Capítulo 1

Rafael Duarte estava deitado no quarto de hóspedes quando ouviu sua mulher rir na cozinha.

Não era uma risada comum. Camila ria baixo, com a boca perto de outra pessoa, do jeito que ria quando queria parecer mais jovem, mais leve, mais solteira. A porta entre o corredor e a cozinha estava quase fechada, mas o silêncio da casa fazia cada som bater na parede e voltar para ele com uma clareza cruel.

O médico tinha dito que a audição do ouvido esquerdo fora quase destruída no acidente. O direito ainda captava vozes, especialmente quando o ambiente ficava quieto. Camila sabia da primeira parte. Nunca se interessou pela segunda.

Rafael manteve os olhos fechados.

Desde que o caminhão tombara numa curva molhada da BR, sua vida tinha sido reduzida a curativos, fisioterapia e frases que as pessoas diziam alto demais. Ele ainda sentia cheiro de diesel em sonhos. A perna esquerda doía quando chovia. O zumbido vinha como um enxame dentro da cabeça. Mesmo assim, naquela noite, nada doía tanto quanto a voz da esposa.

  • Ele dorme feito pedra - Camila disse. - Se eu quebrar um prato do lado dele, ele nem vira.

Um homem respondeu:

  • Melhor para nós.

Diego Azevedo.

Rafael reconheceu a voz antes de aceitar a lembrança. Diego tinha sido namorado de Camila antes do casamento, um sujeito de camisa justa, relógio falso e conversa de homem que sempre prometia uma obra grande para a semana seguinte. Camila dizia que ele havia sumido de Goiânia. Pelo visto, sumira apenas da vista de Rafael.

  • Você tinha que ver a cara dele no café - Camila continuou. - Parecia um cachorro velho esperando ordem.

Diego soltou uma risada curta.

  • E você ainda tem dó?

  • Dó? Eu fiquei quatro anos casada com um homem que passava mais tempo na estrada do que na cama. Agora ele volta quebrado e com dinheiro. Deus compensa, né?

Rafael sentiu os dedos se fecharem no lençol. O anel de casamento apertou sua pele inchada.

A indenização ainda não tinha caído inteira. O acordo com a transportadora estava no fim, depois do laudo, da perícia e das audiências. Parte do dinheiro já tinha sido prometida ao tratamento do pai de Rafael, internado com insuficiência renal e precisando de procedimentos caros. Camila sabia disso. Ela tinha visto as contas. Tinha segurado sua mão no hospital e dito: "Seu pai é meu pai também."

Na cozinha, Diego perguntou:

  • Quanto?

  • O advogado falou em mais de seiscentos mil, talvez mais se fechar com o seguro. Fora a casa. Está financiada no nome dos dois, mas se ele assinar a procuração, eu resolvo.

  • Procuração?

  • Digital. O Bruno conhece um cara que mexe com certificado. Depois a gente reconhece firma em cartório, com ele dopado, confuso. Se alguém perguntar, digo que ele autorizou porque não consegue mais lidar com banco.

Rafael abriu os olhos.

O teto do quarto estava escuro, cortado pela luz fina que vinha da fresta da porta. O ventilador fazia um ruído irregular. Na cômoda, seu celular principal carregava em modo silencioso. O aparelho reserva, antigo e com a tela trincada, estava dentro de uma caixa de remédios. Ele o guardava por hábito de estrada, para emergência, quando o sinal sumia no interior.

Pela primeira vez desde o acidente, aquele hábito pareceu uma arma.

  • E se ele desconfiar? - Diego perguntou.

  • Desconfiar como? Rafael mal entende quando eu falo olhando para ele. Se eu viro de lado, ele fica perdido. Além disso, está fraco. Toma remédio, dorme cedo. Eu coloco mais uma coisinha no suco e ele apaga.

Houve um som de beijo. Curto. Molhado. Dentro da casa dele.

Rafael encarou a parede até a raiva parar de tremer e virar cálculo. Se levantasse agora, Diego podia negar, Camila podia chorar, e todos diriam que ele estava traumatizado, confuso, paranoico. Um homem recém-acidentado, meio surdo, acusando a esposa cuidadosa. A vizinhança compraria a versão dela antes de ouvir a dele.

Na estrada, Rafael aprendera que frear tarde demais mata. Reagir cedo demais também.

  • Amanhã no café eu testo ele de novo - Camila disse. - Se ele não escutar, a gente acelera.

  • Quero esse dinheiro antes que o Naldo perca a paciência.

O nome entrou na cozinha como uma sombra.

  • Você disse que resolveu isso - Camila sussurrou.

  • Vou resolver quando você pegar a indenização.

Rafael respirou pelo nariz, devagar. Então não era amor. Nem fuga. Era dívida.

Diego estava vendendo pressa porque alguém o cobrava.

Camila achava que Rafael era a presa mais fácil da casa. Não sabia que acabara de entregar o mapa inteiro: procuração falsa, sedativo, cartório, dinheiro, casa, dívida, um tal Naldo.

No corredor, passos se aproximaram. Rafael fechou os olhos antes que a maçaneta girasse. Camila abriu a porta só o suficiente para olhar. Ele deixou a boca entreaberta, como fazia quando fingia sono pesado. O zumbido no ouvido ajudou a compor a máscara de homem quebrado.

  • Está vendo? - ela murmurou para Diego, do corredor. - Morto.

Rafael não se mexeu.

A porta fechou.

Só então ele deslizou a mão para baixo do travesseiro, alcançou a caixa de remédios e tirou o celular reserva. Com a tela virada para o colchão, abriu o gravador e salvou os últimos minutos captados sem querer desde a chamada de teste que fizera mais cedo.

O arquivo tinha ruído, mas tinha vozes.

Não bastava.

Ainda.

Rafael apagou a luz da tela e encarou a escuridão.

Camila queria um marido surdo, lento e dócil. Diego queria dinheiro rápido. Os dois queriam que ele assinasse a própria ruína.

Então Rafael decidiu dar exatamente isso a eles: um homem silencioso o bastante para ouvir tudo.

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