Capítulo 7 Capítulo 07
Douglas (Relíquia) . . .
Domingo . . .
Desço as escadas e encontro a encrenca sentada no tapete, com a maior cara fechada. Mulher bolada é uma fita, mas Melissa bolada é uma situação que complica. Em outra hora eu tô nem aí, mas reconheço que errei com ela. Melissa é firmeza — mesmo sendo chata pra caralho. A consciência pesou, e sei que ela gosta dessas coisas, então já coloquei uma pizza na roda.
— Qual foi, maluca? Vai ficar sentada aí no chão? — Sento no sofá, olhando pra ela.
— Seu tapete é confortável. — Desliza a mão pelo pelo. — Uma vez pensei em comprar um desses pro meu quarto.
— Ia ficar dahora um preto na frente da cama. Por que não comprou?
— Você já viu o preço disso?
— Nem é tão caro assim.
— Claro que não, é só o olho da cara mesmo! Nada demais, bobeira. — Faz pouco caso. — Infelizmente não tenho dinheiro igual você, e muito menos ganhei na Mega-Sena.
— Cê tá focada na faculdade, tu cresceu com a mente em outra coisa. Eu cresci com o foco nas notas desde cedo.
— Ô meu Deus, por que eu não cresci assim também? — Suspira, se lamentando.
— Deixa de ser mente fraca, branquela. — Chuto levemente o ombro dela com a perna e rio da cara que ela faz.
— Ai, Relíquia! Você sabe que isso dói?
Ignoro o drama e continuo:
— Falando sério agora: dinheiro é só papel. Garante teu futuro primeiro, que o resto vem.
— É só papel. — Me imita. — Um simples papel que me deixaria feliz. Nem precisa de muito, sabe? Sei lá… uns vinte papelzinho azul já tava bom, aquele com o desenho de um peixe.
— Vira garota de programa que cê vai faturar igual água.
Ela sorri, achando graça. Rio, negando com a cabeça — não tem como brincar que ela leva a sério.
— Boa ideia! — Bate palma, animada. — Garota de programa não… vou virar acompanhante de luxo, isso mesmo!
Rio, passando a mão no queixo. A ideia é doida, e o pior é que eu nem duvido. O rádio começa a chiar e a voz do segurança avisa que o moleque chegou com a pizza.
— Fica marolando nessas ideias malucas aí. — Falo rindo, pegando o dinheiro na carteira.
Saio de casa, atravesso o jardim e vejo os vigias nos pontos estratégicos.
— Boa noite, patrão. — O moleque, que parece ter dezesseis anos, me cumprimenta quando abro o portão.
— E aí, menor. Tá certinho?
— Tá sim. Só vou pegar o troco aqui. — Me entrega as caixas e abre a pochete.
— Pode ficar pra ti. Valeu aí.
— Quê isso, Relíquia! Brigadão. Precisando é só ligar. — Aceno e volto pra dentro. — Qualquer coisa é só acionar. — Falo com Jorginho, um dos vigias.
Entro, encosto a porta e vejo a maluca no mesmo lugar. Ganho a atenção dela quando coloco a caixa na mesinha.
— Tem cerveja, quer?
— Só uma, porque amanhã trabalho.
Vou pra cozinha, pego duas latas de Brahma e um garfo e faca pra ela — que é cheia de frescura.
— Assim é bom demais, tudo na mão.
— É claro. Tenho que ser tratada igual à princesa que realmente sou.
— Princesa… — Debocho. — Só se for a mulher do Shrek. Olha a agressão. — Rio, desviando do tapa.
— Não tem como conviver com você, é impossível. Não sei que graça é essa.
— Olha, não foi você mesma que disse que era princesa? Só concordei, pô. — Provoco, rindo da carranca dela. Pressiono dois dedos na bochecha dela, formando um biquinho, e dou um selinho.
— Seu falso. — Vira o rosto.
— Cê tá muito sentimental, parceira. — Solto o rosto dela e me acomodo no sofá. — Se quiser copo, vai lá buscar.
— Onw, que cavaleiro… — Força um sorriso debochado. — Puts, a pizza veio quentinha.
Só precisou sentir o cheiro pra melhorar a cara e o humor.
— Anota aí: melhor pizza que tu vai comer.
— Se for tão boa quanto o cheiro… — Murmura, pegando uma fatia. — Não vou conseguir comer com você me olhando.
— Deixa de graça e come logo, Melissa.
Ela põe a mão na frente e morde um pedaço.
— Hmm… porra! — Faz sinal de “ok” com o dedo. — É muito gostosa! Vou ter que morder outro pedaço.
— Pega a visão, essa pizzaria daqui da comunidade faz umas pizzas dahora. — Comento, abrindo minha lata. — Eu disse pra tu.
— Muito boa mesmo. Vai, Relíquia, agora é a sua vez.
Melissa não come carne, então pedi de Marguerita — nem compensava dois sabores.
— Aah, não, véi… só tem queijo. — Lamento, olhando a fatia. — Até desanimei.
— Deixa de ser chato e prova.
Sei que não vou gostar, essas coisas não encaixam no meu paladar. Mas mordo sem esperanças.
— E aí, o que achou? Gostou? — Me olha ansiosa, enquanto tenta abrir a lata.
— Até que não é ruim não. Só é sem graça e sem gosto. Colocaria um bacon nesse queijo. — Estendo a mão, pego a lata dela e abro — a unha tava perdendo por três a zero. — Toma. — Entrego. — Até que esse matinho tem um gosto bom.
— É manjericão.
— Mesma coisa, no final tudo é mato. Mas e aí, tu não come carne há quanto tempo?
— Quase cinco anos. Parei no final dos meus dezessete.
— E não sente falta não?
— Nem um pouco. Pra mim foi fácil, nunca fui chegada em carne. Foi a melhor escolha que fiz.
— Aah, eu não abro mão de um churrasco não. Uma carne assada, um bife no ponto…
— Ah, não. — Faz careta. — Você tem que ampliar o paladar, experimentar coisas novas. Quando fizer isso, vai ver que a carne não faz diferença. Poxa, pra que matar um animalzinho se tem tantas outras opções?
— Pra comer bacon?
— Não, Relíquia… Você está matando um ser vivo só pra satisfazer o paladar.
— Animal é o de menos, Melissa.
— Óbvio que não! Muitos nascem com a data marcada, vivem em cativeiro… fora tudo que sofrem nesse tempo curto de vida.
— Um dia todo mundo morre mesmo.
— Ai, Deus… É por isso que prefiro os animais aos humanos. Quem sabe você não muda de ideia se pesquisar sobre.
— Lamento pelos bichos, mas não rola não.
— A culinária vegetariana e vegana é muito gostosa. — Aponta, mordendo mais um pedaço.
— Cê pretende virar vegana?
— Sempre foi minha meta. Quem sabe um dia. Mesmo não sendo, procuro aprender mais sobre. As receitas são ótimas e… Que cara é essa? — Ri.
— Que cara? Tô normal. — Pressiono os lábios, segurando o riso.
— É sério, Relíquia. — Joga o sachê de ketchup em mim. — Nunca vai saber se é bom se não provar.
— Qualquer dia, quem sabe. — Falo, só pra não deixar ela triste. Claro que não vou largar o bacon.
— Você é muito falso! Nem vai provar. Um dia vou lá em casa e faço um prato vegano pra você.
— Se tu fizer, eu como. . . .
