Capítulo 4 O álbum de fotos

A luz da manhã se derramava na cobertura como água silenciosa, deslizando sobre o mármore e o vidro. Ela se prendia às bordas das molduras e deixava o ar macio, como se o próprio mundo estivesse prendendo a respiração.

Elena atravessou a sala de estar de roupão, os passos leves, mas incertos. A noite anterior tinha sido inquieta de novo, cheia de fragmentos que ela não conseguia juntar. Havia vozes nos sonhos — reais demais para serem invenção, fracas demais para ela se lembrar. Quando acordou, a garganta estava seca, o travesseiro úmido de suor.

Adrian já tinha saído. O lado dele na cama estava liso, com o cheiro suave da colônia ainda grudado nos lençóis. Ele sempre deixava bilhetes quando viajava: letra caprichada, formal, mas carinhosa. Comporte-se. Não force a mente. Eu ligo antes do meio-dia. Ela dobrou o bilhete com cuidado e o enfiou na gaveta junto dos outros.

A cobertura era perfeita demais, arrumada demais. Cada objeto parecia colocado para exibição, não para uso. Ainda assim, havia conforto naquela ordem — uma ilusão de que ela precisava.

Ela foi atrás de alguma distração e a encontrou na estante alta ao lado do piano. Atrás da fileira de livros de viagem e álbuns de arquitetura, havia um álbum de fotos grosso, encadernado em couro. A superfície estava lisa de tanto manuseio, mas uma camada fina de poeira se acumulava nas bordas, como se ninguém o tocasse havia meses.

Elena hesitou. Então a curiosidade venceu.

Ela o levou até o sofá e abriu com cuidado, a lombada rangendo de leve. A primeira foto era dela e de Adrian — noiva e noivo, emoldurados por um jardim transbordando de rosas brancas. A cena era linda. O vestido dela cintilava, o terno dele caía perfeitamente, e ainda assim a imagem não se encaixava direito. Ela encarou os rostos dos dois.

O sorriso dela era largo, mas os olhos pareciam tensos, como se estivesse tentando se convencer de alguma coisa. A mão de Adrian repousava na cintura dela, suave, porém firme, a expressão indecifrável.

Um frio discreto atravessou Elena.

Página após página revelava mais da vida dos dois: jantares, eventos, feriados no exterior. As cores ficavam mais vivas, os sorrisos mais ensaiados. Em todas as fotos, Adrian estava perto, protetor, mas nunca totalmente relaxado. E ela — ela sempre parecia se inclinar na direção dele, em vez de estar com ele.

Ela passou os dedos pela superfície brilhante de uma fotografia, sentindo as ranhuras sutis onde a luz encontrava a sombra. “Eu era feliz?”, sussurrou.

A sala respondeu com silêncio.

Em uma página, ela encontrou uma foto tirada em ambiente fechado. Um pequeno estúdio, as mãos dela manchadas de tinta, o cabelo preso num coque frouxo. Ela sorria para a câmera, meio rindo, as bochechas coradas. Atrás dela havia uma tela — algo abstrato, mas cheio de luz. Adrian não estava naquela foto.

O calor que se espalhou no peito dela a assustou. Era a primeira vez que ela se via sem ele. Mais livre, de algum jeito. Real.

Ela virou a página, e algo se soltou entre as folhas — uma Polaroid pequena, com as bordas amassadas. Ela flutuou até o chão.

Elena a pegou.

Aquela não era do álbum do casamento. Era mais antiga, ou talvez só mais gasta. Nela, Elena estava sentada à beira de um lago, rindo para alguém logo fora do enquadramento. O cabelo estava mais comprido, e a luz do sol batia de um jeito que o deixava quase dourado. Ela olhava para alguém com afeto aberto, sem defesas, inteiramente ela mesma.

A respiração dela travou.

Ela virou a foto. Sem data, sem mensagem. Só uma mancha fraca de alguma coisa — café, talvez — no verso.

A mente dela tentou alcançar aquele momento, mas a lembrança veio em estilhaços. Uma voz, baixa e divertida. O cheiro de chuva sobre a água. A própria risada dela, clara e sem freios. E então, nada. Quanto mais ela tentava, mais aquilo se afastava.

A mão dela começou a tremer. Ela apertou a foto contra o peito e fechou os olhos, procurando o calor que preenchia aquele quadro. Por um instante, ela quase conseguiu ouvir — uma risada baixa, que não era a de Adrian, de outra pessoa — e então escapou.

Quando abriu os olhos de novo, o pulso estava disparado.

Marta surgiu em silêncio no corredor, carregando uma bandeja de chá. “Você encontrou o álbum”, ela disse, pousando a bandeja na mesa.

Elena assentiu. “Sim. É estranho olhar para si mesma e não reconhecer quem você era.”

Marta hesitou. “Às vezes a memória esconde coisas para nos proteger.”

“Ou alguém esconde”, murmurou Elena, e então se arrependeu de ter dito aquilo em voz alta.

Os olhos da governanta desviaram para ela, cautelosos. “A senhora quer que eu traga o café da manhã?”

“Não”, disse Elena depressa. “Só chá.”

Quando Marta saiu, ela voltou a encarar a Polaroid. Ela não pertencia ali, e ainda assim alguém a tinha enfiado dentro daquele álbum como se quisesse preservá-la. A ideia a deixou inquieta.

Ela levou o álbum até o piano e o pousou ali, depois ergueu a tampa. Os dedos pairaram sobre as teclas. Música sempre a intimidara — Adrian disse que ela costumava tocar, mas agora as teclas pareciam estranhas. Ela apertou uma, depois outra, cada nota suave e trêmula.

O som encheu o cômodo, frágil, mas vivo.

Depois de alguns minutos, ela parou e encostou a testa no piano. Uma única lágrima escorreu, prendendo-se à superfície polida. Ela deixou cair, depois enxugou os olhos.

Mais tarde, naquela tarde, tentou ligar para Adrian. A chamada caiu na caixa postal.

“Oi”, disse ela baixinho depois do bip. “Hoje eu encontrei nosso álbum de casamento. Ele é lindo.” A voz falhou. “Eu queria lembrar mais daquele dia.”

Ela desligou antes que a dor pudesse piorar.

O céu ficou cinzento ao entardecer, a luz diminuindo até as luzes da cidade começarem a piscar, despertando. Ela preparou uma xícara de chá e se sentou perto da janela, com o álbum de fotos aberto ao lado. A Polaroid estava sobre a mesa, as bordas ligeiramente enroladas.

Ela estudou as fotos do casamento outra vez, procurando sinais de afeto que talvez tivesse deixado passar. Talvez estivesse errada. Talvez a câmera só tivesse pegado ângulos ruins. Talvez a distância que sentia fosse apenas a maneira de sua mente preencher lacunas.

Mas quanto mais olhava, menos certa ficava.

Seu olhar voltou à primeira foto — aquela em que o sorriso não chegava aos olhos. O buquê que ela segurava era de rosas brancas. Ela pegou uma do vaso ao lado, agora. Mesma espécie, mesmo perfume, e ainda assim mais pesada, de algum jeito.

Pensou no riso da Polaroid, leve e despreocupado. Aquela versão de si mesma parecia uma estranha, mas uma estranha que ela queria reencontrar.

O relógio tic-tacava baixinho. Ela contornou com o dedo o formato do próprio rosto em uma das fotos, depois deixou a mão cair.

Bateram à porta. Ela se assustou de leve e então relaxou quando Marta entrou de novo.

“Senhora Cross, chegou uma entrega para a senhora”, disse. “Do escritório do senhor Cross.”

“Obrigada”, respondeu Elena, embora o tom não tivesse calor algum.

Marta colocou o pacote sobre a mesa. Dentro havia uma caixinha amarrada com uma fita dourada. Um bilhete estava por cima. Para os dias silenciosos. – A.

Elena desamarrou a fita. Dentro havia uma pulseira de berloques de prata. Ela cintilava de leve à luz do abajur, delicada e elegante. Cada berloque era um símbolo minúsculo — um coração, uma chave, uma estrela.

Ela a colocou no pulso. Era linda, mas parecia estranha, como se pertencesse a outra pessoa.

Então o celular vibrou. O nome de Adrian iluminou a tela. Ela atendeu rápido.

“Você recebeu?” perguntou a voz dele, suave, controlada.

“Recebi”, disse ela. “É linda.”

“Pensei que pudesse levantar seu astral.”

“Levantou”, ela mentiu.

Ele fez uma pausa. “Você parece cansada.”

“Só pensando.”

“Tente não pensar”, disse ele com gentileza. “Deixe o passado quieto até você estar pronta.”

As palavras ficaram ecoando muito depois de a ligação terminar.

Ela ficou sentada na penumbra, a pulseira captando reflexos fracos da cidade lá embaixo. O álbum de fotos continuava aberto, as páginas estendidas como asas.

Por fim, ela se levantou, fechou-o e o devolveu à prateleira. Mas a Polaroid ela guardou. Enfiou-a na gaveta ao lado da cama, sob a pilha organizada de bilhetes de Adrian.

Naquela noite, quando se deitou, sonhou de novo — ondulações suaves de água, luz do sol, risos. Uma voz chamando seu nome, mas não com urgência. Com carinho.

Quando acordou, a luz da manhã era delicada e, por um instante, ela sorriu sem pensar. A sensação se desfez rápido, deixando para trás uma dor quieta, mas ela não a espantou.

Era o primeiro vestígio de algo que parecia verdadeiramente dela.

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