
O Homem que Não Existia
Luna Vasconcelos · Concluído · 13.1k Palavras
Introdução
Capítulo 1
Giulia serve café e pinta os rostos das pessoas no instante em que a máscara cai. Por isso ela devia ter desconfiado de Gabriel — o homem calado do canto, de mãos limpas demais, que aparece todo dia e faz perguntas como se as respostas importassem de verdade. O que ela não sabe é que Gabriel não existe. É o nome emprestado de um bilionário que comprou em segredo a dívida da fábrica do pai dela, e que a fotografou de longe semanas antes do primeiro café. Nada naquele encontro foi por acaso. E um laptop esquecido aberto está prestes a contar tudo.
——
Giulia Ferreira sabia reconhecer alguém que não pertencia a um lugar. Era uma habilidade que ela havia aprendido sem querer, depois de quatro anos servindo café em São Paulo, na esquina entre a faculdade de artes e o mundo real. Os clientes do Café Mandacaru tinham padrões. Os estudantes chegavam com olheiras e notebooks cobertos de adesivos. Os funcionários do escritório ao lado pediam o mesmo expresso curto todos os dias, sem olhar para o rosto de quem os atendia. As senhoras do bairro vinham aos pares, falando de netos e de novelas.
O homem do canto não era nenhum deles.
Ele chegou numa terça-feira chuvosa de abril, sacudiu a água do casaco com um gesto contido e escolheu a mesa mais distante da janela. Pediu um café coado, sem açúcar, e ficou ali por duas horas, lendo um livro de bolso com a capa dobrada para trás. Giulia reparou nas mãos dele antes de reparar em qualquer outra coisa. Eram mãos limpas demais. Mãos que nunca tinham apertado uma chave inglesa nem carregado uma caixa de peças. Ela conhecia mãos de trabalho — o pai dela tinha as palmas riscadas de cicatrizes finas, marcas de trinta anos na Ferreira Metalúrgica. Aquelas mãos no canto do café eram de outro tipo de vida.
— Mais um? — perguntou ela, parando ao lado da mesa com o bule.
Ele ergueu os olhos. Eram olhos escuros, atentos, e por um segundo Giulia teve a impressão estranha de que ele já a conhecia, de que estava esperando exatamente aquela pergunta.
— Por favor — disse ele. — O melhor café que eu tomei em meses.
Ela riu.
— É café coado. Não tem segredo nenhum.
— Talvez seja por isso que seja bom.
O nome dele era Gabriel. Ele disse isso na segunda vez que voltou, dois dias depois, estendendo a mão por cima do balcão de um jeito quase formal. Disse que era consultor, que trabalhava com pequenas empresas, que estava na cidade "por um tempo indefinido". Giulia anotou cada palavra sem perceber que estava anotando. Mais tarde ela entenderia que ele havia escolhido cada uma delas com o cuidado de quem desenha um mapa para confundir o viajante.
Mas naquela primeira semana, ela não sabia de nada. Naquela primeira semana, Gabriel era apenas um homem bonito e calado que aparecia sempre no mesmo horário, que ouvia mais do que falava, e que tinha o estranho talento de fazer perguntas sobre a vida dela como se as respostas importassem de verdade.
— E você? — perguntou ele numa tarde. — Café é só café, ou tem outra coisa?
— Pintura — respondeu Giulia, surpresa com a própria sinceridade. — Eu me formei em artes. Mas tela não paga aluguel.
— E o que você pinta?
Ela hesitou. As pessoas costumavam perguntar isso por educação, esperando uma resposta de duas palavras. Mas Gabriel a olhava como quem realmente esperava ouvir.
— Pessoas — disse ela enfim. — Mas só os rostos quando elas acham que ninguém está olhando. Quando a cara que elas mostram pro mundo cai um pouco. É aí que aparece a pessoa de verdade.
Gabriel ficou em silêncio por um momento longo. Algo passou pelo rosto dele — uma sombra rápida, quase de dor — e desapareceu antes que ela pudesse nomear.
— Deve ser desconfortável — disse ele baixinho. — Ser pintada por você.
— Por quê?
— Porque ninguém quer ser visto assim. Sem a máscara.
Giulia guardou aquela frase. Não soube explicar por quê. Talvez porque foi a primeira vez que alguém disse "máscara" perto dela, e o universo, com seu humor cruel, gostava de plantar avisos que a gente só entende depois.
Naquela noite, ela voltou para o apartamento pequeno que dividia com mais duas amigas e tentou desenhar o rosto dele de memória. Não conseguiu. Havia algo no rosto de Gabriel que escapava do papel, uma parte que ela não conseguia fixar, como se o homem que ela tinha conhecido fosse feito de duas camadas e ela só tivesse acesso à de cima.
Ela rasgou três folhas antes de desistir.
O que Giulia não sabia — o que ela não tinha como saber — era que, naquele exato momento, num andar alto de um prédio de vidro a quinze quilômetros dali, um homem chamado Heitor Barros olhava pela janela para as luzes da cidade e pensava nela. Não pensava em Gabriel, porque Gabriel não existia. Gabriel era uma roupa que ele vestia para descer ao térreo do mundo, um nome emprestado, um rosto sem sobrenome. Heitor Barros tinha um sobrenome que aparecia em jornais de economia, em relatórios trimestrais, em listas de homens que compravam e vendiam empresas inteiras como quem troca de carro.
E uma dessas empresas, naquele momento, era a Ferreira Metalúrgica.
Heitor segurava nas mãos uma pasta. Dentro dela havia documentos que Giulia jamais imaginaria existir. Havia o nome do pai dela. Havia números que descreviam a ruína iminente de tudo que Roberto Ferreira tinha construído. E havia, no fundo da pasta, uma fotografia de uma jovem de cabelos castanhos servindo café — uma foto tirada de longe, sem que ela soubesse, semanas antes de Gabriel pisar pela primeira vez no Café Mandacaru.
Nada naquele encontro tinha sido por acaso.
Heitor sabia disso. Giulia, não.
Era assim que a história começava: com um homem que conhecia todas as respostas e uma mulher que ainda nem sabia quais perguntas fazer. A distância entre os dois não era de quinze quilômetros. Era de uma verdade inteira. E essa verdade, como toda verdade enterrada com cuidado, tinha pressa de vir à tona.
Giulia adormeceu pensando no rosto que não conseguia desenhar. Heitor ficou acordado, olhando a fotografia dela, perguntando-se até quando conseguiria sustentar a mentira — e por quê, pela primeira vez em muitos anos, ele desejava que aquela mentira fosse verdade.
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