Capítulo 4 O filho que doamos
O cômodo mergulhou num silêncio atônito quando Franklin atravessou a porta.
Adrian Jones, o patriarca orgulhoso, e Corinne, a esposa dilacerada por dentro, encararam o homem que um dia haviam abandonado — uma decisão soterrada sob anos de silêncio e sacrifício.
Franklin, calmo e controlado, trazia a dignidade discreta de quem foi criado com amor, só que não por eles.
Eles tinham mantido o juramento feito à melhor amiga da prima de Corinne, a mulher que adotara Franklin quando o desespero os obrigou a tomar aquela decisão.
Sete anos antes, eles tinham permitido que Corinne falasse com Franklin uma única vez, quando tentaram oferecer a ele o cargo de CEO como uma forma de reparação.
Franklin recusara, embora tivesse demonstrado interesse em conhecer o irmão gêmeo, Frederick. Eles trocaram contatos, mas nada aconteceu — ou era o que eles pensavam.
Agora, estava claro que os irmãos tinham mantido contato esse tempo todo.
Era para ter sido um reencontro feliz. Mas algo mais sombrio pairava no ar, algo instável o bastante para destruir tudo o que eles haviam construído.
— Como assim você está se divorciando da Cassie? — a voz de Adrian rachou como um trovão. — Você ao menos sabe quem ela é?
Eles tinham vindo correndo no instante em que Cassie os informou do divórcio, ansiosos para confrontar o filho, só para encontrá-lo ali, com a amante.
Frederick Jones, o herdeiro emocionalmente explosivo, soltou uma risada fria e zombeteira.
— Claro que eu sei. Vocês trouxeram ela pra dentro de casa quando ela tinha quatro anos. Ela só soube encostar.
A mão de Adrian se ergueu de novo, mas Franklin entrou na frente, interceptando o tapa no ar.
— Sr. e Sra. Jones — disse Franklin, com calma, a voz firme, porém respeitosa. — Eu não conheço vocês direito, mas meus pais nunca descreveram vocês como violentos.
Corinne engoliu em seco. O filho que eles haviam abandonado estava falando com eles como se fossem desconhecidos — e com razão. Eles tinham perdido o direito à intimidade.
Ainda assim, ela sentiu alívio. Ele tinha se tornado melhor do que eles ousaram esperar.
— Franklin, não foi assim que a gente imaginou conhecer você — disse ela baixinho. — Tem muita coisa que você não sabe. Mas certas pessoas… certas pessoas não são de mexer.
— E quem seriam essas pessoas? — Frederick perguntou com desdém, a voz escorrendo desprezo. — A Cassie? Engraçado.
O rosto de Adrian se fechou.
— Todos os nossos sacrifícios… jogados fora. A gente é que devia ter desistido de você.
Franklin piscou, atônito. Antes que pudesse responder, o celular dele vibrou. Ele olhou a tela e então ergueu os olhos, num pedido mudo de desculpas.
— Desculpem. Eu preciso ir. Talvez a gente converse de novo, quando as coisas estiverem menos… tensas.
— Você não pode ficar mais um pouco? — Corinne implorou.
Mas Franklin apenas a encarou, desligado, distante. Mesmo depois de saber a verdade pelos pais adotivos, ele ainda os via como estranhos.
— Eu prometi pra minha mãe que ia levar uma mulher pra casa. Ela está esperando, ligando.
A testa de Corinne se franziu. Não era isso que ela tinha entendido, mas, antes que pudesse perguntar, ele já tinha ido embora.
— Acho que a gente devia ir também — disse Lucien, um dos amigos de Frederick. Asher concordou com a cabeça, e os dois começaram a se encaminhar para a porta. Não era a visita que eles esperavam.
Sienna, a amante de Frederick, ficou paralisada, sentindo-se exposta e sozinha. No estado em que estava, ela nunca imaginara estar no centro de tamanho caos.
Se Frederick não conseguia impedir os próprios pais de baterem nele, como ele poderia protegê-la?
— Fred, eu não acredito que você largou a Cassie por essa caricatura — cuspiu Julius, o irmão mais novo de Frederick. — Eu soube que ela perdeu o bebê, mas essa maquiagem aí continua impecável. A Cassie nunca usava maquiagem e era linda do mesmo jeito.
Os olhos de Sienna se encheram de lágrimas. Frederick levantou a mão, a fúria em chamas, mas Adrian se colocou na frente, bloqueando o golpe.
— Tenta, Fred — ele ameaçou, frio. — E eu te tiro tudo o que você mais preza.
Frederick baixou a mão, mas não a voz. “Não tá tarde demais pra isso? O senhor passou tudo pro meu nome no instante em que eu me casei com a Cassie. Depois que ela teve a Rose, o senhor deixou o cargo de presidente do conselho.”
“Isso foi pela Cassie”, Adrian rebateu, ríspido.
Frederick deu de ombros. “Bom, agora tá tudo no meu nome. E eu vou me casar com a mulher que eu sempre amei. A Cassie tentou separar a gente, mas o destino nos trouxe de volta.”
“Não coloque a culpa na Cassie pelos seus desejos doentios”, Adrian rosnou. “Não cometa esse erro. Ela é muito mais do que você imagina, e a gente não pode te contar tudo. Ainda não.”
“Eu já sei mais do que o suficiente”, Frederick sibilou. “Ela é uma vadia sem vergonha. Uma assassina. Uma manipuladora—”
“Para com isso!”, Corinne gritou.
Mas a voz de Frederick falhou, carregada de dor. “Não, mãe. A Cassie empurrou a Sienna por ciúme. Eu vi. Ela matou nosso filho.”
O que ele não sabia era que Cassie já tinha contado tudo aos pais dele, e eles acreditaram nela.
“Você devia ter vergonha”, Adrian berrou. “Você ainda é casado com a Cassie e tem coragem de falar em perder um filho? Eu nunca amei a sua mãe, mas nunca traí ela. Você não tem vergonha na cara. Eu me arrependo de ter tido você.”
Ele começou a tossir com violência. Corinne correu para o lado dele, esfregando o peito dele.
“Tá tudo bem, Adrian. Vamos encontrar a Cassie. A gente não pode perder ela como nossa nora.”
Frederick balançou a cabeça. “Tarde demais. O divórcio já tá em andamento. Não tem nada que vocês possam fazer.”
“Seu imbecil”, Adrian cuspiu. “Você nunca mereceu ela. Você ao menos sabe quem ela é? Daqui a dois anos, você vai estar implorando pra ela de joelhos.”
“Só por cima do meu cadáver”, Frederick retrucou.
As últimas palavras de Adrian destruíram o que restava da confiança do filho. “Então vai lá, casa com aquela interesseira. E, se fizer isso, não chame a gente de seus pais nunca mais.”
Eles saíram pisando duro, arrastando Julius junto. O garoto olhou para trás, com os olhos cheios de decepção. Frederick já tinha sido o herói dele. Agora, mesmo com quinze anos, Julius sabia melhor.
“Papai!” A voz de Rose ecoou enquanto ela corria até ele. “Aqueles homens não deixaram eu ver a mamãe!”
Adrian e Corinne pararam, congelados.
“O que foi que você disse?”, Corinne perguntou.
“Vovó, vovô”, Rose disse, sem fôlego. “A mamãe foi na escola, mas os seguranças empurraram ela pra longe.”
O peito de Adrian apertou. Ele se virou para Frederick. “O que tá acontecendo?”
“A Cassie não é apta pra ser mãe”, Frederick disse, frio. “Não depois do que ela fez.”
Sienna tossiu de leve. “Tá tudo bem, Fred. Eu não guardo nada contra ela.”
A voz dela era suave, acolhedora, mas os olhos de Corinne ardiam de ódio. “Ah, para de fingir”, ela cortou, ríspida.
“Mãe, por favor”, Frederick disse. “Não fala com ela assim.”
Rose correu até a cama de Sienna. “Tia Sienna, você tá doente? Por que você tá nessa cama?”
Sienna sussurrou alguma coisa para ela, baixo demais para qualquer outra pessoa ouvir. Adrian deu um passo à frente e puxou a menina para longe.
“Se você vai se divorciar da Cassie, tudo bem”, ele disse. “Mas a Rose fica com a mãe.”
Ele esperava que isso fizesse o filho criar juízo. Mas a resposta de Frederick foi assustadora.
“Se vocês levarem ela, eu vou chamar a polícia.”
Os pais dele não deram ouvidos.
Sienna chorou. “Eu nunca quis que isso acontecesse. Fred, seus pais nunca vão me aceitar. A gente já perdeu o bebê. Talvez… talvez a gente devesse se deixar ir.”
A expressão de Frederick suavizou. Ele a puxou para perto.
“Não se preocupa. Eles só estão com raiva. Vão se acalmar. Vai dar tudo certo.”
Ele deu instruções aos seguranças, depois voltou para o lado dela.
Junto com Rose, Adrian e Corinne chegaram à mansão que Frederick antes dividia com Cassie. O coração dos dois afundou ao verem ela — pálida, exausta, mas ainda se mantendo com uma dignidade silenciosa.
Os olhos de Cassie se iluminaram quando ela viu a filha. Ela caiu de joelhos e a abraçou com força.
Mas o momento foi despedaçado pelo uivo das sirenes da polícia.
“Mamãe, o que tá acontecendo?”, Rose choramingou. “Por que a polícia tá aqui?”
