me arrastava.
— A gente tem que marcar um dia. — Diz ela, caminhando pra cozinha. — Chegou na hora certa, tô fazendo batata gratinada.
O cheiro da comida me faz revirar o estômago. Eliane tira o tabuleiro do forno e coloca no fogão.
— Não vou recusar, não.
— E nem deve!
Passo o almoço conversando com os dois. Depois, lavei a louça — mesmo ela reclamando que não precisava — e Gabriel secou. Ficamos um bom tempo conversando, até decidimos ir tomar açaí. Deixo os saltos lá e calço um chinelo da Nike que ele me empresta.
— Você não vai nem acreditar em quem me levou em casa. — Biel comenta no caminho.
— Para de suspense e conta logo.
— Zac. — Paro de andar de uma vez e o olho.
— Mentiraaa! Zac, o Zac?
Zac é um envolvido com quem Gabriel teve um lance que ninguém além de mim ficou sabendo. Não deu em nada — meu amigo não é qualquer um.
— Tô te falando. — Ri, voltando a caminhar.
— E aí, conversaram?
— Oxê, não. Também tava mais pra lá do que pra cá.
— Graças a Deus não falou nenhuma merda. — Falo ao entrar no ponto de açaí.
Peço meu de sempre: copo de 700ml com leite em pó, banana, farinha láctea e leite condensado. Sentamos esperando.
— E você com o outro lá?
— O que tem eu?
— Foi só pra dormir mesmo? — Sorri malicioso.
— Para de me olhar assim, Gabriel! — Rio. — Bicha safada!
— Sou mesmo. — Gargalha. Levanto pra pegar o meu, pago e espero ele. — Vamo sentar ali na pracinha.
Atravessamos a rua e sentamos num banco vazio.
— Mas foi só dormir mesmo. Não dava pra fazer nada — se me perguntassem o nome, não sabia responder.
— Isso que é cachaça boa. Mulher, como você ficou assim? Eu bebi o mesmo tanto.
— Acho que foi quando você tava conversando com aquele rapaz, lembra? Me empolguei. Ainda bem que tomei Engov antes, senão tava com uma ressaca danada.
— E como estaria… O que seria de nós sem Engov?
— Só o pó. — Rio, dando uma colherada.
— Não rolou nenhum esfrega de manhã? — Quase engasgo.
— Gabriel! — Rio. — Quê que é isso? Vai orar, seu pervertido! E não, não rolou nada.
Lembro de como ele falou comigo de manhã, grosso e frio. Dá vontade de quebrar tudo.
— Que carinha é essa? — Biel me analisa.
— Nenhuma, tô normal. — Como mais uma colherada.
— O que aconteceu? Ele fez alguma coisa? Porque se fez, eu…
— Não, Biel. Relaxa.
Ele balança a cabeça, sem se convencer. Mudamos de assunto e ele começa a contar dos boys dele — me rende boas risadas. Mais piranho que ele, só ele mesmo.
— Vou te apresentar um amigo dele. É o seu tipo: bigodinho, cavanhaque, cara de quem não vale nada… só não é bandido.
— Eu nem gosto de homem assim. — Me defendo rindo.
— Senta lá, Cláudia.
— Tô fugindo de problema. Homem é sinônimo de encrenca.
— O foda é que é um problema tão gostoso… — Suspira e eu concordo rindo. — Falando em problema, olha quem chegou no bar.
Disfarço e olho: um grupo de homens armados, e Relíquia no meio deles. Desvio o olhar e volto pro Gabriel.
— De problema já basta. Você falou tanto desse rapaz, me mostra a foto.
— Calma aí. — Pega o celular. — Olha que bonitinho. — Mostra a foto do garoto do baile. — Tipo assim, comparando com os que você pega…
— Vai se foder, Melissa. — Bate no meu braço, rindo.
Gabriel só gosta dos calangos.
— Mentira, amigo. Ele é bonitinho.
— Para de fazer essa cara.
— Hm, que cara? — Pressiono os lábios.
— Não te mostro mais nada.
— Uii, a poc tá revoltada. — Provoco.
— Ri baixo, Melissa. Meu Deus, que vergonha. — Cobre o rosto com a mão e eu rio mais. — Nunca mais saio com você.
— Mas vai sair sim. Você me ama, Gabriel.
O celular vibra. Notificação do WhatsApp: Relíquia.
— Ô dó…
— Vai negar que me ama? Tudo bem, deixa — quando me chamar pra algum baile…
— Você é muito chantagista. — Ele abre a boca, indignado.
O celular vibra de novo. Fico mais um tempo conversando, depois voltamos pra casa dele. Quando o sol começa a baixar, vejo que é hora de ir.
— Volta depois. — Eliane me entrega uma vasilha com batata assada. — Não suma, heim? Se não, eu mesma vou te buscar.
— Pode deixar, tia. — Abraço ela. — A senhora também tem que aparecer. Obrigada pela comida, devolvo a vasilha depois.
— Não precisa pressa. Quando vier, traz.
— Melissa devolver vasilha? Ram. — Biel debocha. — Essa aí é a doida dos potes.
— Vou tentar vir no próximo fim de semana.
Me despeço de Eliane. Gabriel me acompanha até a barreira.
— Olha quem tá ali. — Ele me avisa.
Olho pra frente: Relíquia tá lá, conversando com um rapaz. No momento em que o olho, ele dá um tapinha no ombro do outro, fazem um toque e o rapaz sai. Ele se desencosta do muro e enfia as mãos no bolso.
— Não vou precisar te levar lá embaixo. Glória, não vou ter que andar!
— Ah, vai me levar sim!
— Amo você, mas não me atrevo com o costa quente não. Você já viu a cara dele? Parece que tá com raiva o tempo todo.
— Tudo bem, Biel. Os de verdade eu sei quem são. — Faço um joinha.
— Você sabe que eu te amo. — Faz um coração todo torto.
— Ama, né seu falso? — Beijo sua bochecha. — Já vou indo.
— Manda mensagem quando chegar.
— Tá bom. Te amo.
— Também amo você. — Dá tchauzinho.
Respiro fundo, cruzo a rua e o encaro.
— Vai negar a voz mesmo? — Cruza os braços.
— Fala, Relíquia.
— Não vou gritar não, pô. Vem cá.
Me aproximo, mantendo distância.
— O que você quer?
— Tá me ignorando por quê? — Pergunta, cheio de marra.
Solto o ar dos pulmões e o olho.
— Me chamou pra isso? — Esfrego o rosto, cansada. — Tô cansada e quero ir pra casa. É só isso?
— Te fiz uma pergunta, Melissa.
— Não tô te ignorando. Se fosse, não tava aqui conversando. Já tô liberada, chefe?
— Tô conversando contigo numa boa. Vem com graça pra cima de mim não, heim.
— E até quando vai ser numa boa? Pra eu saber — quando começa a ser grosso?
As palavras saem antes de pensar. Não consigo guardar nada. Ele passa a mão no maxilar e me encara.
— Então cê tá bolada por isso?
— Não tô bolada com nada!
Vejo um rastro de sorriso no canto dos lábios dele. Isso me faz fechar mais a cara.
— Tô vendo a fumaça saindo da tua cabeça daqui. — Debocha, apontando.
Não respondo. Dou as costas e começo a andar. Sinto a mão dele no meu braço, me puxando de volta.
— Não me deixa falando sozinho não, irmão.
— Não tenho o que falar contigo. — Ele respira fundo, sem soltar meu braço.
— Foi mal por hoje cedo. — Fala, olhando nos meus olhos.
Fico sem reação. Não esperava isso. Mas não baixo a guarda.
— Você não é obrigado a me contar nada. Mas também não sou obrigada a aguentar grosseria. Da próxima vez que me tratar mal — e tá me ouvindo? — da próxima vez, sem motivo, você nunca mais vai ouvir minha voz. E não tô brincando. — Falo baixo, firme.
— Na moral, foi sem intenção. Reconheço que te tratei mal e fui grosso. Por isso tô aqui, na humildade, me retratando. — Coça a nuca, sem graça.
— Tudo bem. Já que resolvemos, vou indo.
— Qual foi, branquela? Vai ficar com essa cara mesmo? Deve ser fome. Bora lá pra casa comer uma pizza?
Só vou porque tô com fome — e porque ele vai pagar. . .
