Capítulo 1 O denunciante

“Mãe, se o papai e a tia Sienna se casarem, eu posso morar com eles?” A pergunta atravessou o coração de Cassie como uma lâmina.


“Boa noite, mamãe. Eu te amo”, sussurrou Rose, de seis anos, com os bracinhos enlaçando o pescoço de Cassie. Os cachinhos da menina roçaram a bochecha da mãe enquanto Cassie ajeitava o cobertor com carinho sobre ela.

Cassie sorriu, sentindo um calor tomar o peito. “Eu te amo mais, meu amor. Sempre amei e sempre vou amar.”

Rose sorriu, sonolenta, mas então ficou pensativa. “Mamãe… o papai te ama também?”

Cassie parou por um segundo. Aquela pergunta era um golpe para o qual ela não estava preparada. Forçou um sorriso suave e afastou o cabelo do rosto da filha. “Claro que ama, querida. Ele só… trabalha demais. Vive ocupado.”

Rose abriu a boca como se fosse dizer algo, depois hesitou. “Mas—”

“Mas o quê?”, Cassie perguntou baixinho.

“O papai disse que eu não podia contar”, murmurou Rose, virando de lado. Em poucos segundos, a respiração dela se ajeitou no ritmo tranquilo do sono.

Cassie ficou ali mais um instante, olhando o rosto sereno da filha. Tão inocente. Tão sem saber de nada. A dor no peito foi se espalhando devagar, até ficar difícil respirar.

O celular vibrou no criado-mudo, quebrando o silêncio. Um número estranho apareceu na tela. Normalmente, ela não atenderia, não àquela hora, mas alguma coisa no instinto mandou que atendesse.

“Alô?”, ela disse, cautelosa.

“Cassia Munroe”, respondeu a voz de uma mulher, calma, porém afiada. “Você está ciente de que Sienna Vale saiu do coma há três meses?”

Cassie cambaleou, a mão tremendo enquanto apertava o celular. A voz falhou. “Não. A Sienna ainda está em coma. E meu nome é Cassie, não Cassia. Você ligou errado.”

“Cassia”, a voz repetiu, calma e deliberada, “sua melhor amiga saiu do coma há três meses. E seu marido está planejando se divorciar de você e se casar com ela.”

O ar do quarto pareceu ficar pesado. Cassie soltou uma risada curta, incrédula. “Não… isso não é possível.”

Sienna tinha traço falciforme (AS), e o marido de Cassie também. Aquela era uma das razões pelas quais eles não podiam se casar — além do fato de que Cassie sempre amou o próprio marido, Frederick Jones.

Eles eram amigos de infância porque os pais dele acolheram Cassie quando os pais dela morreram, e Frederick sempre a tratou como irmã, ignorando os sentimentos dela por ele quando ela fez dezoito anos.

Os pais de Frederick tentaram bancar os cupidos, mas não deu certo, porque Frederick era apaixonado pela melhor amiga de Cassie, Sienna.

Só que, uma semana antes do casamento, Frederick descobriu que os dois tinham o traço falciforme — AS. Por mais difícil que fosse, ele ainda queria se casar com Sienna, mas ela recusou.

Por motivos que Cassie nunca entendeu, Frederick a pediu em casamento, e eles se casaram no evento que deveria ter sido dele e de Sienna.

No começo, as coisas foram bem, mas depois do acidente de Sienna, alguns meses após o casamento, tudo mudou. Frederick ficou frio e distante.

A intimidade tinha sumido do casamento desde que ela engravidou de Rose, mas Cassie tinha sido a esposa perfeita. Leal. Paciente. Cheia de esperança.

“Olha, quem é você? Por que você está tentando causar problema na minha casa? Não liga mais pra esse número”, Cassie disse com firmeza, a voz subindo.

Nem todo casamento era feito para ser meloso. Ela aceitava isso. Mas um marido traindo? Aí era outra história.

“Eu não vou”, respondeu a pessoa do outro lado. “Mas você vai vir atrás de mim. E quando vier, meu nome é A Denunciante.”

A ligação caiu antes que Cassie pudesse fazer outra pergunta.

Pela primeira vez, ela fez algo que nunca tinha feito. Discou o número de Frederick enquanto ele estava fora de casa. Estava desligado.

Ela voltou para o quarto de Rose. A filha dormia profundamente, o peitinho subindo e descendo num ritmo constante.

Cassie puxou o ar, o coração disparado. Já eram oito da noite, e Frederick não tinha chegado. Mas isso era normal. Muitas vezes ele dormia no escritório quando a pressão no trabalho apertava.

Sienna Vale. Um nome que antes soava doce. Agora deixava um gosto amargo na boca.

Juntando coragem, Cassie discou o número de Sienna. Para seu choque, chamou.

Depois de seis longos anos sendo impossível falar com ela, a ligação completou. Uma voz melosa atendeu, com música alta batendo ao fundo. “Alô? Quem fala?”

— Sienna… quando foi que você melhorou? — perguntou Cassie, com a voz quase inaudível.

A chamada caiu na hora. Quando ela tentou de novo, o telefone já estava desligado.

O coração de Cassie disparou. A visão se embaralhou com as lágrimas. Só uma pessoa tinha as respostas de que ela precisava.

Na manhã seguinte, enquanto arrumava Rose para a escola, Cassie perguntou, como quem não quer nada:

— Então… o que você e o papai fazem quando ele te leva pra passear?

Rose ergueu o olhar, com um lampejo de culpa nos olhos.

— O papai disse que eu não posso contar pra ninguém.

O coração de Cassie apertou, mas ela manteve o sorriso. O marido e a filha estavam guardando segredos dela?

— Por que você não confia em mim pra guardar esse segredo também? — disse ela, com doçura. — Eu prometo que não vou contar pra ninguém.

Rose hesitou.

— A tia Sienna falou que, se você descobrir, o papai não vai me levar mais.

— Eu não vou te impedir de ir aonde você quiser com o seu pai — disse Cassie, com a voz firme. — Mas você tem que me contar, Rose. Eu sou sua mãe.

Rose baixou a cabeça, e o cabelo preto e cacheado caiu sobre a bochecha.

— A tia Sienna disse que o papai era pra casar com ela, mas você entrou no meio dos dois. Ela disse que tá grávida do bebê do papai e que eles vão se casar logo.

Um mar de lágrimas ameaçou transbordar, mas Cassie se recusou a chorar na frente da filha. Rose sempre quis ter um irmãozinho; Cassie conseguia entender o entusiasmo da menina e o motivo de ela estar guardando o segredo do pai.

— Há quanto tempo você conhece ela? — perguntou, a voz por um fio.

— Não faz muito tempo. Depois que você comemorou meu aniversário, ela disse que foi muito pequeno e fez um maior na casa dela — respondeu Rose, inocente.

Então era verdade. Exatamente como o Denunciante tinha dito.

— Muito bem, minha filha. Não conta pra eles que eu sei. E lembra de comer as frutas, tá?

Rose assentiu e abraçou a mãe. Mas a pergunta seguinte atravessou o coração de Cassie como uma lâmina.

— Mãe… se o papai e a tia Sienna se casarem, eu posso morar com eles?


Algumas horas depois, Cassie estava no escritório de Frederick, no centro de Chicago. A recepcionista ergueu os olhos, confusa.

— Me desculpe, senhora. O senhor e a senhora Jones estão ocupados. Ninguém pode entrar.

“Senhor e senhora Jones.” Frederick nunca deixou Cassie usar o sobrenome dele, dizendo que não precisava, mas agora ela sabia o motivo: ele ainda guardava aquilo para o seu único e verdadeiro amor, Sienna.

Como ela deveria se apresentar agora?

O coração dela doeu. Mas Cassie culpou a si mesma por ter ignorado os sinais, por ter ficado calada. Agora era hora de consertar as coisas.

Aos vinte e seis anos, ela ainda podia dar a volta por cima.

Cassie se virou para ir embora, mas alguma coisa dentro dela estalou. Ela girou de volta e avançou até a porta de Frederick num relâmpago, empurrando-a sem bater.

Sienna estava sentada na mesa dele, de costas para a porta, com os lábios colados aos dele.

Assustada, Sienna pulou e foi até o sofá, ajeitando a roupa.

— Cassie, o que você está fazendo aqui? — perguntou ela, evitando encarar.

Frederick parecia atônito; culpa e alívio brigavam no rosto dele. Ele atrapalhou-se com a camisa, fechando um botão.

— Cassie… por que você está aqui?

Ela nunca tinha ido ao escritório dele. Vê-lo assim era humilhante.

Cassie costumava olhar para ele com respeito e adoração. Agora, só restava um olhar vazio, quase sem vida.

Ela puxou o ar, prometendo em silêncio que não choraria, por mais que doesse.

Um dia, Frederick tinha sido o amor da vida dela. Eles cresceram na mesma casa, e Cassie o amava pelo jeito como ele cuidava dela — e, claro, por ele ser tão bonito.

Ela achou que o casamento deles seria um conto de fadas, mas ele só mostrou o inferno.

Cassie nem sabia mais como era a intimidade, porque não tinha isso havia mais de seis anos. Esse tempo todo, ela culpou o trabalho, mas o marido continuava preso à ex — e, no instante em que Cassie virava as costas, eles faziam o mundo pegar fogo.

Agora ela entendia. Desde o começo, Frederick nunca a amou, e nunca amaria.

Então por que ele se casou com ela?

A pergunta ficou no ar como um fio fino, esticado e perigoso.

— Eu não consegui falar com você ontem à noite — disse ela, com calma. — Então eu trouxe o documento pro seu escritório.

Por dentro, Cassie estava em pedaços, mas por fora a compostura era impecável. Ela foi até a mesa dele e colocou o envelope ali.

O rosto de Frederick endureceu.

— Que documento é esse?

Ele estendeu a mão para pegar, e Cassie não impediu.

— Eu quero o divórcio.

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