Capítulo 4 Boas-vindas do traidor
“Parem aí mesmo! Vocês enlouqueceram, trazendo essa Rogue imunda pelo portão principal?”
A voz estridente recebeu o grupo do Alfa Kael assim que o SUV preto parou diante dos degraus de mármore da Casa da Alcateia Lua de Prata. Selene desceu do carro de cabeça erguida. Ela aconchegava Leo, que ainda dormia profundamente, enrolado num cobertor grosso. Selene inspirou fundo, puxando para os pulmões o ar do território da Lua de Prata que não respirava havia cinco anos. O cheiro da floresta e do poder que antes a faziam se sentir em casa agora pareciam sufocantes.
Freya estava no topo da escadaria, cercada por várias mulheres de alta patente da alcateia. O rosto bonito estava coberto por uma maquiagem pesada, mas ela não conseguia esconder o medo nos olhos ao ver que Selene estava, de fato, viva — e parecia muito mais forte do que antes.
“Cuidado com essa língua, Freya. Ou eu mesmo vou ordenar aos meus guerreiros que arranquem a sua língua”, trovejou a voz de Kael ao sair do carro. Sua aura de fúria calou instantaneamente todos os membros da alcateia que haviam começado a se juntar no pátio por curiosidade.
Freya se encolheu, em choque, o rosto ficando mortalmente pálido. “Mas, Kael, ela é uma traidora! Foi você quem a exilou cinco anos atrás! Por que está trazendo ela de volta para a nossa casa agora? Ela não é mais uma de nós!”
“Essa não é mais só a sua casa, Freya. E o que eu faço não é da sua conta”, sibilou Kael, num tom frio. Ele deu um passo na direção de Selene, pretendendo tirar Leo dos braços dela, porque achou que Selene devia estar exausta. Porém, Selene recuou depressa.
“Não toque nele”, sussurrou Selene, cortante. Seus olhos encontraram os de Kael com um olhar gélido, fazendo o Alfa parar onde estava. Havia uma barreira muito espessa entre os dois agora, e Kael conseguia senti-la.
Então Selene voltou o olhar para Freya. Ela subiu lentamente os degraus de mármore, aproximando-se da mulher que um dia a difamara até sua vida ser destruída. Cada passo de Selene parecia calmo e cheio de confiança. Ela não era mais a garota miserável que havia sido expulsa enquanto chorava e implorava no chão frio de mármore.
“Quanto tempo, Freya”, disse Selene. A voz era plana, mas soava extremamente ameaçadora. “Você está com uma cara bem aflita. Está com medo porque a pessoa que você achou que estivesse morta voltou para se vingar?”
“V-você… você não passa de uma Rogue miserável, sem nada na vida!”, Freya tentou gritar para encobrir o medo, mas a voz tremia violentamente. “Kael só sente pena de você porque você trouxe esse filho bastardo pra cá!”
PLAK!
O som de um tapa seco ecoou com clareza pelo pátio da Casa da Alcateia. Todos os presentes ficaram em silêncio, chocados. Freya caiu no chão, agarrando o rosto enquanto a pele começava a ficar vermelha e inchada.
“Chame meu filho de bastardo mais uma vez, e eu garanto que você nunca mais vai falar pelo resto da sua vida”, sibilou Selene. A mão dela ainda estava erguida, e uma leve vibração de energia dourada emanava de sua palma. O poder fez todos os que assistiam sentirem um arrepio de terror.
Kael apenas observou em silêncio. Não tinha a menor intenção de defender Freya. Em vez disso, olhou para Selene com uma expressão indecifrável, com um traço de admiração surgindo ali. Sua Luna, que antes era tão suave e tão fácil de chorar, agora tinha se transformado numa mulher incrivelmente dura e corajosa.
“Levem os dois para o quarto principal”, ordenou Kael à governanta-chefe, parada perto da porta.
—O quarto principal? —um dos anciãos da alcateia presentes protestou em voz alta. —Alfa, esse é o quarto reservado para a Luna! Esta mulher não é mais a nossa Luna! Ela foi descartada!
—A partir de hoje, qualquer um que insultar Selene ou o filho dela estará me insultando diretamente —Kael encarou a multidão de membros da sua alcateia, cortante. —E todos vocês sabem as consequências se alguém ousar me desafiar.
Selene ignorou o debate. Entrou na imponente Casa da Alcateia. Todo o luxo que um dia fora seu agora parecia estranho e desagradável. Ela atravessou corredores longos, onde fotos de líderes anteriores da alcateia estavam expostas. Ignorou os sussurros maldosos dos criados e guerreiros que a observavam de longe.
Quando chegou ao quarto principal, Selene deitou Leo imediatamente na cama grande e macia. Aconchegou o filho com cuidado, garantindo que Leo se sentisse seguro e confortável antes de se virar para encarar Kael, que a havia seguido até o quarto.
—Saia —disse Selene, seca. Ela não queria ficar a sós com aquele homem.
Kael não se mexeu. Em vez disso, fechou a pesada porta do quarto e a trancou por dentro. —Precisamos conversar, Selene. Sobre o Leo. E sobre o que realmente aconteceu cinco anos atrás.
—Não há mais nada para conversar —Selene ficou de costas para a janela, deixando o luar iluminar sua silhueta. —Naquela época, você escolheu acreditar naquelas fotos falsas. Você me jogou fora sem nem se dar ao trabalho de investigar. Você já matou a sua própria esposa, aquela que um dia te amou tanto, Kael. Agora, o homem que está na minha frente só está lidando com a mãe do filho dele. Nada mais.
Kael deu um passo à frente. Seu olhar parecia mais suave agora, tomado por um arrependimento profundo. —Eu já puni todos que ajudaram Freya a te difamar. Comecei a procurar aquelas provas depois que percebi que o seu cheiro nunca saiu deste quarto, depois que senti que a minha vida estava completamente vazia sem você.
—Guarde suas desculpas para você, Kael. Eu não preciso delas —Selene passou por Kael em direção à porta, mas o homem agarrou seu braço com rapidez.
—Me dê uma chance de consertar tudo —Kael sussurrou com a voz rouca. Ele puxou Selene para os braços, tentando aspirar o cheiro do corpo dela que assombrara seus sonhos por cinco anos.
Selene não resistiu fisicamente, mas seu corpo estava incrivelmente rígido e frio, como uma estátua. Ela não retribuiu o abraço. —Você quer consertar tudo? Então descubra quem tentou matar Leo na cidade hoje de manhã. Descubra qual traidor trabalhou com a Alcateia Blood Crest para sequestrar seu filho.
Kael a soltou e olhou para Selene com seriedade. —Como assim? Alguém está mirando nele?
—Você acha que a Alcateia Blood Crest descobriu a existência do Leo por acaso? —Selene sorriu com cinismo. —Tem um traidor dentro da sua própria alcateia, Kael. Alguém que quer desesperadamente que eu e meu filho desapareçamos para que a posição dessa pessoa aqui continue segura e incontestada.
Nesse momento, ouviram-se alvoroço e gritos do lado de fora da porta do quarto. Um guarda gritou num tom de pânico.
—Alfa! Alfa Kael! Aconteceu algo no porão! O prisioneiro da Blood Crest que acabamos de capturar... ele se suicidou depois de dizer um nome!
Kael escancarou a porta do quarto com brutalidade. —Que nome ele mencionou?
O guarda lançou a Selene um olhar assustado antes de sussurrar um nome no ouvido de Kael. Aquele nome fez o corpo de Kael congelar no mesmo instante, enquanto Selene cerrava os punhos com força.
