Capítulo 5 Diga isso ao seu pai
Cassie puxou Rose com força para os braços, apertando-a como se pudesse protegê-la de tudo o que esperava do lado de fora daquelas paredes. “Rose, meu amor… por favor, sobe e me espera no seu quarto, tá bem?”
A menininha hesitou, franzindo a testa; a inocência nos olhos dela se encheu de medo num instante. “Eles vão vir te pegar? O papai falou que você fez uma coisa ruim. É verdade?”
O coração de Cassie despencou, um peso doloroso se instalando tão rápido que roubou o ar dos seus pulmões. Do outro lado da sala, Adrian e Corinne ficaram tensos.
Julius estava no canto mais distante, perto da escada, com o maxilar travado, a raiva emanando dele enquanto fulminava o ar ao ouvir o nome do irmão. Mas Cassie se firmou. Ela tinha sido mãe por muito mais tempo do que tinha sido vítima.
“Você não precisa se preocupar com nada”, ela sussurrou, afastando uma mecha do cabelo de Rose atrás da orelha. “E talvez eu fique fora por um tempinho… mas você me disse que queria ficar com o papai e com a tia Sienna por enquanto, não foi?”
Rose assentiu duas vezes, movimentos pequenos e hesitantes, e Cassie sentiu a dor apertar ainda mais. Ela engoliu o nó na garganta, forçando um sorriso suave. “Boa menina. Sobe. A gente conversa depois, tá?”
Ela não sabia se algum dia teria essa conversa. Mas, pelo menos, ainda tinha aquele momento.
Rose disparou escada acima, os passinhos ecoando baixo pela casa, justo quando uma batida firme fez a porta da frente tremer.
Adrian se mexeu para atender, mas Cassie ergueu a mão. “Eu vou.”
Mesmo assim, eles foram junto — Adrian à direita dela, Corinne à esquerda, Julius logo atrás, como uma parede silenciosa de apoio.
Dois policiais uniformizados estavam na porta, com expressões arrependidas, mas profissionais. “A senhora é Cassie Monroe?”, perguntou um deles.
Cassie assentiu devagar.
O outro policial abriu um documento, o papel refletindo a luz do lustre do hall de entrada. “Senhora, temos um mandado de prisão contra a senhora, por acusação de agressão que resultou em aborto.”
O mundo ficou mudo.
Então Frederick tinha mesmo feito aquilo. Tinha levado a situação até esse ponto. A constatação atingiu Cassie como um golpe físico; o sangue dela ficou gelado.
Ele acreditava que ela tinha machucado Sienna de propósito. Depois de tudo, depois de tantos anos, era isso que ele acreditava dela.
Cassie se lembrou do dia em que trouxe Sienna para casa pela primeira vez, quando a menina ainda era frágil e assustada. Frederick nem tinha querido olhar para ela, mas Cassie insistiu, incentivou, defendeu.
Ela ajudou Sienna a encontrar um lugar na vida deles… e, de alguma forma, Sienna tinha tomado o lugar dela.
Agora estavam armando para cima dela por algo que ela não fez.
O rosto de Corinne perdeu a cor. “Isso é um absurdo. Foi o Frederick que fez isso? O meu próprio filho?” A voz dela tremeu de incredulidade e nojo. “Eu criei ele melhor do que isso. Ou pelo menos achei que tinha criado.”
“Eu sinto muito, senhora”, disse o policial, baixo. “A gente só está cumprindo a ordem.”
Cassie balançou a cabeça, as lágrimas embaçando a visão. “Isso é um engano”, ela engasgou. “Eu não machuquei ela. Ela me segurou — eu só me soltei. Eu não ataquei, eu não empurrei. Eu juro.”
Adrian deu um passo à frente, a presença dele de repente enorme, a voz cortante com uma fúria contida. “Ninguém encosta nela. Não dentro desta casa. Não antes de eu falar com o meu filho.”
Ele puxou o celular, o tom ficando afiado como uma lâmina. “Frederick. Acabaram de chegar dois policiais por causa da Cassie. Que porra você fez?”
Cassie conseguiu ouvir a voz de Frederick, fraca no viva-voz — fria, seca, defensiva. “Eu falei pra você não levar a minha filha até ela”, ele disse. “Eu deixo isso pra lá se ela assinar um documento dizendo que nunca mais vai ver a Rose.”
Cassie sentiu os joelhos fraquejarem. Talvez tivesse desabado se Corinne não tivesse se apressado até o lado dela, envolvendo os ombros trêmulos de Cassie com os braços. “Tá tudo bem, querida”, sussurrou. “A gente tá aqui. A gente vai dar um jeito.”
A voz de Adrian baixou, um aviso — baixa, mas mortal. “Retire a queixa, Frederick. Agora. Ou eu vou entrar em contato com o acionista silencioso e mandar tirar o investimento.”
Cassie ficou rígida. Aquele acionista silencioso… era ela. Aquelas ações eram para a Rose um dia. Nunca para destruição. Nunca para isso.
Um segundo de silêncio passou do outro lado da linha.
“Você ouviu”, Adrian continuou. “Conserte isso. Hoje. Você já humilhou sua esposa o bastante. Eu não vou deixar você arruinar a vida dela.”
Do outro lado, Frederick soltou o ar com força, a voz fria como gelo. “Isso é entre ela e eu. Ela sabe o que tem que fazer.”
“E eu sou seu pai”, Adrian retrucou, incisivo. “Se esses policiais arrastarem ela pra fora desta casa, você vai estar preparando meu funeral em seguida.”
Frederick deu uma risada de desprezo. “Eu só quero a minha filha. Por que você tá me ameaçando? Se você quer morrer, problema seu. E se o seu acionista precioso quiser tirar o investimento, que tire. Mas a Cassie não vai ficar com a minha filha.”
Cassie sentiu alguma coisa se partir por dentro. Um estalo emocional do qual ela nem sabia se conseguiria se recuperar. Vinte e dois anos conhecendo ele. Sete anos de casamento. E era nisso que ele tinha se transformado.
“Tá tudo bem, pai”, ela sussurrou. “Deixa ele ficar com a Rose.”
“O quê? Não.” Adrian se virou para ela, atônito. “Você é a mãe dela.”
“E ela é sua neta”, Cassie disse baixinho. “Eu sei que o senhor vai proteger ela.”
O arrependimento tomou o rosto de Adrian. Ele desejou nunca ter colocado Frederick como CEO, nunca ter entregado as rédeas da empresa a ele. Mas Cassie nunca tinha reclamado, nem uma única vez. Talvez esse tivesse sido o verdadeiro erro.
“Eu vou trazer a Rose aqui embaixo agora”, ele disse por fim. “Manda os policiais—”
“Não”, Frederick interrompeu pelo telefone. “Deixa os policiais levarem ela. Eu não confio em você, pai. Não quando você tá do lado da Cassie.”
As palavras dele estilhaçaram de vez o coração de Cassie, e ela gritou chamando a filha. “Rose, desce aqui, por favor.”
Rose apareceu no alto da escada, olhos arregalados, o rosto pálido. Cassie se ajoelhou quando a filha correu e se jogou nos braços dela.
“Rose”, ela sussurrou, ajeitando o cabelo da menina para trás. “Esses policiais… eles vão te levar pro papai. Me perdoa, eu não vou te ver por um tempinho.”
Lágrimas se juntaram nos olhos de Rose. “Por quê, mamãe?”
Cassie engoliu a dor queimando na garganta. “Você disse que queria morar com o papai e a tia Sienna por enquanto… mas escuta o que eu vou te dizer.” Ela segurou o rostinho de Rose com cuidado, forçando um sorriso corajoso que não sentia. “Eu vou voltar pra te buscar. Diz isso pro seu papai.”
Pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, ela sentiu certeza. Não em Frederick, não na justiça, mas na verdade. O mal não durava pra sempre. Ela reuniria provas. Ela exporia as mentiras. E ela voltaria pela filha.
No instante em que Rose desapareceu com os policiais, a força de Cassie se despedaçou. Ela desabou no chão, soluçando. “Eu sou uma mãe ruim? Foi errado amar ele?”
Julius se ajoelhou ao lado dela, puxando-a para um abraço firme, que a ancorava. “Cass”, ele murmurou, a fúria fervendo sob a calma, “meu irmão é um idiota. E ele vai se arrepender disso.”
Adrian soltou o ar, pesado. “Você devia ter deixado eu destruir ele. A gente criou o homem que ele é hoje.”
Cassie balançou a cabeça, erguendo o rosto molhado de lágrimas. “E o Julius? Ele também é um Jones. E a Rose? Se a empresa cair, o futuro dela cai junto.”
Corinne se aproximou e tomou Cassie nos braços. “Depois de tudo o que ele fez”, sussurrou, “você ainda pensa nessa família. Só isso já prova que ele nunca te mereceu. Eu vou ajudar a fazer esse divórcio andar… mas, Cassie, qual é o plano?”
