Capítulo 2
Abri a porta e dei de cara com meu pai, um homem que podia ser intimidador à primeira vista. Apesar de eu saber que, no fundo, ele era um molenga, a aparência dele — alto, largo e imponente — sugeria o contrário. Infelizmente, não herdei a altura dele, mas ganhei a cor dos olhos. Todo o resto, devo à minha mãe.
— Oi, pai — cumprimentei baixinho, sob o olhar incrédulo dele.
— Acho que vou ter que te colocar para estudar em casa — ele murmurou, meio brincando.
— Pai! — eu ri.
— O quê? A culpa não é minha se eu te deixei parecendo minha garotinha e agora volto e encontro uma jovem mulher. Quando foi que tudo isso aconteceu? — ele perguntou, sério.
Revirei os olhos.
— Você pode simplesmente me dar um abraço, seu dramático?
Ele soltou uma risada e abriu os braços.
— Vem cá, abóbora!
Entrei no abraço dele, imediatamente envolvida pelo cheiro único que ele tinha — uma mistura de perfume Hugo Boss com café, que parecia se transformar em algo distintamente dele.
— Está pronta para ir? — ele perguntou depois de se afastar.
— Ah, sim! Minhas coisas já estão todas arrumadas — respondi, apontando para as caixas e bolsas empilhadas ali perto.
— Certo! Deixa eu dar oi para sua tia e seu tio, e aí a gente pode ir — ele disse.
— Tá bom — assenti, sem esperar outro abraço dele tão cedo.
— Fico feliz que você venha morar comigo, abóbora. Já estava mais do que na hora — ele murmurou baixinho no meu cabelo.
Meus olhos se encheram de lágrimas quando as palavras dele fizeram efeito. Morar com ele tinha sido impossível por causa da batalha pela guarda que minha mãe iniciou quando eu tinha onze anos.
Ela conseguiu a guarda total e, mesmo depois de morrer, há um ano, minha tia hesitou em me deixar ir, acreditando no retrato negativo do meu pai que minha mãe tinha pintado. Parecia que eu precisei me tornar um peso financeiro para finalmente me deixarem ir morar com meu pai.
— Também estou feliz por poder morar com você — sussurrei de volta, sentindo uma mistura de emoções.
Depois de dar um beijo suave na minha testa, ele foi para a cozinha cumprimentar a tia e o tio. A interação foi breve; claramente, nenhum deles estava com vontade de prolongar o encontro.
Meu pai voltou rápido e me ajudou a colocar minhas coisas no carro. Abracei minha tia e meu tio em despedida, depois entrei no carro com meu pai. Nenhum de nós parecia pronto para conversar, então nos contentamos em ouvir um álbum do UB40 — nossa trilha sonora de conexão entre pai e filha, “Red Red Wine”.
A viagem levou quatro horas, mas eu só fiquei acordada em metade dela. Meu pai me acordou com um toque gentil quando chegamos. Estávamos estacionados em frente a uma casa grande, cinza-clara, e a ansiedade voltou a borbulhar; eu ainda não tinha conhecido a esposa dele nem meu enteado.
— Relaxa, abóbora. Os dois estão muito animados para te conhecer. O Brady não para de falar nisso há uma semana — meu pai me tranquilizou.
— Há uma semana? — perguntei, surpresa.
— É, melhor a gente entrar antes que ele saia para te arrastar para dentro ele mesmo — ele riu.
Segui o conselho dele e saí do carro. Olhando para trás, notei o portão a poucos passos dali. O jardim da frente era meticulosamente cuidado, completo com uma mini fonte de onde a água jorrava do que pareciam ser bocas de anjos.
— Bel, Brady, chegamos — anunciou meu pai ao entrarmos na casa.
Duas figuras animadas praticamente correram para o hall de entrada e me envolveram em abraços calorosos. A mulher se afastou, e eu imediatamente me senti à vontade com ela. Parece estranho, mas a presença dela era tão acolhedora que me deixou confortável na mesma hora, antes mesmo de dizer uma palavra.
“Eu sei que isso pode soar estranho”, pensei comigo mesma, “mas sinto como se a conhecesse há uma eternidade.”
— Ai, meu Deus, oi! Eu sou a Bella, e este é meu filho, Brady. Estávamos ansiosos para te conhecer — ela disparou, ainda radiante. Brady ainda não tinha me soltado, e acabei dando uma risadinha.
— Ah, Brady? — eu disse, com a cabeça apoiada confortavelmente no peito dele, já que ele era bem mais alto do que eu.
— Hm? — ele respondeu, aparentemente perdido no momento.
— Já pode me soltar agora — provoquei com suavidade.
Ele se afastou, com as orelhas ficando rosadas. — Certo! Oi, eu sou Brady.
— Lillian — sorri calorosamente para os dois.
— Está com fome? — Bella perguntou de repente.
— Estou, sim — assenti.
— Ótimo! Vou preparar alguma coisa enquanto Brady te ajuda a se instalar. Tudo bem? — ela perguntou.
— Parece perfeito, obrigada — respondi. Ela abriu outro sorriso e me abraçou mais uma vez.
— Estou realmente muito feliz que você esteja aqui. É bom finalmente ter outra garota na casa — ela riu baixinho antes de seguir na direção do que presumi ser a cozinha.
— Bem, vou deixar vocês dois cuidarem disso. Preciso verificar alguns casos — disse meu pai, beijando minha testa antes de sair do cômodo.
— É muito bom ter uma irmãzinha — comentou Brady enquanto começávamos a levar minhas coisas do SUV para dentro. Ele é um ano mais velho do que eu, mas eu pulei um ano, então estamos no último ano juntos.
— A maioria dos irmãos mais velhos não concordaria com você. Ouvi dizer que ser irmão mais velho pode ser cansativo — respondi, em tom brincalhão.
— Se você não estiver preparado, pode ser mesmo — ele corrigiu.
Ergui uma sobrancelha.
— Ah, é? E você está preparado? Achei que você fosse filho único.
— Isso pode até ser verdade, mas, com o meu porte, a maioria dos caras pensaria duas vezes antes de se aproximar de você — argumentou.
Fiquei ali, observando-o. Ele tinha razão; o físico dele era realmente imponente. Com cerca de um metro e oitenta e oito, ombros largos e um maxilar bem definido, o cabelo escuro e os olhos castanho-chocolate contribuíam para aquela aparência intimidadora e, ao mesmo tempo, estranhamente bonita.
“Como alguém consegue parecer acolhedor e intimidador ao mesmo tempo?”, pensei.
— Então, acredita em mim? — ele perguntou, me tirando das minhas observações.
