Capítulo 4

— Você tem razão. Eu prometo cuidar muito bem de você, tá? — disse ele, com a voz tingida de tristeza.

Pela terceira vez desde que o conheci, eu o abracei com força.

— E eu sei que você vai fazer isso muito bem — assegurei.

— Com toda certeza! — ele respondeu, me fazendo rir.

Depois de outro beijo na testa — que parecia estar virando um hábito —, terminamos a louça. Colocamos tudo na lava-louças porque minha mão ainda não estava funcionando totalmente. O médico tinha dito que levaria um mês para cicatrizar e que provavelmente deixaria uma cicatriz.

Por sorte, o salto só fraturou dois ossos por onde passou; o maior problema tinha sido o rompimento dos músculos afetados.

Quando terminamos, ele me deixou subir para o meu quarto. Eu estava exausta. Ele me informou que no dia seguinte iríamos às compras porque, segundo ele, o meu guarda-roupa era “atroz e ultrapassado”.

Que irmão ele é, hein!

Horas depois, acordei me sentindo completamente descansada. Minha cama nova rapidamente se tornou uma das minhas coisas favoritas naquele quarto. Já era o meio da manhã, e decidi não ser teimosa sobre a ida às compras com Brady. Então, me arrumei para ir ao shopping.

Tomei banho e vesti uma calça jeans simples, uma camiseta lisa e um par de scarpins. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo antes de descer. O cheiro de bacon vinha da cozinha, e meu estômago ficou radiante ao encontrar um prato de bacon estalando à minha espera.

— Bom dia, pessoal! — cumprimentei alegremente, praticamente saltitando até o bacon.

Todos responderam com carinho.

— Vejo que você ainda é viciada em bacon — comentou o papai, divertido.

— Bacon é vida! — declarei dramaticamente.

— Fico feliz que você tenha se arrumado sem eu precisar te arrancar da cama. A gente realmente precisa resolver essa situação do guarda-roupa — comentou Brady, olhando para o celular.

— Brady! — Bella o repreendeu.

— O quê? Olha pra ela, mãe! Ela tem tanto potencial que está sendo desperdiçado. Ela é bonita demais para essas roupas. Ela merece parecer adoravelmente deslumbrante — argumentou ele.

Eu não tinha certeza do que exatamente ele queria dizer com isso!

Sinceramente, eu sempre sonhei em ter um guarda-roupa mais feminino, mas isso nunca esteve ao meu alcance. E, quando eu tinha dinheiro, ele costumava ser tirado de mim por vários motivos.

No fim, desisti e me acomodei no visual sem graça, “atroz”, como Brady chamou.

— Tudo bem, Bella. Ele até que tem razão. Meu guarda-roupa precisa mesmo de uma atualização — sorri.

— E você vai deixar ele te levar às compras? — ela perguntou, claramente surpresa.

— Ah... você pode ir junto? — sugeri, incerta.

— Não!

— Fantástico!

Brady e Bella responderam em uníssono: Bella rejeitando a ideia com firmeza, enquanto Brady comemorava.

Papai deu uma risadinha enquanto Bella subia para se arrumar.

— Você começou uma coisa grande.

— O quê? Eu não sabia! — me defendi.

— Por que você foi fazer isso? — Brady resmungou.

— Provavelmente ela nem é tão ruim assim, gente — tentei tranquilizá-los.

Nunca antes eu tinha estado tão errada sobre alguma coisa em toda a minha vida!

Sério!

Sete horas depois, meu closet estava abastecido com todo tipo de roupa que eu já sonhara em ter, e meus pés pareciam estar prestes a desistir de vez. Em um único dia, eu comprei mais sapatos do que tive na vida inteira. Bolsas, joias e perfumes agora ocupavam seus lugares designados.

E, ainda assim, Brady continuava me arrastando para uma festa.

— Ah, vamos, Brady! Estou exausta! — reclamei.

— Eu te avisei, Lillian, mas você deixou o monstro das compras vir junto. Agora vista a calcinha de mulher adulta e anda logo! — respondeu ele, cruzando os braços.

Fiz beicinho.

— Por que você me odeia tanto?

— Não faço ideia do que você está falando. Vamos sair em uma hora — disse ele, antes de sair do meu quarto.

Mais uma vez, percebi que não adiantava discutir com ele, então me convenci a levantar e me arrumar. Como aquela era a minha primeira festa, eu queria estar bonitinha o suficiente para ser notada, mas não chamativa demais.

Optei por uma saia branca simples que terminava um pouco abaixo da metade da coxa, combinada com um cropped rosa-claro e scarpins cor de pêssego. Completei com joias combinando e, quando Brady voltou ao meu quarto, eu estava terminando de arrumar o cabelo.

— Agora posso dizer com orgulho que meu trabalho aqui está feito. Você está deslumbrante, maninha — ele sorriu ao entrar no quarto.

— Você também não está nada mal, pegador — provoquei, me referindo ao conjunto todo preto dele.

— Quem dera, mas eu não jogo nesse time — ele respondeu com um sorrisinho.

Meus olhos se arregalaram.

— Você não joga?

— Não! Que cara hétero em sã consciência você conhece que conseguiria sobreviver a sete horas de compras? — ele perguntou.

Eu não conseguia acreditar que não tinha percebido!

— Mas você é tão... — deixei a frase morrer.

— Tão não gay? Isso não existe, maninha. Nem todo cara gay exibe a feminilidade ou é magrinho e incapaz de se defender de valentões. Estereótipos enganam — ele soltou uma risadinha.

Fiquei sem palavras.

— Você já saiu do armário? — deixei escapar.

— Se você quer dizer se todo mundo sabe, então sim, sabe. A maioria das pessoas lida bem com isso — ele respondeu com naturalidade.

— Eu também não tenho problema com isso, apesar da minha reação. Só não esperava — esclareci rapidamente.

— Calma, Lillian! Eu sei — ele piscou para mim.

— Ótimo! Porque você é meu irmão, e eu te amo não importa o quê — sorri com carinho.

Ele fingiu fungar e adotou uma voz de bebê.

— Você me ama?

— Claro, seu ursão! — provoquei.

— Eu achei que o papai era o ursão! — ele fez bico.

— Achou errado! Vocês dois são ursões — Bella comentou da porta.

— Exatamente! — dei uma risadinha, o que me rendeu um olhar emburrado de brincadeira de Brady.

— Você está linda, mija — Bella me elogiou. Ela havia perguntado se tudo bem me chamar assim, e eu concordei na hora.

— Obrigada — corei.

— Vamos logo antes que a mamãe queira você só para ela — Brady provocou.

— Eu te coloquei neste mundo; posso muito bem te tirar dele, Brady — Bella ameaçou em tom brincalhão.

— Meu padrasto é policial; quero ver você tentar — Brady rebateu com um sorrisinho.

— Ele não prenderia a esposa amorosa dele. Se duvidar, ainda vai achar que seria o melhor a fazer — Bella retrucou, dando de ombros. Brady soltou um arquejo dramático, e eu não consegui segurar o riso.

— Você não é minha mãe! — ele exclamou.

— Tudo bem. Agora eu tenho uma filha, então pode me deserdar se quiser — Bella respondeu com calma.

Brady se virou para mim.

— Hora de escolher um lado. Só lembra que, se você não escolher o meu, vai a pé para a festa.

— E se escolher o meu, pode ficar em casa descansando — Bella acrescentou com um sorrisinho astuto.

Mulher inteligente!

— Hum, decisões, decisões — provoquei, fingindo pensar profundamente.

— Você está demorando demais — Brady reclamou.

— Você só está com medo de ela escolher o meu lado — Bella riu.

— Ela é inteligente demais para isso, mãe. É por isso que nós estamos saindo agora — Brady comentou.

— Mas do que vocês estão fala—

Eu estava no meio da pergunta quando meu querido irmão decidiu que eu era um saco de batatas, me ergueu e me jogou sobre o ombro. Bella riu enquanto eu era carregada escada abaixo.

— Brady, por que você está carregando sua irmã desse jeito? — papai perguntou, interrompendo o que fazia no laptop.

— Ela estava prestes a cometer um erro terrível. Estou salvando ela dela mesma sendo um bom irmão. Voltamos mais tarde — Brady explicou.

— Tomem cuidado e se divirtam — papai soltou uma risada.

— Sério? Você não vai exigir que ele me ponha no chão? — perguntei, chocada.

Papai apenas deu de ombros.

— O que posso dizer? Ele está sendo um bom irmão.

Ah, ótimo, me matem agora!

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