Capítulo 3 Sussurros no escuro
Na primeira noite em que dormiu sozinha, o silêncio foi insuportável.
Adrian saíra cedo para uma reunião no exterior, a voz calma e tranquilizadora ao dizer que ficaria fora só por alguns dias. A ausência dele deveria ter trazido alívio, mas a cobertura parecia mais pesada sem ele ali. As paredes pareciam escutar.
Elena ficou à janela muito depois do pôr do sol, a cidade se estendendo abaixo dela como um mapa vivo. Os carros se moviam como vaga-lumes pelas ruas, num vai e vem hipnótico. O ar vibrava de leve através do vidro entreaberto, roçando sua pele com um sopro frio. Era tranquilo, mas daquele tipo de tranquilidade que não dura.
Quando enfim se deitou, o cansaço veio depressa. O sono se arrastou sobre ela como neblina, e o som da chuva a acompanhou para dentro dele.
Então veio o clarão.
Faróis.
Uma estrada escorregadia de água.
A voz de um homem gritando o nome dela.
—Elena!
Os olhos dela se abriram num estalo. A escuridão a envolvia, mas o pulso trovejava. Por um segundo, ela ainda conseguia sentir o cheiro de asfalto molhado e fumaça. Pressionou uma mão trêmula contra o peito, tentando controlar a respiração. Só um sonho, disse a si mesma. Só um sonho.
Ainda assim, havia algo naquela voz — não tinha sido a de Adrian.
Ela acendeu o abajur, a luz quente se espalhando pelos lençóis. O quarto voltou a parecer comum, comum demais. Seu reflexo no espelho do outro lado do cômodo estava pálido, quase fantasmagórico. Por um longo momento, ela apenas se observou respirar, como se confirmasse que era real.
A porta rangeu baixinho. Elena congelou.
—Marta? —chamou.
Nenhuma resposta. Só o som do vento batendo de leve na janela. Ela engoliu em seco e saiu da cama, os pés descalços afundando no tapete. Cada sombra na cobertura parecia mais funda à noite. A luz do corredor piscou quando ela a acendeu, depois se firmou.
Ela conferiu a cozinha. Vazia. O cheiro fraco de café ainda pairava de mais cedo. Elena soltou uma risada trêmula e esfregou as têmporas.
—Você está bem —sussurrou. —Só está cansada.
Mesmo assim, deixou a luz acesa quando voltou para a cama.
De manhã, ela se sentia esgotada. Marta entrou com o café da manhã, colocando a bandeja com cuidado na mesinha ao lado.
—A senhora não dormiu? —perguntou a mulher, olhando o rosto cansado dela.
—Pesadelos —disse Elena, forçando um sorriso. —Estão piorando.
As sobrancelhas de Marta se franziram.
—Isso acontece depois de um trauma. A mente tenta juntar as peças de novo.
Elena pegou a xícara de chá, mas não bebeu.
—Você trabalha para nós há bastante tempo, não é?
—Quase três anos.
—Então você deve ter me conhecido bem —disse Elena, baixinho. —Antes.
Marta hesitou.
—A senhora era gentil —disse por fim. —Diferente do senhor Cross.
—Em que sentido?
—A senhora sorria mais —disse Marta, com um leve sorriso também. —Mas também trabalhava demais. Pintava naquele cômodo perto da varanda. Dizia que isso ajudava a pensar.
Elena piscou.
—Eu pinto?
—Pintava —corrigiu Marta, baixando os olhos. —Parou antes do acidente.
—Por quê?
Marta abriu a boca, depois a fechou.
—Não sei, senhora. Talvez tenha ficado ocupada.
A resposta soou ensaiada. Elena deixou passar, embora aquilo ficasse preso no peito. Quando Marta saiu, ela foi em direção à varanda, seguindo a lembrança como um cheiro.
O pequeno ateliê ficava escondido atrás de portas de vidro. No instante em que entrou, um cheiro fraco de tinta velha e terebintina a atingiu. Poeira cobria o cavalete no canto. A tela apoiada nele estava inacabada — o rosto meio desenhado de um homem, os traços esboçados com pinceladas seguras. Só os olhos faltavam, deixados em branco.
O estômago dela se contraiu. Elena estendeu a mão e tocou a borda da tela. As linhas pareciam familiares, mas distantes, como algo que ela tivesse aprendido em outra vida.
—Quem era você? —sussurrou.
Atrás dela, um telefone tocou, agudo e repentino. Ela se sobressaltou, o coração disparando, e correu para o quarto, onde o telefone de Adrian vibrava no criado-mudo. No identificador de chamadas, lia-se: Julian Cross.
O pulso dela acelerou de novo. Ela se lembrava do nome. O irmão de Adrian.
Hesitou, então atendeu.
—Elena? —A voz era calorosa, surpresa. —Eu não esperava que você atendesse.
—Julian? —disse ela, baixinho.
Houve uma pausa, depois uma risada baixa.
—Então você lembra de mim?
—Não exatamente —admitiu. —Mas seu nome parece familiar.
—Fico feliz. Adrian disse que você estava se recuperando. Eu queria passar aí para ver você, mas ele disse que não era um bom momento.
As sobrancelhas dela se juntaram.
—Ele disse isso?
—Disse. Achou que poderia te sobrecarregar. —A voz de Julian suavizou. —Mas fico feliz em ouvir sua voz. Você parece mais forte.
Elena hesitou.
—Seria estranho se eu dissesse que gostaria de te ver?
Ele ficou em silêncio por um instante.
—Nada estranho. Vou ter cuidado. Prometo não trazer perguntas demais.
Algo afrouxou no peito dela.
—Amanhã, talvez?
— Amanhã — ele concordou, a voz baixa e segura. — Não conte ao Adrian ainda. Vou surpreender ele.
A ligação caiu. Ela ficou ali mais um instante, o celular ainda colado à orelha, sem saber se tinha acabado de cometer um erro.
Naquela noite, a chuva voltou.
Ela se sentou na sala com um livro no colo no qual não conseguia se concentrar. As luzes da cidade filtravam-se pelas janelas altas, banhando o ambiente em prata e sombra. Sua mente voltou ao sonho, ao som da voz de um homem gritando o nome dela. Não era a voz de um estranho. Estava carregada de algo feroz — medo ou amor, ela não sabia dizer.
Quando a porta da frente se abriu com um clique, ela se sobressaltou. Adrian entrou, a chuva ainda grudada ao casaco. O sorriso dele apareceu rápido, preciso como sempre.
— Você está acordada — disse, largando as chaves. — Achei que já estaria dormindo a essa hora.
— Eu não consegui. — O tom dela saiu mais ríspido do que pretendia.
Ele a observou. — Pesadelos de novo?
— Sim. — Ela fechou o livro. — Eu fico ouvindo alguém me chamar.
— Provavelmente um fragmento de sonho — ele disse com facilidade, tirando o casaco. — Sua mente está procurando uma conexão.
— Talvez — ela disse. — Mas pareceu real.
Ele se aproximou e beijou o cabelo dela. — Tudo vai se acalmar logo. Só dê tempo ao tempo.
Ela queria acreditar, mas o leve cheiro de outro perfume na gola dele fez o peito dela apertar. Não era o dela.
Na tarde seguinte, Julian chegou.
Ele entrou com um sorriso fácil, um buquê de tulipas brancas na mão. Os olhos dele eram de um tom mais claro que os de Adrian, e o jeito, mais suave, sem pressa. — Você está melhor do que o Adrian fez parecer — ele disse.
— Fez? — ela perguntou, pegando as flores. — Ele faz tudo parecer administrável.
Julian soltou uma risadinha. — Essa é a especialidade dele.
Eles se sentaram na sala. O ar entre os dois parecia estranhamente confortável, como se já tivessem tido cem conversas antes daquela. Ele perguntou sobre a recuperação dela, a terapia, o sono. Quando ela mencionou os pesadelos, a expressão dele ficou pensativa.
— O que você vê? — ele perguntou com delicadeza.
— Luzes. Chuva. Uma voz me chamando.
Ele inclinou a cabeça. — Uma voz de homem?
Ela assentiu devagar.
Julian ficou em silêncio por um momento e então disse: — Sabe, você falava muito sobre sonhos. Dizia que eram janelas para as partes de nós que escondemos.
Aquelas palavras mexeram com algo profundo dentro dela. — Eu dizia isso mesmo?
— Dizia. — Ele sorriu de leve. — Você era a única que conseguia fazer o Adrian rir. Você vivia provocando ele por ser sério demais.
Ela franziu a testa. — Isso não parece comigo.
— Era — Julian disse. — Antes de tudo mudar.
— Antes do quê? — ela perguntou, quase com medo da resposta.
Ele hesitou. — Antes do acidente — disse por fim, a voz baixa. — Antes de o Adrian ficar... diferente.
Um som atrás deles fez os dois se virarem. Adrian estava parado na porta, a expressão calma, mas os olhos afiados. — Eu não sabia que você estava de visita — disse, num tom leve.
Julian sorriu. — Achei que ia te surpreender.
— Surpreendeu — Adrian respondeu, aproximando-se. — A Elena precisa descansar.
— Eu estou bem — ela disse depressa, mas a mão de Adrian já tinha encontrado o ombro dela, gentil e firme ao mesmo tempo.
— Vamos evitar te cansar — ele disse. — Você ainda está se recuperando.
Julian observou a troca, algo indecifrável passando pelo olhar dele. — Eu volto — disse por fim. — Se estiver tudo bem.
Elena assentiu, embora sentisse o aperto de Adrian aumentar um pouco antes de ele soltar.
Depois que Julian foi embora, Adrian não falou por um bom tempo. Ele se serviu de uma bebida, o gelo tilintando baixo. Ela ficou sentada no sofá, o silêncio entre os dois espesso.
— Você não me disse que ele vinha — ele disse por fim.
— Eu não achei que importasse.
— Importa — ele disse, o tom brando, mas com uma ponta cortante. — Você precisa de calma, não de confusão.
— Ele disse que a gente costumava rir junto — ela disse, baixinho. — Que eu fazia você rir.
A expressão de Adrian suavizou. — Fazia. E ainda faz.
— Mas ele disse que você mudou.
Ele pousou o copo. — As pessoas mudam quando quase perdem alguém que amam.
Ela olhou para ele, procurando a verdade. — Você quase me perdeu... ou perdeu outra coisa?
O maxilar dele se contraiu. — Eu perdi a paz — ele disse, simplesmente. — Agora estou tentando mantê-la.
Ele se levantou e foi em direção à varanda. — Descanse um pouco, Elena. Você vai se sentir melhor de manhã.
Mas naquela noite, ela não dormiu. O vento uivava contra as janelas e, toda vez que fechava os olhos, via lampejos — água no vidro, uma mão estendendo-se para a dela, uma voz gritando o nome dela.
Quando finalmente se levantou da cama e foi até a varanda, as luzes da cidade cintilavam como estrelas distantes. No reflexo do vidro, ela achou que viu uma figura parada atrás dela, fora de alcance. Ela se virou depressa, mas não havia ninguém.
Ainda assim, o coração dela sussurrou um nome que ela não conseguia lembrar por completo.
E, naquele instante, ela soube que os sonhos não eram apenas sonhos.
Eram memórias, esperando para despertar.
