Capítulo 3 Sonhos destruídos
Ponto de vista de Sage
A sede do clube parecia exatamente a mesma.
Eu estava sentada na caminhonete do Ryder do lado de fora do complexo dos Steel Wolves, encarando o prédio que um dia foi o meu mundo inteiro. A mesma madeira envelhecida, os mesmos letreiros de neon de cerveja nas janelas, as mesmas motocicletas alinhadas como soldados no estacionamento.
Mas tudo parecia diferente agora. Menor. Mais áspero nas bordas do que a minha memória pintava.
— Você tá bem? — Ryder perguntou.
Assenti, sem confiar na minha voz. O trajeto desde o aeroporto ainda queimava entre nós. Eu ainda conseguia sentir o polegar dele na minha bochecha, ainda via a fome nos olhos cinza-aço quando ele quase me beijou.
Seis anos atrás, eu tinha dezoito e achava que já era adulta. Achava que sabia o que queria, achava que entendia o jeito como Ryder me olhava às vezes quando Jaxon não estava vendo. Mas ele tinha vinte e oito naquela época, o melhor amigo do meu irmão, e eu era só uma garota com uma quedinha pelo capanga perigoso que me tratava como uma irmãzinha.
Agora eu tinha vinte e quatro, e o jeito como ele me olhou naquela caminhonete não tinha nada de fraternal.
— Vamos — ele disse, saindo do veículo. — O Jaxon tá esperando.
Eu o segui em direção à sede, meus saltos batendo no asfalto. O som parecia errado ali também, chique demais, Nova York demais. Alguns membros do clube estavam do lado de fora fumando; os olhos deles me acompanharam enquanto eu passava. Eu reconheci alguns rostos, mas agora pareciam mais velhos e mais duros.
— Sage. — Tommy Kane, o irmão mais novo do Ryder, deu um passo à frente com um sorriso triste. — Sinto muito pelo seu pai.
— Obrigada. — Abracei-o rapidamente. Tommy era um doce, nada parecido com a aura perigosa do irmão mais velho.
O interior da sede me atingiu como uma parede de lembranças. Couro, cerveja e fumaça de cigarro, o cheiro da minha infância. Mesas de sinuca onde eu costumava jogar com os caras que me tratavam como a princesa deles. O bar onde meu pai reinava todas as noites.
— Sage.
Virei e vi Jaxon vindo na minha direção. Meu irmão parecia cansado, mais velho do que seus trinta e cinco anos. O peso da liderança já se assentava nos ombros dele.
— Jax. — Joguei os braços ao redor dele e, por um instante, éramos só irmãos de luto pelo pai.
— Fico feliz que você tenha voltado pra casa — ele disse contra o meu cabelo.
— É claro que eu voltei.
Ele se afastou para me olhar. — Você tá bonita. Diferente.
— Seis anos fazem isso.
— É. — Os olhos verdes dele, tão parecidos com os meus, estavam vermelhos nas bordas. — A gente precisa conversar. Sobre o que acontece agora.
Assenti e o segui até o escritório dos fundos que costumava ser do pai. O cômodo ainda cheirava à colônia e aos charutos dele. A jaqueta de couro estava pendurada no encosto da cadeira, como se ele fosse entrar a qualquer momento.
— O funeral é amanhã — Jaxon disse, sentando-se atrás da mesa. — Depois a gente descobre quem fez isso.
— Você tem alguma pista?
— Algumas. Nada concreto ainda. — Ele esfregou o rosto com as duas mãos. — Sage, eu preciso saber… você vai ficar?
A pergunta me acertou como um soco. — Como assim?
— Você vai ficar em Millbrook? Com o clube? Ou vai voltar pra Nova York depois que a gente enterrar ele?
Eu encarei meu irmão. — Eu tenho uma vida em Nova York, Jax. Um emprego, um apartamento, um noivo…
— Um noivo que não sabe quem você realmente é.
As palavras arderam porque eram verdade. — Isso não é justo.
— Não é? Você tá brincando de se fantasiar há seis anos, fingindo que é outra pessoa. O pai morreu, Sage. Você é a única família que me sobrou.
— Você tem o clube.
— Não é a mesma coisa. — A voz dele falhou. — Eu preciso da minha irmã.
A culpa se torceu no meu peito. Eu me levantei, de repente precisando de ar. — Eu não posso fazer isso agora. Eu acabei de chegar, o pai nem foi enterrado ainda, e você tá me pedindo pra escolher entre—
— Entre o quê? Entre sua família de verdade e a sua vida de mentira?
— Não é mentira! — As palavras explodiram de dentro de mim. — Eu trabalhei duro por tudo que eu tenho em Nova York. Eu construí algo limpo, seguro e normal.
— Normal. — Ele disse a palavra como se tivesse um gosto amargo. — Você acha que é isso que você quer? Ser normal?
— Sim. — Mas, mesmo dizendo, eu já não tinha tanta certeza. O jeito como Ryder me olhou na caminhonete, o peso familiar de estar em casa… tudo aquilo parecia mais real do que qualquer coisa que eu construí em Manhattan.
— Tá. — Jaxon se recostou na cadeira. — Fica pro funeral. Depois volta pra sua vida normal. Mas não espere que eu finja que isso não dói.
Saí do escritório sem dizer mais nada, o peito apertado de culpa e confusão. O salão principal da sede parecia pequeno demais, cheio demais de lembranças. Eu precisava sair, pensar, lembrar por que fui embora em primeiro lugar.
O funeral chegou e estava cheio daquela mistura de couro e tatuagens. Meu pai foi sepultado, e todo mundo se reuniu na sede do clube para beber alguma coisa.
Eu me senti sufocada e tomada por uma necessidade súbita e urgente de sair dali.
— Já vai embora? — a voz de Ryder me deteve na porta.
Virei para encará-lo. Ele se escorava no balcão, todo feito de arestas perigosas e olhos vigilantes. Mesmo aos dezoito, eu sabia que ele era problema. Agora, aos vinte e quatro, eu conseguia ver exatamente que tipo de problema ele era.
— Preciso de ar.
— É muita coisa pra absorver.
— É mesmo? — Cruzei os braços. — Porque, pra mim, parece exatamente a mesma coisa. A mesma violência, o mesmo drama, os mesmos homens achando que podem me dizer o que eu faço com a minha vida.
Algo tremulou nos olhos dele.
— O Jaxon só está com medo. Ele não quer perder mais ninguém.
— E você? O que você quer, Ryder?
A pergunta ficou entre nós como uma arma engatilhada. Ele se afastou do balcão e veio na minha direção, cada passo deliberado e predatório.
— Essa é uma pergunta perigosa, princesa.
O apelido fez minha pele esquentar. Ele me chamava assim quando eu tinha dezoito anos, antes de eu ir embora. Antes de eu crescer e aprender que contos de fadas não existem.
— Eu não tenho mais dezoito.
— Não — ele disse, parando perto o bastante para fazer meu pulso disparar. — Não tem.
— Eu tenho que ir. — Virei de novo para a porta.
— Fugindo de novo?
Girei de volta para encará-lo.
— Eu não estou fugindo. Estou indo embora. Tem diferença.
— Tem?
Antes que eu pudesse responder, eu já tinha saído e estava andando até a rua, onde eu podia chamar um táxi. O ar estava frio na minha pele, mas não tão frio quanto o olhar de Ryder quando me viu ir embora.
Duas horas depois, eu estava num avião de volta para Nova York.
Não avisei o Bradley que estava voltando mais cedo. Depois do funeral, depois de ver a dor do Jaxon e a fome do Ryder e a vida que eu deixei para trás, eu precisava de conforto. Eu precisava do normal. Eu precisava lembrar por que escolhi Manhattan em vez de Millbrook.
Minha chave girou na fechadura do nosso apartamento, e eu sorri pela primeira vez em dois dias. Casa. Segurança. A vida que construí com as minhas próprias mãos.
— Bradley? — chamei, largando a bolsa perto da porta. — Cheguei.
Nenhuma resposta. As chaves dele estavam sobre a mesinha do hall, então ele estava ali. Talvez estivesse cochilando ou no banho.
Caminhei pelo corredor em direção ao nosso quarto, já imaginando a surpresa dele quando me visse. Eu ia contar tudo: sobre meu pai, sobre o funeral, sobre o mundo de onde eu vim. Chega de mentiras, chega de fingimento. Se a gente ia se casar, ele merecia a verdade.
Empurrei a porta do quarto e congelei.
Bradley estava na nossa cama. Mas não estava sozinho.
Sarah estava embaixo dele, o cabelo loiro espalhado pelo meu travesseiro, as unhas bem-feitas cravadas nas costas dele. A mesma Sarah que me ajudou a escolher meu vestido de noivado. A mesma Sarah que era para ser minha madrinha de casamento.
Eles estavam tão mergulhados um no outro que, no começo, nem me notaram. Eu fiquei ali feito uma idiota, vendo minha vida perfeita explodir em pedaços.
Bradley me viu primeiro. Ficou imóvel, os olhos se arregalando com algo que talvez fosse culpa — se ele se importasse o bastante para sentir.
— Sage. — Ele nem teve a decência de sair de cima dela. — Você não devia voltar antes da semana que vem.
Sarah puxou o lençol para se cobrir, mas não parecia arrependida. Parecia satisfeita.
— Eu voltei mais cedo — eu disse, com uma calma surpreendente na voz. — Tola de mim.
— Isso não é… — Bradley começou.
— O que parece? — completei. — Porque parece que você está trepando com a minha melhor amiga na nossa cama.
Só então ele rolou para o lado, sem se dar ao trabalho de se cobrir.
— Sage, deixa eu explicar.
— Ah, por favor. Estou morrendo de vontade de ouvir.
Sarah se sentou, segurando o lençol contra o peito.
— Sage, me desculpa, mas—
— Mas o quê? — Virei para ela. — Mas você não conseguiu se controlar? Mas simplesmente aconteceu? Mas você está, na verdade, me fazendo um favor?
— Na verdade, sim. — Sarah ergueu o queixo, desafiadora. — Você não pertence aqui, Sage. Nunca pertenceu. Você está brincando de se fantasiar, fingindo ser uma coisa que você não é.
— Do que você está falando?
Bradley se levantou e pegou a calça.
— Ela está certa, sabia? Isso tudo nunca ia dar certo.
— Isso tudo o quê?
— Nós. — Ele vestiu a camisa, casual, como se a gente estivesse falando do tempo. — Vamos, Sage. A Sarah me contou tudo. Você realmente achou que alguém como eu se casaria com alguém como você?
As palavras me atingiram como balas.
— Alguém como eu?
— Lixo de motoqueiro tentando bancar a princesa — ele disse, com um sorriso cruel. — Não me entenda mal, foi divertido enquanto durou. Garotas brutas são incríveis na cama. Mas casar com você? Te levar para conhecer meus pais como a Sra. Hamilton? Isso nunca ia acontecer.
Eu encarei aquele homem que eu achei que amava, aquele homem que eu achei que me amava de volta. O anel no meu dedo parecia pesar uma tonelada.
— Eu estava me rebaixando, querida — ele continuou, a voz ficando mais fria a cada palavra. — Você foi uma aventura antes de eu me acertar com alguém adequado. Alguém como a Sarah, que realmente pertence a este mundo.
