Capítulo 3

O jantar veio em uma tigela branca.

Canja com cenoura, arroz e o cheiro de alho que Camila usava quando queria convencer alguém de que cuidava bem da casa. Ela colocou a bandeja no colo de Rafael e se sentou na ponta da cama, observando cada colherada.

  • Come tudo. O remédio forte só pode depois de comida.

Rafael sorriu sem mostrar dentes.

  • Obrigado.

O primeiro gole confirmou o que ele temia. Por baixo do sal e do caldo havia um gosto doce e adormecido, parecido com o que sentira no café, só que mais forte. Camila não piscava. O celular dela vibrava sem parar sobre a cama.

Diego, provavelmente.

Rafael levou outra colher à boca, deixou o líquido tocar a língua e engoliu apenas metade. O resto ficou preso no canto da boca até ele fingir tossir e levar o guardanapo aos lábios. Cuspiu ali, devagar. Repetiu o gesto três vezes.

Camila se cansou de vigiar.

  • Vou tomar banho. Não derruba isso.

Assim que ela saiu, Rafael se levantou com esforço, levou a tigela ao banheiro social e despejou quase tudo no vaso. Guardou uma colherada dentro de um frasco vazio de soro fisiológico. Depois molhou o guardanapo, limpou a boca e voltou para a cama antes que o chuveiro parasse.

O corpo tremia, não pelo remédio, mas pela decisão.

Quando Camila voltou, ele já estava de lado, respirando pesado.

  • Rafael?

Ele não respondeu.

Ela se aproximou e sacudiu seu ombro. Ele deixou o braço cair mole. A mão dela passou diante de seus olhos. Ele manteve as pálpebras frouxas.

  • Diego - ela sussurrou ao telefone, sem sair do quarto. - Funcionou.

Rafael sentiu uma pontada no estômago.

  • Não, não dei tudo. Ia ficar suspeito. Mas ele apagou. Pode vir mais tarde.

Silêncio.

  • Traz os papéis. E fala com o Bruno sobre aquele certificado digital. Se Rafael acordar amanhã confuso, melhor ainda. Eu digo que ele aceitou e esqueceu.

Camila saiu, fechando a porta sem trancar.

Rafael esperou dez minutos. Quinze. Vinte.

A casa ficou quieta. Ele ouviu a televisão baixa na sala e a voz de Camila mandando áudio. Falava do "estorvo" que dormia no quarto, da pressa com o dinheiro, da necessidade de tirar Rafael da conta conjunta antes que o pai dele "engolisse tudo em hospital".

O pai.

Foi isso que quebrou o último resquício de hesitação.

Rafael não tinha contado a Camila que, na semana anterior, antes de voltar para casa, assinara com o advogado uma orientação para que a primeira parcela do acordo fosse destinada a uma conta vinculada ao tratamento de Antônio Duarte. Não era exatamente um fundo bonito como nos filmes, mas era protegido por contrato médico, boletos, ordem de pagamento e uma conta que Camila não acessava. O dinheiro que ela imaginava roubar já tinha destino.

O que restava era proteger a casa e transformar a ganância dela em prova.

À meia-noite, Diego chegou.

Rafael ouviu o portão da garagem correr no trilho. Ouviu a risada dele, mais nervosa que na noite anterior. Ouviu Camila mandá-lo falar baixo, embora ela mesma não conseguisse conter a excitação.

Eles entraram no quarto.

O cheiro do perfume masculino veio primeiro.

  • Parece morto mesmo - Diego disse.

Camila cutucou o pé de Rafael.

  • Eu falei. Amanhã ele acorda sem lembrar de nada.

  • Então vamos pegar o dedo dele.

Rafael quase reagiu.

Diego segurou sua mão direita. O polegar de Rafael foi pressionado contra a tela fria de um celular. Tentativa de biometria. O aparelho vibrou negando acesso. Diego xingou.

  • Precisa do rosto.

  • Nem pensar - Camila disse. - Se ele abre o olho?

  • Ele está dopado.

  • Você quer arriscar tudo por burrice?

Discutiram em sussurros. Rafael manteve o corpo pesado, mas por dentro registrava cada detalhe: tentativa de acesso, celular de Diego, horário, presença dos dois, sedativo. O gravador do aparelho reserva, escondido dentro do criado-mudo, captava o ambiente.

Camila puxou Diego para fora.

  • Amanhã a gente faz direito. Primeiro a procuração. Depois o banco.

  • E o Naldo?

  • Eu não quero ouvir esse nome aqui dentro.

  • Ele quer dinheiro até sexta.

  • Então até sexta eu arranco o dinheiro desse inútil.

A palavra ficou no quarto depois que eles saíram.

Inútil.

Rafael abriu os olhos apenas quando a casa finalmente mergulhou no escuro. O teto parecia mais baixo. A perna doía. A garganta ardia pelo esforço de não reagir.

Ele pegou o celular reserva e conferiu a gravação. As vozes estavam lá. Baixas, mas reconhecíveis. No frasco, a amostra da canja descansava como um pequeno fantasma leitoso.

No navegador, pesquisou câmeras escondidas com entrega rápida: câmera de tomada, câmera de campainha, microcâmera com cartão de memória, detector de movimento, backup em nuvem. Comprou tudo usando um cartão virtual que Camila não conhecia e mandou entregar em um armário de encomendas perto de uma farmácia.

Depois abriu a conversa com o advogado e digitou apenas:

"Preciso preservar provas antes de agir. Amanhã explico."

Apagou a notificação, colocou o celular de volta no esconderijo e se deitou.

Na sala, Camila ria de novo.

Rafael ficou imóvel no escuro.

Quando a risada dela terminou, ele já havia escolhido onde colocaria a primeira câmera.

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