Capítulo 2
Na manhã seguinte, Camila colocou três pratos na mesa do café.
Rafael percebeu antes de entrar na cozinha. O cheiro de café forte misturado com pão na chapa vinha do fogão, mas havia outro perfume no ar, cítrico e caro, perfume masculino que ele nunca usara. Diego estava sentado na cadeira onde o pai de Rafael costumava se sentar quando visitava a casa.
Camila levantou os olhos com um sorriso treinado.
- Bom dia, amor. Senta aqui. Convidei o Diego para ver um vazamento no banheiro.
Diego usava camisa polo azul, calça limpa demais para quem vinha verificar encanamento e um relógio dourado que chamava mais atenção que o rosto. Ele esticou a mão para Rafael, depois a recolheu no meio do caminho, como se tivesse lembrado que doentes não apertavam mãos.
- E aí, campeão? Melhorando?
Rafael olhou para a boca dele, piscou devagar e apontou para o ouvido.
- Não entendi.
Camila fez uma careta de pena.
- Ele precisa que a gente fale de frente. O médico disse que talvez nunca volte ao normal.
Diego inclinou o corpo para trás.
- Que tristeza.
A palavra saiu limpa, mas os olhos riam.
Rafael se sentou. A cadeira rangeu sob o peso que ele perdera nas últimas semanas. Camila empurrou uma xícara para ele. O café estava doce demais. Ela sabia que ele tomava sem açúcar.
- Bebe, amor. Você precisa tomar seus remédios depois.
Rafael levou a xícara à boca, molhou os lábios e fingiu engolir. O sabor amargo do café foi coberto por algo levemente químico, quase floral. Não era o mesmo gosto do calmante receitado. Era outra coisa.
Ele pousou a xícara com cuidado.
-
Quente.
-
Sempre reclamando - Camila disse, esquecendo por um segundo a voz de cuidadora.
Diego riu.
Camila se aproximou por trás de Rafael e estalou os dedos ao lado do ouvido esquerdo dele. Rafael não reagiu. Ela estalou de novo, mais perto. O som veio abafado, distante, mas veio. Ele manteve o rosto vazio.
Depois ela passou para o lado direito.
Rafael percebeu a intenção antes do gesto. Quando os dedos dela se mexeram, ele deixou a colher cair. O metal bateu no chão no mesmo instante do estalo.
- Droga - ele murmurou, olhando para baixo.
Camila parou por meio segundo. Diego também.
- Viu? - Rafael disse, como se pedisse desculpa. - Mão ruim.
A tensão desapareceu do rosto dela.
- Tudo bem. Eu pego.
Ela pegou a colher, mas seus olhos já estavam em Diego. O teste tinha falhado a favor deles.
Durante o café, Camila começou a falar mais baixo, virada de propósito para o armário.
- O advogado ligou ontem. Precisa assinar uns documentos.
Rafael franziu a testa.
-
Documento?
-
Coisa simples. Para eu poder resolver banco, INSS, seguro, essas burocracias. Você não consegue ficar indo de agência em agência desse jeito.
Diego abriu uma pasta preta e tirou algumas folhas. Não era pasta de empreiteiro. Era pasta de golpe. Rafael viu no alto da primeira página a palavra "procuração" e, em outra folha, expressões como "amplos poderes", "movimentação financeira", "alienação de bem" e "representação junto a instituições bancárias".
Camila colocou uma caneta ao lado da mão dele.
- Assina aqui.
Rafael olhou para a folha por tempo demais.
-
Agora?
-
Agora.
-
Quero ler.
O sorriso de Camila endureceu.
- Rafael, você mal consegue ouvir. Vai entender juridiquês?
Diego se inclinou sobre a mesa.
- Sua esposa está te ajudando. Homem inteligente facilita.
Rafael ergueu os olhos para ele. Por um instante, deixou que a raiva aparecesse. Só um fio. Diego viu e gostou, como quem cutuca um ferido para provar domínio.
- O que foi? - Diego perguntou, abrindo a boca exageradamente. - Não ouviu?
Camila riu.
Rafael baixou a cabeça. A humilhação fez calor subir por seu pescoço, mas ele precisava que eles continuassem confiantes. Pegou a caneta com a mão esquerda, a que tremia mais desde o acidente, e rabiscou uma linha torta no canto errado.
- Aqui? - perguntou.
Camila arrancou a folha.
- Não, Rafael! Pelo amor de Deus.
Diego bateu a mão na mesa.
-
Caramba, Camila, desse jeito demora um mês.
-
Cala a boca - ela sussurrou.
Rafael se encolheu. Por dentro, contava. Camila impaciente. Diego pressionado. Documento físico na mesa. Caneta com digitais. Pasta preta. Cópia da procuração à vista.
Ele precisava de imagem.
Seu celular principal estava no balcão, supostamente esquecido, câmera virada para a mesa. Antes do café, fingindo procurar o carregador, Rafael tinha ativado a gravação de vídeo e apoiado o aparelho entre um pote de açúcar e uma jarra. A lente pegava a metade da mesa. Talvez a folha aparecesse. Talvez as vozes saíssem abafadas. Mas era um começo.
Camila respirou fundo e voltou ao teatro.
- Amor, vamos fazer assim. Você descansa hoje. À tarde eu chamo um rapaz do cartório para orientar. Está bem?
Rafael assentiu, lento.
- Está bem.
Diego olhou para Camila como se dissesse que a paciência dele acabaria. Ela fechou a pasta, mas deixou uma folha fora por descuido. Quando os dois se levantaram para discutir no corredor, Rafael derrubou a xícara de propósito.
O café se espalhou pela mesa.
- Rafael! - Camila gritou.
Ele pediu desculpa, pegou guardanapos e, no movimento atrapalhado, puxou a folha molhada para perto do celular. A câmera captou o cabeçalho, o nome dele, o CPF, os poderes concedidos.
Camila tomou o papel de sua mão.
- Você não serve nem para ficar sentado.
Rafael olhou para ela com a expressão vazia que ela esperava.
Mas, no reflexo escuro da tela do micro-ondas, viu o celular ainda gravando.
Naquela tarde, quando Camila saiu para acompanhar Diego até o portão, Rafael salvou o vídeo em uma pasta escondida e enviou uma cópia para um e-mail antigo, com autenticação que Camila não conhecia.
Ao rever a imagem, o coração bateu forte.
A folha estava ali.
Não era prova de tudo. Mas era a primeira fotografia da intenção.
E no canto da mesa, congelada pela câmera, a assinatura falsa que Diego treinava num papel separado parecia o próximo crime pedindo para nascer.
