Capítulo 1 O Despertar

O primeiro som foi o bip lento e ritmado de um monitor. Depois veio o cheiro de antisséptico, forte e limpo, envolvendo o ar num frio estéril. Elena tentou se mexer, mas o corpo se recusou; os membros estavam pesados, sem resposta. O esforço a fez perceber a dorzinha surda nos ossos, o puxão de tubos contra a pele e o pulso constante de alguma coisa mecânica marcando o tempo ao lado dela.

Ela abriu os olhos para uma luz branca e formas borradas. O mundo entrava e saía de foco, como se ela estivesse debaixo d’água. Por um instante, achou que talvez ainda estivesse sonhando. O quarto parecia irreal, o brilho exato demais, o silêncio completo demais. Então uma voz atravessou a névoa.

—Elena?

O olhar dela se deslocou na direção do som. Um homem estava sentado ao lado da cama, inclinado para a frente, o rosto tenso com uma mistura estranha de medo e alívio. Estava bem-vestido, camisa impecável, postura controlada. Mesmo ali, naquele lugar que cheirava a doença e incerteza, ele parecia composto. Havia uma precisão silenciosa no jeito como se movia, como a mão pairou sobre a dela antes de pousar. Tudo nele sugeria o tipo de homem que esperava que o mundo lhe obedecesse.

Ela o encarou, tentando reconhecer aquele rosto. Nada vinha. A garganta pareceu arranhada em carne viva quando ela finalmente falou.

—Quem é você?

A pergunta rachou o ar entre os dois. Por um segundo, algo na expressão dele vacilou. O sorriso, quando veio, foi cuidadoso, como vidro colocado perto demais da borda de uma mesa.

—Eu sou Adrian —disse, baixo. —Seu marido.

A palavra a atingiu como uma pedra jogada em água parada. Marido. Não encaixava em lugar nenhum na mente dela. Os lábios se entreabriram, mas a voz saiu pequena.

—Meu marido —ela repetiu, com sílabas estranhas.

Ele assentiu e pegou a mão dela. O toque era quente, firme, reconfortante na própria constância.

—Você sofreu um acidente —disse. —Os médicos falaram que você pode ficar desorientada por um tempo, mas agora você está segura. Está comigo.

Segura. A palavra se agarrou aos pensamentos dela, instável e frágil. Ela queria acreditar, mas alguma coisa dentro dela recuou. A sensação era tênue, como um sussurro no fundo da mente, mas estava lá. Os dedos se contraíram na mão dele, o recuo instintivo de um corpo que não tinha certeza do que confiar.

—Há quanto tempo eu estou aqui? —ela perguntou.

—Três semanas —ele respondeu. —Você ficou em coma por dez dias. Eles não tinham certeza de que você ia acordar.

O tom dele era uniforme, medido, mas os olhos traíam um lampejo de tensão. Ele a observava de perto demais, como se tentasse medir o que ela lembrava.

Elena tentou se sentar, mas uma dor queimou atrás dos olhos. O ar lhe faltou. Adrian foi rápido em pressionar uma mão no ombro dela.

—Devagar —murmurou. —Você vai lembrar das coisas aos poucos. Não force.

—Eu não me lembro de nada —ela sussurrou.

—Isso é normal —ele respondeu depressa. —Os médicos disseram que sua memória deve voltar gradualmente. Explicaram que um trauma pode nublar as lembranças, mas geralmente elas retornam em fragmentos.

Ele falava com uma calma treinada; as palavras eram suaves, quase ensaiadas. Talvez aquilo a acalmasse, não fosse pela leve aspereza sob a superfície, como se cada garantia tivesse sido pesada e escolhida com antecedência.

A porta se abriu sem ruído, e uma enfermeira entrou, sua presença um contraste gentil com a dele. Ela sorriu para Elena, ajustou a linha do soro e conferiu os monitores.

—Os sinais vitais estão estáveis —disse. —Isso é um bom sinal.

O tom era leve, mas os olhos dela deslizaram por um instante até Adrian e voltaram para Elena, antes de ela se virar de novo. Havia algo indecifrável naquele olhar. Quando a enfermeira saiu, o silêncio voltou, pesado e estéril.

Elena encarou o teto. A mente parecia enevoada, cheia de ecos. Então, como clarões fracos de relâmpago por trás das nuvens, fragmentos começaram a emergir: faróis cortando a chuva, o guincho de pneus, um grito engolido pela escuridão, o gosto metálico de sangue. Ela fez uma careta quando as imagens se chocaram, deixando para trás uma pulsação de dor.

Adrian percebeu na hora.

—Dor de cabeça? —perguntou.

—Só... barulho —ela murmurou, fechando os olhos.

Ele ajeitou o cobertor sobre os ombros dela com uma precisão cuidadosa, dobrando as pontas como se quisesse ancorá-la no lugar.

—Tente descansar —disse. —Eu vou cuidar de tudo.

Tudo. A palavra ficou presa nos pensamentos dela. Ela quis perguntar o que aquilo significava, mas a voz já tinha virado um fio. O cansaço veio por cima como uma maré. O quarto voltou a borrar, as bordas se amolecendo até virar sono. Antes de afundar de vez, ela ouviu a voz dele, baixa e quase terna:

—Desta vez, a gente vai recomeçar.

Quando ela abriu os olhos de novo, a luz tinha mudado. O quarto estava sombrio, tingido de tons de cinza do entardecer. Adrian estava sentado no canto, com um laptop aberto sobre os joelhos. O brilho suave da tela iluminava seu rosto, delineando os ângulos marcados do maxilar. Os dedos dele se moviam pelas teclas com precisão mecânica. Por um longo momento, ela apenas o observou. Havia um foco nos movimentos dele que a inquietava. Ele parecia composto demais, certo demais.

Ele percebeu o olhar dela e ergueu a cabeça. Seus olhos suavizaram quando fechou o laptop. “Ei”, disse ele, levantando-se. “Como você está se sentindo?”

“Como se minha cabeça não fosse minha.”

“Isso é normal”, ele disse. “Você vai se sentir melhor quando estivermos em casa. Tudo vai fazer sentido de novo.”

Ela franziu a testa. “Em casa?”

“Na nossa casa”, ele disse. “A cobertura. Mandei limpar e preparar para a sua volta.”

O jeito como ele disse aquilo soou definitivo. Não como uma sugestão, nem sequer como consolo, mas como uma decisão já tomada.

O olhar dela desceu para a mão esquerda dele. A aliança de ouro captou a luz fraca, brilhando de leve. Ela levantou a própria mão e encontrou sua gêmea. O anel parecia estranho, um peso que pertencia a outra pessoa. Ela o girou um pouco, o metal frio contra a pele.

“Quando eu posso ir embora?”, ela perguntou.

“Amanhã de manhã”, disse Adrian. “Os médicos querem mais uma rodada de exames, mas já liberaram a maior parte do seu prontuário. Eu já providenciei o transporte.”

Ela hesitou. “Você parece saber de tudo antes de me contarem.”

Ele sorriu de leve, como se achasse graça. “É meu trabalho me manter informado. Eu estive aqui todos os dias.”

Ela não se lembrava de tê-lo visto antes de hoje, mas discutir parecia inútil. Ele se inclinou, o rosto perto o bastante para ela sentir o rastro discreto de colônia. Quando os lábios dele roçaram a testa dela, ela ficou imóvel, presa entre a educação e o pavor. O contato fez o peito dela apertar. Ela não sabia se era medo, culpa ou alguma coisa sem nome que não a deixava respirar direito.

Quando ele se afastou, parecia satisfeito, quase aliviado. “Tente dormir um pouco”, ele disse. “Você vai precisar de forças.”

Ele diminuiu a luz e então saiu para o corredor, deixando-a na penumbra. O som da porta se fechando foi suave, mas carregava um ponto final. Ela voltou a encarar o teto, ouvindo o zumbido das máquinas. O bip do monitor marcava cada segundo, paciente e indiferente.

Sozinha, os pensamentos dela começaram a se desfazer. Ela percorreu com os dedos as cicatrizes tênues ao longo do braço, seguindo-as como trilhas para algum lugar a que não conseguia chegar. Perguntou-se que tipo de acidente poderia apagar uma vida com tanta completude. A mente buscou lembranças e encontrou apenas sombras.

Os olhos dela deslizaram até a mesinha ao lado da cama. Alguém tinha deixado um vaso de lírios brancos. O cheiro era doce, mas forte demais, quase enjoativo. Um cartão estava encostado no vaso, com o nome dela escrito em letra cursiva, cheia de voltas. Para minha esposa, meu coração, meu lar. A caligrafia era caprichada, deliberada. Ela a estudou, procurando qualquer faísca de reconhecimento, mas não veio nada.

Quando a enfermeira voltou mais tarde com a medicação, Elena perguntou baixinho: “Há quanto tempo ele está aqui?”

“O senhor Cross?”, disse a enfermeira, surpresa. “Desde o dia em que você deu entrada. Ele mal sai do seu lado.”

Elena assentiu. “Ele parece muito... cuidadoso.”

A enfermeira soltou uma risadinha curta que não chegou aos olhos. “Sim. Muito cuidadoso.” Então ajustou o soro e foi embora, os passos sumindo pelo corredor.

Naquela noite, Elena não conseguiu dormir. Toda vez que fechava os olhos, os flashes voltavam — chuva, faróis, vidro. Em algum lugar dentro daqueles fragmentos havia um grito, e ela não tinha certeza se era dela. Ela pressionou uma mão contra a testa, tentando juntar a forma do que tinha perdido.

A luz da lua atravessava as persianas, desenhando linhas pálidas sobre a cama. Por um instante, ela achou que viu movimento perto da porta. A respiração prendeu. A luz do corredor piscou por um breve momento e depois se estabilizou. A maçaneta não se mexeu, mas a sensação de estar sendo observada permaneceu, aguda e silenciosa.

Ela tentou dizer a si mesma que era o remédio, a névoa do cansaço. Ainda assim, o pulso acelerou. Os olhos dela foram para a cadeira onde Adrian tinha se sentado mais cedo. Agora estava vazia, mas o rastro da presença dele permanecia — a marca na almofada, o calor fraco que ainda não tinha se dissipado.

No silêncio, um pensamento se agitou de novo, mais forte desta vez, não mais um sussurro, mas um aviso.

Tem alguma coisa errada com ele.

Ela virou a cabeça na direção da porta escurecida, onde uma fresta tênue de luz do corredor cortava as sombras. O som de passos se aproximou, lento e medido, parando bem do lado de fora do quarto.

Então a maçaneta girou.

A luz do lado de fora se apagou.

E o quarto ficou completamente silencioso.

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