Capítulo 2 O gêmeo
O pedido parecia simples o bastante, mas, para Frederick Jones, nada nunca era simples — não quando o assunto era Cassie.
No dia do casamento, ele tinha se sentido como um homem fechando um contrato comercial, e não fazendo um juramento de amor.
Quando eles ficaram íntimos naquela noite, foi pura obrigação — o fato de ele precisar de um herdeiro.
No instante em que ela mencionou a gravidez, o trabalho dele estava feito. Ele tinha sido o primeiro dela, mas o primeiro e único amor de Frederick sempre tinha sido Sienna. Ele não se arrependia de ter reacendido aquela chama.
Cassie o amava desde a infância, mas ele sempre a tinha amado apenas como uma irmã. Isso mudou depois que recebeu provas do envolvimento dela no acidente de Sienna.
O afeto fraterno que ele sentia antes se transformou em algo mais sombrio — repulsa. O único motivo de ele ter ficado era a filha deles, Rose.
Depois que Sienna acordou das consequências do acidente, Frederick encontrou mais um motivo para acreditar que Cassie tinha falsificado o suposto traço falciforme de Sienna para impedir o casamento dos dois.
E, como se não bastasse, ele tinha provas de que Cassie o traiu depois do casamento com o amigo íntimo dela, Sebastian Hale.
Uma mulher com esse nível de pecado não merecia piedade.
O coração dele sempre pertenceu a Sienna Vale. Casar com Cassie tinha sido o preço do poder. Então ele nunca se importou; apenas fez com que ela sofresse as consequências dos próprios atos ao longo dos sete anos de casamento.
Agora, sentado na sala de canto com paredes de vidro, com vista para Chicago, Frederick se sentia ao mesmo tempo vitorioso e vazio. Daquela altura, a cidade se estendia sem fim sob ele, um mapa vivo de tudo o que possuía, de tudo o que tinha sacrificado.
Virar CEO do Grupo Novarion tinha sido a recompensa dos pais dele por se casar com Cassie. Ela tinha lhe dado a imagem de família de que ele precisava, até uma filha linda. Mas agora aquele acordo tinha chegado ao fim.
Ele se recostou na cadeira de couro italiano, a expressão indecifrável. “Você pensou bem nisso?”, perguntou, com a voz curta, distante.
Cassie estava do outro lado da mesa, com o reflexo emoldurado pelo vidro polido atrás dele.
Houve um tempo em que só a voz dele fazia o coração dela disparar. Agora, só fazia o estômago dela se contrair.
Ele continuava devastadoramente bonito — cabelo escuro, maxilar marcado, olhos capazes de encantar uma sala inteira —, mas cada olhar lembrava Cassie do que ela tinha perdido.
“Você não vai ficar com a guarda da Rose”, Frederick disse, frio, num tom definitivo.
Os lábios de Cassie se curvaram num sorriso discreto, como quem já esperava. “Ela já escolheu você e ela.”
As sobrancelhas dele se uniram. “Ela te contou?”
“Eu arranquei isso dela”, Cassie admitiu, em voz baixa. “E prometi que não ia te contar. Mas espero que você seja sensato sobre como vai usar essa informação.”
Frederick soltou o ar devagar, um lampejo mínimo de culpa nos olhos antes de desaparecer.
Ele assentiu uma vez, profissional, e pegou a caneta. “Se você está mesmo abrindo mão da guarda, ficando só com direito de visita, então vou mandar meu advogado finalizar isso.”
Ao lado dele, Sienna estava sentada com uma elegância calculada, o cabelo loiro-mel impecavelmente arrumado, o batom vermelho demais para soar sincero. Um sorriso fino curvou os lábios dela — até as próximas palavras de Frederick apagarem aquilo.
“Meu advogado vai entrar em contato por causa da papelada”, ele disse, num tom controlado. “E eu vou determinar a pensão a que você tem direito.”
A postura de Sienna enrijeceu na menção de dinheiro, o sorriso travando. Mas Cassie apenas inclinou a cabeça de leve, com uma calma desconcertante. “Fica com o seu dinheiro, Frederick”, ela disse, suave. “E eu fico com o meu.”
A caneta de Frederick parou no ar. Ele ergueu o olhar, a compostura rachando em irritação. “Você não tem nada, Cassie. Não seja idiota.” Ou ela estava tentando voltar com Sebastian?
O tom dele ficou mais cortante, mas por baixo da arrogância havia desconforto — uma verdade que ele não queria encarar. Os pais dele insistiriam para que ele a tratasse com justiça, e só isso já o segurava.
Caso contrário, ele não se importaria se ela simplesmente sumisse ou reatasse com o antigo amor.
A voz de Cassie continuou firme. “Se você insiste em pagar pensão, então eu aceito cinco bilhões.”
Os olhos de Sienna faiscaram, incredulidade e raiva misturadas. “Cinco… o quê?”
Frederick bateu a caneta na mesa. “Fala sério.”
O olhar de Cassie não vacilou. Ela não queria que Frederick tivesse parte nenhuma do que era dela, mesmo que não fosse tanto quanto o dele.
“Isso, ou nada. Você decide. Ou você paga o que eu sei que valho, ou eu vou embora com a minha dignidade intacta.”
Frederick debochou por dentro da palavra “dignidade”, mas não conseguiu esconder a confusão. O dinheiro dela? Até onde ele sabia, Cassie não tinha nada além do guarda-roupa de grife e dos cartões que ele tinha dado a ela.
Mesmo assim, havia algo no tom dela — silencioso, decidido — que o fez hesitar.
Quando Cassie se virou para ir embora, Sienna se levantou de supetão e a segurou pelo braço.
“Cassie, por favor, não fica assim. Eu nunca quis que nada disso acontecesse. Mas a gente não escolhe por quem o coração bate… com anemia falciforme ou sem. Eu não te culpo por ter mudado o resultado.”
Os olhos de Cassie percorreram Sienna de cima a baixo — maquiagem impecável, joias reluzentes, uma perfeição que debochava da própria simplicidade desalinhada dela.
Os cabelos em ondas soltas, o rosto sem maquiagem e o vestido simples faziam Cassie parecer deslocada naquele escritório frio e luxuoso. E, ainda assim, de algum jeito ela parecia mais real do que qualquer uma das duas.
“Mudar o resultado? Eu não fiz nada disso”, Cassie negou, mas Frederick cortou, seco:
“Chega de mentira. Eu falei com o médico. Ele disse que você pagou pra ele alterar.”
Cassie não fazia ideia do que estava acontecendo, mas uma coisa era certa: alguém tinha armado para cima dela, e Frederick não estava nem aí para investigar direito.
Como ela não tinha a menor vontade de continuar casada com um marido que a traía, eles podiam pensar o que quisessem.
“Claro, Sienna”, Cassie disse num tom controlado. “Não existe nada escondido que não venha à tona. Espero que, quando esse dia chegar, você tenha a dignidade de ficar de pé… como eu tenho a minha ao ir embora.”
Sienna se encolheu, os dedos apertando o braço de Cassie. A amargura vinha de fundo.
“O Fred nunca te amou”, ela sibilou. “Ele só casou com você pra garantir a posição dele contra o irmão gêmeo.”
Cassie piscou, pega de surpresa.
“Irmão gêmeo?” Então era por isso que ele tinha se casado com ela? Ela já tinha ouvido falar do gêmeo dele uma vez ou outra, mas também que eles não se davam bem e que nunca tinham se encontrado.
Antes que Cassie pudesse perguntar mais, o aperto de Sienna ficou agressivo. Cassie, por instinto, a empurrou.
Sienna cambaleou para trás, o salto agulha prendendo no tapete.
“Ai!” ela gritou, levando a mão ao ventre.
Frederick estava ao lado dela num instante.
“Sienna!” A voz dele falhou pela primeira vez naquele dia. Um braço passou por trás das costas dela, o outro por baixo dos joelhos. Então ele parou, congelado.
Tinha sangue.
O fôlego de Cassie travou quando ele a encarou com ódio.
“Eu— ela me agarrou—”
O olhar de Frederick subiu, escuro e furioso.
“Se acontecer qualquer coisa com ela”, ele disse entre os dentes, “você pode esquecer a pensão. E você nunca mais vai ver a Rose.”
Cassie ficou paralisada enquanto ele levantava Sienna com facilidade e a carregava para fora. O som dos sapatos dele ecoando pelo corredor de mármore ficou com ela muito depois de ele desaparecer.
Ela não sabia o que deu nela para segui-los até o hospital. Talvez culpa.
Talvez desespero. Talvez a necessidade de saber se ela realmente tinha machucado alguém, ou se o destino simplesmente tinha decidido que ela já tinha sido punida o bastante.
Os pensamentos dela rodopiavam enquanto dirigia pelas ruas de Chicago. ‘Foi culpa minha? Eu empurrei ela com força demais?’
Ela nem viu o carro vindo na direção dela até o clarão dos faróis encher o para-brisa.
A batida a jogou de lado — metal contra metal, o estalo seco do vidro, um guincho de freios. O sedã rodou uma vez antes de ela conseguir controlar e jogar para o acostamento.
O peito de Cassie subia e descia em rajadas curtas. O mundo se firmou, mas os nervos não. O outro carro, um Bentley Flying Spur, elegante e prateado, parou a poucos metros. A porta se abriu, e um homem alto desceu.
Ele era absurdamente bonito, de ombros largos, cabelo escuro, imponente no terno cinza. Havia algo estranhamente familiar nele. Quando os olhos dele encontraram os dela, Cassie perdeu o ar.
“Frederick?” ela sussurrou, atônita.
A expressão do homem não mudou. A voz era mais grave, mais macia, carregada de autoridade.
“Você conhece o meu irmão gêmeo?”
Cassie piscou, desnorteada. A semelhança era inacreditável, mas aquele homem se comportava diferente. A postura era mais firme, o olhar mais cortante, a presença mais perigosa.
O coração dela bateu forte. Então esse devia ser Franklin, ela entendeu em silêncio, enquanto ele a avaliava como se ela fosse uma estranha de outro mundo. Toda a elite dos EUA conhecia o nome Franklin Roth, o gêmeo recluso.
O homem que tinha largado Wall Street anos antes para construir um império global nas sombras. Diziam que a fortuna dele fazia até a dos Novarion parecer pequena.
Ele olhou para o amassado no próprio carro e suspirou.
“Você deu sorte de eu ter freado a tempo.”
Cassie engoliu em seco, ainda tremendo.
“Desculpa pelo estrago. Só me passa o contato do seu mecânico. Eu pago.”
Ele a encarou, incrédulo.
“Você?” O tom vinha carregado de diversão. “Arrumar o meu carro? Você ao menos consegue pagar os pneus?”
“A gente dá um jeito”, ela disse com seriedade, a voz mais firme do que ela se sentia. Cassie não quis insistir que podia pagar — principalmente sem ter ideia de como era a relação dele com Frederick.
Franklin a estudou por um instante, o olhar afiado e indecifrável. Então ele disse:
“Bom, meus pais estão esperando que eu chegue com uma mulher. Finge ser meu par hoje, e eu deixo isso pra lá.”
Cassie piscou, chocada.
“Fingir ser seu par?”
