Capítulo 6

POV do Dontello

Fiquei diante do espelho, ajustando as abotoaduras. O terno preto assentava bem em mim, impecável, elegante. Dei uma última conferida e empurrei para trás uma mecha do meu cabelo escuro que tinha caído sobre o rosto. Eu estava pronto pra me casar.

Fui até a janela. Lá fora, Marco andava de um lado pro outro com o celular no ouvido, dando ordens aos homens num tom seco. Eles trabalhavam rápido, checando armas, garantindo os carros, certificando-se de que estava tudo em ordem antes de irmos pra igreja.

O sol começava a nascer e a cerimônia ia começar em breve. Alguns homens estavam perto dos portões, os olhos varrendo a rua, os dedos inquietos perto dos coldres.

Acendi um cigarro e coloquei na boca, enfiando uma das mãos no bolso. A primeira tragada desceu forte. Soltei a fumaça devagar, vendo ela se enrolar no ar. Meus olhos acompanharam Marco enquanto ele colocava os homens pra se mexer.

Marco sabia o que fazia. Por isso ele era meu braço direito.

Recostei na poltrona de couro, e ela rangeu alto no silêncio do quarto.

Uma batida suave soou na porta. “Entra”, eu disse, num tom baixo. Eu já sabia que era o Marco, vindo me avisar que estava na hora.

“Tá tudo pronto, Don”, ele disse.

Apaguei o cigarro no cinzeiro, me levantei e olhei pro espelho uma última vez. Meus olhos verdes encararam os meus de volta. Sem hesitação.

Eu e Marco descemos. Ele abriu a porta do carro, e eu entrei no banco do passageiro. Os homens tomaram posição em carros diferentes. Alguns na frente, alguns atrás, e, em comboio, seguimos rápido rumo à igreja.

Quando chegamos, a igreja estava com a segurança fechada. Carros pretos alinhavam a rua, homens de terno escuro ao lado deles, olhar atento, as mãos nunca longe demais das armas. Marco saiu primeiro, varreu a área com os olhos e só então assentiu pra mim. Ajustei o terno e desci. Tinha tensão no ar e, sinceramente, era esperado. Afinal, era o meu casamento.

A igreja em si era bonita — pé-direito alto, vitrais enormes que jogavam luz colorida sobre o piso polido. Bancos pesados de madeira se estendiam pelos dois lados, lotados de rostos conhecidos. Famílias da máfia de todo canto estavam sentadas em silêncio, todas no capricho. Os homens de terno escuro; as esposas, em vestidos lindos e penteados bem feitos.

O ar estava tomado pelo cheiro de velas queimando, misturado com perfume caro e charutos.

Quando eu entrei, as cabeças se viraram. O ambiente mudou. Um por um, eles se levantaram. Alguns fizeram um aceno, outros inclinaram o chapéu de leve.

Um respeito desses não se compra com dinheiro. Eu tinha conquistado. Eu tinha lutado pra chegar ao topo, pra ser o número um no submundo da cidade. Então aquelas reverências eram um reconhecimento silencioso de quem eu era.

Em resposta, devolvi um aceno lento, mantendo o rosto impassível.

Então, mais à frente, eu vi um antigo parceiro de negócios. Francis Marona. Ele controlava alguns dos maiores cassinos de Las Vegas. O velho estava sentado com as costas retas, vestido num terno de três peças impecável. Ele estava nessa vida havia mais tempo do que a maioria, com uma reputação tão sólida quanto a palavra dele. Ele encontrou meu olhar e inclinou o chapéu, um sorrisinho de canto brincando nos lábios.

Eu parei por um segundo, o suficiente pra ele entender que eu tinha visto. Depois continuei andando.

Caminhei até o altar e avistei a família LaRosa na frente, mas procurei não dar atenção demais a eles.

O padre ficou parado ali, com os olhos se movendo de um lado para o outro, como se procurasse uma saída. Vi as mãos dele mexendo nervosas na estola e, quando finalmente me cumprimentou, a voz falhou. Eu tinha certeza de que ele só queria acabar logo com aquilo, porque não se sentia à vontade no mesmo ambiente que homens perigosos.

Meu olhar passou pela multidão, vasculhando cada rosto. O peso da minha arma pressionava minha cintura. Deslizei a mão até o coldre, os dedos roçando na empunhadura. Aquilo me acalmou.

O relógio na parede fazia tic-tac, cada segundo se arrastando enquanto eu esperava. Então as portas se abriram com um rangido alto. O pianista atacou a primeira nota, e a marcha nupcial encheu a igreja. A sala ficou em silêncio absoluto.

Ouvi saltos batendo no piso. Todo mundo estava olhando, mas eu não me virei. Eu não precisava.

Logo, a noiva estava diante de mim — Miranda, de véu e ereta. Mais alta do que eu lembrava. Talvez por causa do salto. Eu deixei pra lá, tentando não pensar demais.

Olhei por cima do ombro. Marco estava atrás de mim, bem alerta, com uma mão repousada na arma.

O padre pigarreou e começou a cerimônia. A voz dele estava firme, mas eu via o suor se formando na têmpora.

“Caríssimos, estamos aqui hoje para testemunhar a união de Donatello Morano e Miranda LaRosa em santo matrimônio. Oremos pela orientação de Deus, por sabedoria e bênçãos sobre o amor deles e o compromisso que assumem um com o outro.”

Eu mal prestei atenção. Minha mente continuou afiada, varrendo o salão, lendo cada movimento.

Então vieram os votos.

“Donatello Morano, você aceita Miranda LaRosa como sua legítima esposa, para amá-la e honrá-la, na alegria e na tristeza, em todos os desafios e alegrias da vida?”

“Aceito”, eu disse sem hesitar.

“E você, Miranda LaRosa, aceita Donatello Morano como seu legítimo esposo, para amá-lo e honrá-lo, na alegria e na tristeza, em todos os desafios e alegrias da vida?”

Silêncio.

O ar da igreja ficou pesado. Todo mundo esperava. Eu estreitei os olhos para ela e então olhei de relance para a família dela. Eu esperava que eles soubessem que eu não teria problema nenhum em enfiar uma bala nela se ela ousasse me envergonhar.

Ela pigarreou uma vez, depois outra. O microfone pairava perto dos lábios dela, mas nenhuma palavra saía.

“Aceito”, ela disse enfim.

Tinha algo naquela voz que me fez parar. Era um pouco grossa — grossa demais.

O padre assentiu e então se voltou para mim. “Você pode levantar o véu da noiva.”

Eu dei um passo à frente, estendendo a mão para o véu. Mas, antes que eu pudesse tocar, ela recuou um passo.

Minhas sobrancelhas se juntaram. Que porra era essa?

Eu a examinei com mais atenção. As mãos enluvadas tremiam, agarrando o vestido com força demais. Tinha alguma coisa errada.

Virei de leve, encontrando o olhar de Marco. Um pequeno movimento de cabeça bastou — fica esperto.

Então avancei de novo, mais devagar desta vez. Minha carranca se aprofundou, mas ela não se mexeu. Só ficou ali, rígida como pedra.

Agarrei o véu e puxei para trás num movimento rápido.

Meu fôlego travou quando vi com quem eu estava me casando.

Não era a Miranda!

Era um homem! Eu estava me casando com a porra de um homem num vestido de noiva!

Mandíbula marcada, olhos azuis e uma expressão fria. Os lábios dele se apertaram numa linha fina, o pomo de Adão subindo e descendo de leve. O vestido caía estranho nos ombros e foi aí que eu notei também que as luvas estavam apertadas demais nos dedos.

Um silêncio caiu sobre a igreja.

Eu vi a mão de Marco apertar ainda mais a arma.

“Que porra é essa?”

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