Capítulo 3 O Poder Proibido

“Não ouse encostar nele com essas mãos imundas, Kael! Dê mais um passo, só um centímetro, e eu juro que você vai se arrepender de um dia ter me encontrado!”

A voz de Selene subiu até virar um grito estridente. Aguda, cortou o silêncio pesado do café sufocante. Ela se postou ereta à frente de Leo, protegendo o filho com o próprio corpo.

A mão trêmula dela agora agarrava uma faca de pão que havia tomado do balcão. Era um simples utensílio de cozinha, uma arma que não deveria significar nada para um Alfa poderoso, mas o olhar de Selene deixava claro que ela estava totalmente disposta a usá-la.

Kael encarou a faca e então ergueu os olhos para Selene. “Você me ameaça com um pedaço de ferro, Selene? Depois de cinco anos procurando por você, é assim que me recebe?”

“Você não é nada para mim! Você rompeu nosso vínculo no salão da sua alcateia cinco anos atrás!”, Selene gritou. Lágrimas de raiva começaram a descer por suas bochechas. “Saia daqui agora! Leve todos os seus homens escondidos lá fora e nunca mais volte a se meter na minha vida!”

Kael soltou um rosnado baixo. Instintivamente, liberou sua aura dominante, fazendo a temperatura no ambiente despencar. “Eu não vou embora sem o meu filho. Eu sinto a ligação de sangue no corpo dele. Há um grande poder dentro dele que nem eu entendo. Ele é o herdeiro da Lua Prateada, Selene! Ele não pertence a um lugar apertado que cheira a farinha!”

“Ele não é seu herdeiro! Ele é só meu filho!”, Selene retrucou, com a voz rouca.

De repente, a atmosfera no salão mudou drasticamente. Uma pressão pesada preencheu o ar, mas, desta vez, não vinha de Kael. A força emanava da pequena figura atrás de Selene.

Leo saiu de trás da proteção da mãe. O rosto do menino de quatro anos não mostrava mais nenhum vestígio de medo. Seus olhos, antes castanhos, haviam se tornado de um dourado brilhante e ofuscante. O cabelo preto parecia se eriçar, como se uma corrente elétrica o atravessasse.

“Não grite com a minha mamãe!”, disse Leo, com uma voz pesada e grave. Não era uma voz que deveria existir na garganta de uma criança da idade dele.

Kael ficou imóvel, em silêncio. Como Alfa, seus instintos normalmente o levariam a atacar qualquer um que o ameaçasse. Ainda assim, algo muito fundo dentro dele sentia a urgência de se submeter. Seu lobo choramingou em sua mente, percebendo uma autoridade superior diante dele.

“Leo, meu amor, não faça isso!”, Selene tentou alcançar o ombro do filho, mas puxou a mão de volta imediatamente. A pele de Leo estava escaldante, como tocar água fervendo.

Kael tentou se aproximar, movido pela curiosidade e pela incredulidade. “Leo, escute. Eu sou seu pai. Eu só quero...”

Kael estendeu a mão para tocar o ombro de Leo. Porém, antes que as pontas dos dedos roçassem a camiseta do menino, uma explosão de energia dourada irrompeu do corpo de Leo e atingiu o peito de Kael com força imensa.

BOOM!

O corpo grande de Kael foi arremessado para trás. Ele se chocou contra uma vitrine de doces de vidro, estilhaçando-a em mil pedaços. Kael gemeu de dor quando cacos de vidro perfuraram suas costas. Ele olhou para o próprio peito, que já ficava roxo num tom escuro. A marca da explosão de energia ainda parecia queimar sua pele.

Do lado de fora do café, a porta foi escancarada. Três guerreiros da Lua Prateada entraram correndo em posição de ataque. As garras já estavam expostas, temendo que seu líder estivesse em grave perigo.

“Alfa! O senhor está bem?”, gritou um dos guerreiros. Os olhos dele pousaram de imediato em Selene e Leo. “Essa mulher... ela ousou atacar o Alfa!”

“Parem!”, Kael berrou com todas as forças, lutando para se levantar mesmo com o peito apertado. “Não ousem encostar neles!”

Os guerreiros, porém, já estavam tomados pelo calor do momento ao ver o líder ferido. Um dos mais jovens e impacientes avançou contra Selene. “Você vai pagar por ferir o nosso Alfa!”

Selene fechou os olhos e protegeu a cabeça, se preparando para o golpe. Mas o ataque nunca a alcançou.

Leo soltou um pequeno rugido. Embora o som não fosse alto, a frequência fez com que todas as janelas de vidro do café se estilhaçassem ao mesmo tempo. Outra onda de energia dourada explodiu do corpo dele. O guerreiro que avançava parou seco no meio do ar, como se tivesse batido numa parede invisível, antes de ser arremessado para fora pela janela quebrada.

Os outros dois guerreiros imediatamente caíram de joelhos. Seus corpos tremiam violentamente, e eles se viram incapazes de se levantar. Não era porque algo os estivesse segurando fisicamente, mas porque seus espíritos de lobo estavam paralisados de terror, forçados a se submeter ao poder de Leo.

Kael encarou o filho, incrédulo. “O Lobo Dourado”, sussurrou, baixinho. “A lenda é verdadeira. Ele não é um lobo comum, Selene. Ele é uma bênção que só aparece uma vez a cada mil anos.”

Selene rapidamente puxou Leo para os braços quando, de repente, ele amoleceu. A demonstração gigantesca de poder claramente havia esgotado suas forças. A respiração do menino vinha em arfadas curtas, e a luz dourada em seus olhos foi sumindo devagar até voltar ao normal.

“Olha o que você fez!” Selene encarou Kael com ódio puro. “A sua chegada colocou ele em perigo! Se a notícia do poder dele se espalhar, todas as alcateias deste mundo vão vir para capturá-lo!”

Kael se levantou devagar, sacudindo cacos de vidro das roupas. O olhar dele havia ficado mortalmente sério. Ele sabia que Selene tinha razão. O poder que Leo possuía o tornaria um alvo para todos que ansiavam por controle.

“É exatamente por isso que você precisa voltar comigo para a Lua de Prata”, disse Kael, num tom firme que não admitia discussão. “Só no meu território eu posso protegê-lo com todo o meu exército. Num lugar humano como este, vocês são fáceis demais de encontrar.”

“Eu prefiro morrer a voltar para o lugar que me humilhou, Kael!”

Kael se aproximou em passos lentos. Dessa vez, fez um esforço consciente para suprimir a própria aura, para não assustar Selene. Parou bem à frente dela, enquanto ela segurava Leo desacordado.

“Você pode me odiar o quanto quiser, Selene. Pode me amaldiçoar ou me bater todos os dias. Mas pense nessa criança, pense na segurança dele.” Kael baixou os olhos para o rosto pálido de Leo, com uma expressão de tristeza verdadeira. “Não deixe sua raiva de mim causar mal a ele. Meus inimigos já sabem que você está aqui. Batedores da Alcateia Crista de Sangue estão rondando esta cidade desde esta manhã. Se você não vier comigo agora, eles vão tirar Leo de você antes que a noite caia.”

Selene congelou. A Alcateia Crista de Sangue era um grupo dos lobos mais cruéis. Eram liderados por um Alfa com uma sede insaciável de poder. Ela sabia que eles não hesitariam em matar para pôr as mãos em Leo.

Selene baixou o olhar para o filho desacordado, depois tornou a encarar Kael. Era a escolha mais difícil que já enfrentara. Ela queria sua liberdade, mas não permitiria que caçassem Leo.

“Eu vou”, disse Selene por fim, num fio de voz. “Mas com uma condição.”

Kael olhou fundo nos olhos dela. “Qualquer coisa.”

“Eu não sou sua esposa. Eu não sou sua Luna. Eu sou apenas a mãe dessa criança. Nunca ouse me tocar ou agir como se ainda tivéssemos algum relacionamento, ou eu vou garantir que Leo te odeie para sempre.”

Kael ficou em silêncio por um momento. O peito dele latejou de dor com aquelas palavras, mas, no fim, ele assentiu devagar. “Eu aceito.”

Enquanto Kael saía para ordenar aos guardas que preparassem os carros, Selene sussurrou no ouvido de Leo: “Me desculpa, meu amor. Precisamos voltar àquele lugar pela sua segurança.”

Quando Selene caminhou em direção à porta, por acaso olhou para o outro lado da rua. Dentro de um carro preto estacionado, ela viu Freya sentada lá. O rosto da mulher estava mortalmente pálido, e os olhos, cheios de ódio enquanto ela encarava Selene.

Selene sustentou o olhar com um sorriso fino e gelado. “Se prepare, Freya. A Luna que você um dia jogou fora voltou, e eu vou fazer você pagar por tudo.”

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