Capítulo 3 Você ao menos sabe quem ela é?
O barulho da cidade ficou para trás, substituído por um zumbido de tensão — elétrico e inesperado. Cassie encarou-o, sem saber se ria ou se saía correndo.
Ela tinha acabado de perder o marido. E agora o irmão gêmeo dele estava pedindo que ela assumisse um papel no mundo dele.
E, de algum jeito, lá no fundo, ela sabia que dizer sim podia mudar tudo.
Que tipo de destino cruel era aquele? Será que ele teria feito a mesma proposta se soubesse que ela estava prestes a virar sua ex-cunhada?
— Prefiro pagar pelos danos — disse ela com seriedade, a voz calma, mas firme.
Franklin se ofendeu; a recusa dela caiu como um tapa. Ele tirou um bloquinho do bolso do casaco, rabiscou alguma coisa e entregou a ela.
— Pronto. Liga pro meu mecânico e manda consertar.
Sem dizer mais nada, ele se virou e entrou no Bentley. Nesse instante, um Rolls-Royce encostou ao lado.
Assim que Franklin desapareceu no banco de trás, um homem impecavelmente vestido saiu do carro e veio falar com Cassie para tratar dos danos.
O valor era absurdo. Mas Cassie nem piscou. Ela abriu o aplicativo do banco e fez a transferência do valor integral ali mesmo, deixando o homem tão chocado que ele ficou em silêncio.
Ela parecia simples demais, discreta demais, para ter aquele tipo de dinheiro.
Cassie chegou ao hospital, os saltos fazendo um tec-tec suave no piso encerado. Quando se aproximou do quarto de Sienna, vozes atravessaram a porta — afiadas, cruéis, e inconfundivelmente dirigidas a ela.
— Sua esposa é tão maldosa. Ainda bem que você vai se divorciar dela.
— Ciúme mata. Quanto antes, melhor. Tomara que vocês dois façam outro bebê logo.
Cassie parou, travada. O coração dela se retorceu. Eles tinham perdido o bebê por causa dela. Ela deu um passo para trás, atordoada, e esbarrou numa enfermeira. A bandeja de materiais despencou no chão, quebrando o silêncio num estrondo.
O barulho chamou atenção. A porta se abriu, e Frederick saiu, ladeado pelos dois amigos mais próximos, Lucien Veyron e Asher Davis.
E então, Franklin.
Ele ficou ao lado de Frederick, como se estivesse protegendo-o, a expressão dura.
— É aquela maluca que bateu no meu carro.
Era a primeira vez que ele via o irmão gêmeo em décadas.
Separados poucos meses depois do nascimento, os pais biológicos tinham concordado em cortar todo contato com Franklin. Foi uma decisão baseada em segredo e sacrifício. Por anos, o silêncio reinou, até a questão da herança entrar em cena.
Quando chegou a hora de passar o legado da família adiante, eles procuraram os filhos. Frederick, solteiro e considerado despreparado, já não era o herdeiro ideal. Então, voltaram-se para Franklin.
Mas, nessa altura, Franklin já administrava o império dos pais adotivos e construía o próprio empreendimento global. Ele não tinha tempo — e tinha menos ainda interesse — em brigar por uma herança de que não precisava. Sem hesitar, deixou que Frederick ficasse com tudo.
Os anos passaram. Franklin cresceu, se reinventou e, por fim, decidiu transferir parte dos seus negócios para Chicago. Foi então que ele entrou em contato com Frederick. Eles combinaram de se encontrar — dois estranhos ligados pelo sangue, finalmente frente a frente.
Quem poderia imaginar que o reencontro tão esperado aconteceria num hospital?
O olhar gelado de Frederick se fixou em Cassie.
— Espero que ela tenha pago pelos danos. É ela.
— Sua esposa? — o rosto de Franklin se contorceu, com nojo. Agora ele entendia por que Cassie tinha recusado a oferta dele.
— Ex — corrigiu Frederick. — Vou garantir que a gente finalize o divórcio bem depressa. E não vou dar um centavo pra ela.
— Fred, eu não quis… — Cassie começou, mas Frederick a interrompeu.
— Eu vi tudo. Você não merece ser mãe.
O ar ficou preso na garganta de Cassie. Sienna podia ficar com tudo. Frederick, a casa, o nome, o status… mas tirar Rose dela por completo? Aquela era uma ferida que ela não conseguia suportar.
Pela filha, Cassie faria qualquer coisa. Até engolir o próprio orgulho.
— Por favor, Fred. Você tem que acreditar em mim. Você não pode me afastar da minha filha.
Os olhos de Frederick arderam de repulsa.
— Eu te avisei. Eu vi tudo. Você sabia que ela estava grávida e mesmo assim empurrou ela.
“Ela apertou minha mão com força. Eu só estava tentando me soltar”, disse Cassie, a voz falhando. Uma lágrima escorreu pela bochecha dela, mas Frederick não se comoveu.
— Mentira. Some daqui.
— Fred, você está bem? Por que você está gritando? — a voz de Sienna veio de dentro do quarto.
Cassie observou enquanto todos correram de volta para o lado de Sienna, deixando-a sozinha no corredor.
Ela se virou, deixando o vento secar suas lágrimas enquanto seguia para a escola da Rose.
Mas Frederick já tinha chegado antes.
Dois seguranças e uma babá aguardavam no portão da escola. Quando Rose saiu, os olhos dela se arregalaram de medo ao ver a mãe sendo contida.
— Mamãe, por que eles estão me levando?
Cassie se debateu contra o aperto do segurança, mas foi inútil. Um deles conduziu Rose para longe.
— Seu papai e a tia Sienna estão esperando para te ver — disse a babá, com doçura.
Rose se acalmou na hora.
O coração de Cassie se despedaçou ao ver a única filha, que ela amava mais do que tudo, sendo levada. As lágrimas que ela tinha jurado não derramar escorreram pelo seu rosto.
Ela seguiria com o divórcio. Mas lutaria pela filha.
— Não se preocupa, Rose — sussurrou, mandando um beijo enquanto o carro se afastava. — Eu vou voltar por você. Eu prometo.
De volta ao hospital, Sienna se aninhou em Frederick como se fosse uma segunda pele.
— Nosso bebê está bem, né? — perguntou ela, com a voz trêmula. — Eu só estava tentando pedir desculpas pra ela. Eu mereço isso, por ter tirado você dela.
— Shhh — murmurou Frederick, beijando o alto da cabeça dela. — Você não fez nada de errado. A gente perdeu o bebê, mas vai fazer outro. Não se preocupa.
O celular de Franklin tocou. Ele saiu para atender. Lucien e Asher foram junto, dando privacidade ao casal.
Lá dentro, o rosto de Sienna empalideceu.
— A gente perdeu o bebê? — ela sussurrou. — Não. Não pode ser. Deve ser um engano.
Frederick a apertou mais.
— Tá tudo bem. Eu vou fazer ela pagar.
Sienna balançou a cabeça.
— Não. Eu perdoo ela. Você devia perdoar também. Fui eu que me meti entre vocês dois.
— Não. Você é boa demais. Eu só casei com ela por conveniência, porque você entrou em coma depois do acidente. Eu nunca amei ela.
— Mas a Rose…
— Ela não vai ter acesso à Rose. Eu vou garantir isso.
Franklin voltou, com uma expressão indecifrável.
— Sienna, sinto muito pela sua perda. Espero que Deus abençoe você com outro filho em breve.
— Obrigada, Franklin. Você é tão gentil — soluçou Sienna.
— Desculpa não ter trazido flores. Eu saí correndo quando soube do ocorrido. Tenho que voltar pra Atherton de avião hoje à noite, mas depois eu mando um presente.
Quando ele se virou para sair, o celular tocou de novo. Ao ver que era o mecânico dele, Franklin atendeu na frente deles.
— Senhor, o carro está na oficina, passando pelos reparos — disse o mecânico.
Franklin franziu a testa.
— Quem deu a entrada?
— A mulher, senhor. Ela transferiu o valor inteiro pra minha conta.
Franklin ficou paralisado. Mais cedo, Frederick tinha dito que Cassie era só uma dona de casa que vivia às custas dele.
— O quê? Você tem certeza?
— Sim, senhor.
— Certo. Depois eu te ligo.
Franklin desligou, os olhos se estreitando. Ele se virou para Frederick.
— Você não disse que sua esposa, quer dizer, ex, era uma mãe que ficava em casa e só tinha uma mesada de quatro mil dólares?
— Disse.
— Então como ela pagou um prejuízo de duzentos e quatorze mil dólares?
— Espero que ela não tenha mexido no dinheiro da nossa conta conjunta — resmungou Frederick, tirando o celular do bolso para conferir.
Mas a conta estava intacta.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, a porta se abriu de supetão.
Três pessoas entraram no quarto: Adrian e Corinne Jones, pais biológicos de Frederick e Franklin, e o filho mais novo deles, Julius Jones.
Sienna baixou a cabeça imediatamente. Frederick se levantou para cumprimentá-los.
— Mãe, pai, que bom que vocês vieram. Eu vou me divorciar da Cassie.
Um tapa seco estalou no rosto dele, quase tirando-o do equilíbrio.
Franklin se colocou entre eles, tentando apaziguar, mas o olhar do pai parecia em brasa.
— Como assim você vai se divorciar da Cassie? — rugiu Adrian. — Você ao menos sabe quem ela é?
