Capítulo 3

Raven

O pesadelo de cair não parava.

O vento gritando nos meus ouvidos. O Coração de Satã queimando contra meu peito como uma marca. O chão se aproximando a uma velocidade terminal. Repetidamente, o mesmo ciclo interminável de—

Frio.

Algo frio tocou meu braço.

Meus olhos se abriram de repente. O treinamento entrou em ação antes do pensamento consciente — eu torci, agarrei, puxei. Minha mão encontrou uma garganta. Macia. Jovem. Masculina.

"O que—" A voz rachou com a surpresa adolescente.

Minha outra mão varreu a superfície ao meu lado, procurando uma arma. Qualquer coisa. Meus dedos fecharam em torno de algo cilíndrico. Liso. Muito leve. Olhei para baixo.

Um lápis?

Pisquei. Olhei de novo. Outro lápis. Uma borracha. Um caderno com rabiscos na margem. Uma mesa.

Uma maldita mesa.

A sala de aula entrou em foco como se alguém tivesse ajustado a lente de uma câmera. Fileiras de mesas. Luzes fluorescentes. Um quadro branco coberto de equações. Estudantes me encarando com expressões que variavam do choque à antecipação alegre.

Droga. Onde estou?

Mas não havia tempo para pensar. O garoto em meu aperto lutava, e a memória muscular assumiu o controle. Agarrei o lápis mais afiado ao meu alcance — um mecânico, com a ponta recém-afiada — e pressionei contra a garganta dele.

"Quem é você?" Minha voz saiu fria. Letal. "Onde estou?"

"Raven!" Os olhos do garoto se arregalaram de pânico. "Sou eu! Leo! Leo Davenport! O que diabos há de errado com você?"

Raven? Quem diabos é—

"Eu só estava tentando te acordar!" As palavras dele saíram em um jorro. "O professor está vindo! Você estava dormindo! É hora da aula!"

Professor? Aula?

Mas eu deveria estar... A memória me atingiu como um soco no estômago. O avião. O salto. O pingente queimando na minha pele. O fogo se espalhando pelas minhas veias até tudo ficar branco.

Oh não. Não, não, não.

Estou morta? Eu—

A sala de aula explodiu em risadas.

"Meu Deus!" Uma garota na primeira fila segurava os lados do corpo. "Eu não sabia que a Raven Martinez tinha esse tipo de loucura nela!"

"Certo?" Outra voz se intrometeu de algum lugar atrás de mim. "Depois do que ela fez, você pensaria que ela tentaria manter um perfil baixo. Mas não—continua se exibindo!"

"Acho que ela realmente perdeu a cabeça desta vez," alguém mais acrescentou com alegria mal contida.

As palavras deles mal registraram. Minha atenção tinha mudado para algo muito mais alarmante—este corpo.

Não era o meu.

Os movimentos pareciam lentos. Desconhecidos. Meus reflexos estavam lá, mas filtrados por membros que não respondiam com a precisão que eu havia aperfeiçoado por dezesseis anos. E a pele—olhei para minhas mãos ainda segurando a gola de Leo. A pele era mais macia. Mais jovem. Os calos de anos de treinamento com armas haviam desaparecido.

Que diabos aconteceu comigo?

Soltei Leo com uma mão e peguei a superfície refletiva mais próxima - um espelho compacto da garota ao meu lado. Ela gritou em protesto, mas eu já o havia aberto.

O rosto que me encarava fez meu sangue gelar.

Olheiras sob olhos cansados. Uma constelação de sardas em um nariz pálido demais. Cabelo que parecia não ver uma escova há dias. Traços que eram... comuns. Dolorosamente, notavelmente comuns.

Merda! O que aconteceu com meu rosto?

Meu rosto tinha sido minha arma tanto quanto qualquer lâmina. Doce. Desarmante. O tipo de rosto que fazia a segurança do aeroporto me deixar passar sem uma segunda olhada. O tipo de rosto que me aproximava de alvos que nunca viam a morte chegando.

Esse rosto? Esse parecia que tinha desistido da vida há três más decisões.

É por isso que todos estão zombando dela? Porque ela é muito... comum?

"Raven, por favor!" A voz de Leo rachou com genuíno desespero. "Pare de brincar! A Sra. Johnson vai chegar a qualquer momento, e se ela te encontrar assim - nós nem somos amigos, ok? Mas você não tem muitas pessoas que ainda não te odeiam completamente, então talvez solte meu pescoço antes de perder mais um!"

Sra. Johnson?

Eu hesitei. O medo nos olhos de Leo parecia real. Sincero, até. Contra todos os instintos gritando que isso era uma armadilha, afrouxei meu aperto—

A porta da sala se abriu com um estrondo.

A mulher que entrou não estava vestida como nenhuma professora que eu já tivesse imaginado. Saltos altíssimos que batiam contra o linóleo como tiros. Uma saia que era profissionalmente inapropriada por pelo menos três centímetros. Cabelo e maquiagem que sugeriam que ela tinha acabado de sair de uma sessão de fotos.

Ela carregava uma régua de metal como se fosse uma arma.

Minha avaliação de ameaça entrou em ação automaticamente. Linguagem corporal hostil. Postura agressiva. A régua segurada em um ângulo que sugeria que ela sabia como usá-la.

"Sra. Johnson!" Várias vozes chamaram em uníssono. "Raven enlouqueceu!"

Os olhos da mulher se fixaram em mim com o tipo de malícia concentrada geralmente reservada para disputas de sangue. Ela avançou, saltos batendo, régua apontada para meu rosto como uma acusação.

"Raven Martinez." Sua voz gotejava desprezo. "Você está absolutamente além da salvação."

Cada instinto de combate que eu já havia desenvolvido gritava perigo.

Soltei Leo completamente e dei um passo para trás. "Fique longe de mim."

Ela continuou avançando.

"Eu disse para ficar longe." Minha voz caiu para o tom que eu usava com alvos. Aquele que geralmente fazia as pessoas reconsiderarem suas escolhas de vida.

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