Capítulo 5 As boas-vindas do irmão
A chuva tinha parado no meio da tarde, deixando nas paredes de vidro rastros prateados que captavam a luz. Elena estava encolhida na ponta do sofá, com uma manta sobre as pernas, folheando a mesma revista que fingia ler havia uma hora. A cobertura parecia maior quando Adrian não estava, preenchida apenas pelo zumbido das saídas de ar e pelo sussurro ocasional da cidade lá embaixo.
Ela achou que o silêncio poderia trazer conforto, mas, em vez disso, ele a oprimia, lembrando-a do quão pouco ela se lembrava. Cada canto do cômodo parecia familiar na forma, mas estranho na sensação, como se ela estivesse invadindo a vida de outra pessoa.
A campainha tocou.
Por um instante, ela não se mexeu. Adrian não tinha mencionado ninguém vindo. Quando finalmente se levantou e abriu a porta, encontrou Julian parado ali, um sorriso discreto puxando o canto da boca e um buquê de lírios brancos na mão.
—Elena —disse ele, baixo, quase como se estivesse testando o nome dela. —Espero que não seja uma hora ruim.
—Tudo bem. —A voz saiu menor do que ela pretendia. —O Adrian não está.
—Eu sei —ele disse. —Eu só queria ver como você está.
Ele entrou sem esperar, e a presença dele alterou o ar de imediato. Parecia com o irmão, mas mais suave, menos na defensiva. O paletó estava desabotoado, e a gravata, afrouxada, como se ele tivesse deixado a formalidade do dia do lado de fora. Os olhos, porém, guardavam algo mais afiado, uma consciência silenciosa que enxergava mais do que ele dizia.
Elena fez um gesto em direção à sala. —Eu estava só... aqui.
Ele sorriu, colocando as flores sobre a mesa. —Você soa exatamente como eu quando não tenho nada pra fazer.
Ela se pegou rindo, breve, mas de verdade. Era estranho como aquilo escapava com tanta facilidade. Com Adrian, o riso parecia um teste no qual ela nunca passava.
Julian caminhou até a janela, as mãos nos bolsos, observando a névoa fina subir das ruas lá embaixo. —Eu esqueço como este lugar é alto. Dá pra pensar que daqui você conseguiria ver o mundo inteiro.
—Não parece isso —ela disse, baixinho. —Parece mais que eu estou do lado de fora dele.
Ele se virou, estudando o rosto dela. —Você já lembra muita coisa?
—Pedaços —ela disse, balançando a cabeça. —Não fazem sentido. Algumas noites eu sonho coisas que parecem reais, e outras eu acordo sem saber onde estou.
Ele assentiu, com o olhar firme. —Deve ser difícil.
—É como viver a vida de outra pessoa. —Ela hesitou, procurando algo na expressão dele. —Você me conhecia antes, não conhecia?
O sorriso dele vacilou por um instante. —Claro. A gente se conhece há anos.
—Mas a gente não era próximo?
Julian inclinou levemente a cabeça, como se escolhesse as palavras. —Você era... diferente naquela época. Focada. Você não deixava as pessoas se aproximarem com facilidade.
As palavras doeram, mesmo que ele não tivesse a intenção. —E o Adrian?
Ele desviou o olhar, para o horizonte encharcado de chuva. —O Adrian sempre consegue o que quer.
O silêncio se alongou. O zumbido da geladeira ocupou o espaço entre eles, estranhamente alto. Elena tentou se lembrar do homem que ela supostamente amara o bastante para se casar. Conseguia visualizar o rosto dele com clareza, conseguia até lembrar o perfume, mas as emoções ligadas àquelas memórias se recusavam a voltar. Era como olhar para um quadro que ela um dia amou, agora atrás de um vidro que ela não conseguia tocar.
—Você quer um chá? —ela perguntou por fim.
—Quero —disse Julian. —Se você for fazer um pra você.
Na cozinha, ela se moveu no automático, enchendo a chaleira e colocando xícaras sobre a bancada. Ela sentia o olhar dele sobre si, gentil, mas atento, como se ele estivesse estudando uma obra de arte da qual não confiava na própria lembrança. Quando a água ferveu, ela serviu e deslizou uma xícara na direção dele.
— Obrigado — ele disse. — Ainda do mesmo jeito que você fazia.
Ela paralisou. — Como você sabe disso?
Ele sorriu de leve. — Você fez chá para mim uma vez. Anos atrás. Não se lembra?
Ela balançou a cabeça. — Eu não me lembro de quase nada.
Julian tomou um gole do chá, observando-a por cima da borda da xícara. — Talvez isso seja uma bênção.
Ela franziu a testa. — Por que você diria isso?
Ele pousou a xícara com cuidado. — Porque às vezes lembrar não melhora as coisas.
Havia algo no tom dele que fez o peito dela apertar. — Julian — ela disse devagar — eu era feliz antes do acidente?
A expressão dele se suavizou. — Você teve momentos.
Aquilo não era uma resposta, e ela sabia. Queria perguntar mais, mas a garganta doía. O som da chuva lá fora tinha desaparecido por completo, substituído pelo silêncio abafado das nuvens passando além das janelas. Ela queria dizer a ele que o silêncio a assustava, mas aquilo parecia infantil, então guardou para si.
Julian se recostou no sofá, parecendo confortável de um jeito que Adrian nunca parecia. Ele pegou o álbum de fotos na mesa de centro e o abriu, folheando. As páginas brilhantes captaram a luz, mostrando imagens de uma noiva e um noivo sorridentes em poses elegantes.
— Você estava linda — ele disse, baixinho.
Ela se inclinou mais, os dedos acompanhando a curva do próprio sorriso congelado. — Eu pareço feliz?
Ele hesitou. — Você parece... serena.
A palavra soou fria. Ela virou outra página. Em uma foto, ela estava rindo, a cabeça levemente inclinada para trás; Adrian ao lado, a expressão indecifrável.
O olhar de Julian demorou na imagem mais do que o necessário. Então ele fechou o álbum com delicadeza e o pousou. — Você não deveria forçar as lembranças — ele disse. — Elas vão vir quando estiverem prontas.
— Elas parecem fantasmas — ela sussurrou. — Atravessam meu corpo, mas nunca ficam.
Julian não disse nada, mas os dedos tamborilaram de leve no joelho, num ritmo irregular. Ele parecia dividido entre consolo e confissão.
Antes que qualquer um dos dois pudesse falar de novo, o celular dele vibrou. Ele conferiu a tela, um franzir de testa passando rápido, e então se levantou. — Eu tenho que ir. Não era minha intenção ficar tanto tempo.
Elena o acompanhou até a porta. — Você vai dizer ao Adrian que veio?
— Vou — ele disse, parando com a mão na maçaneta. — Tente não deixar este lugar te afetar. É fácil se perder aqui em cima.
Quando a porta se fechou com um clique, a cobertura pareceu mais fria. Ela voltou para a sala, os lírios brilhando pálidos contra a mesa de mármore. O perfume deles enchia o ar — doce, quase enjoativo. Ela não sabia por que aquilo a inquietava.
Ela se sentou, pressionando as palmas das mãos nos joelhos. Os pensamentos corriam em círculos. Havia algo estranho na visita de Julian, embora ele não tivesse dito nada abertamente esquisito. Era o jeito como ele olhava para ela, como se ela fosse ao mesmo tempo uma pessoa de quem ele sentia falta e uma história que ele não queria contar de novo.
O olhar dela foi até o retrato de casamento acima da lareira. O braço de Adrian em volta da cintura dela, a mão possessiva, o sorriso dela fraco. Ela estendeu a mão para tocar a borda da moldura, as pontas dos dedos tremendo.
— Quem eu era? — ela sussurrou.
A resposta não veio; só o zumbido baixo da cidade e o cheiro persistente de lírios.
E então, em algum lugar dentro da mente dela, algo tremeluzia — uma imagem, desaparecida antes que ela pudesse agarrá-la. Um homem rindo, não Adrian. O próprio riso dela se misturando ao dele.
Elena pressionou os dedos nas têmporas. — Para — ela sussurrou, como se pudesse ordenar que os pensamentos se calassem. Mas o calor daquela meia-lembrança se recusou a sumir.
Ela não sabia se aquilo a assustava ou a chamava.
