Capítulo 1 O início

Londres, 1808

Em toda a velha Londres, não se falava de outra coisa senão da chegada do décimo duque de Beldon. Dono de uma fortuna considerável, o nobre estivera longe do país por muitos anos e, agora que retornava, despertava a curiosidade dos salões mais distintos. Contudo, entre todas as informações publicadas no jornal, uma palavra parecia saltar da página: SOLTEIRO. Bastava aquela pequena informação para agitar o coração das jovens em busca de um marido e alimentar os sonhos de suas famílias. Um duque, rico e sem esposa, era, sem dúvida, um partido extraordinário.

— Um partido e tanto — murmurei, deixando o exemplar de notícias sobre a mesa.

— Depois de terminarmos o café da manhã, iremos experimentar nossos vestidos novos e fazer algumas compras — anunciou mamãe, depositando a delicada xícara de porcelana sobre o pires.

— Hoje é o baile de lady Hughes, querida irmã! Você está tão esquecida quanto uma velha! — Grace, minha irmã mais nova, provocou-me, com um sorriso travesso. — Ou está pensando em lorde Benjamin e no pedido de casamento dele?

Olhei para ela, fingindo indignação, embora a brincadeira tivesse arrancado de mim um sorriso.

— Lorde Benjamin é velho demais! Não aceitarei o pedido dele. E, se está tão interessada, minha querida irmã, deixo-o todinho para você!

Desde cedo, eu aprendera que as pessoas gostavam de decidir o que era melhor para uma jovem. Bastava completar certa idade para que os elogios à aparência viessem acompanhados de perguntas sobre pretendentes, alianças. Eu sorria, respondia com educação e tentava mudar de assunto, mas sentia crescer a inquietação. Não queria que alguém escolhesse por mim, tampouco desejava ferir minha família. Apenas esperava que me permitissem reconhecer, no meu próprio tempo, a pessoa com quem dividiria os dias.

A conversa prosseguiu entre planos e provocações, enquanto a manhã avançava. Mamãe parecia satisfeita com a perspectiva do baile, e Grace não perdia a oportunidade de brincar com minhas tentativas de escapar do assunto casamento. Eu também as amava, apesar das diferenças, e sabia que aquela insistência vinha do desejo sincero de me ver feliz. O problema era que felicidade e conveniência nem sempre caminhavam lado a lado, apesar da insistência da sociedade.

Queria sentir o coração acelerar ao encontrar determinado olhar, experimentar aquele frio na barriga sobre o qual tantas moças suspiravam e ter a impressão de que o mundo, por um breve instante, deixava de existir ao redor. Talvez fosse uma ideia romântica demais, alimentada pelos livros e pelos sonhos que guardava em segredo. Ainda assim, não conseguia aceitar que o casamento fosse apenas um acordo conveniente entre famílias.

— Sebastian e Nathan chegam amanhã — informou mamãe, trazendo a conversa de volta aos assuntos que mais lhe agradavam. — Com certeza, nos acompanharão ao baile. Afinal, o duque é muito amigo de Sebastian desde os tempos da faculdade.

Ela voltou os olhos para mim, e reconheci imediatamente aquela expressão. Era o olhar que anunciava uma ideia cuidadosamente preparada, geralmente relacionada ao meu futuro matrimonial.

— Ele seria um partido e tanto para você, Caterina.

Soltei um suspiro discreto. Mamãe mal conhecia o homem e já parecia ter organizado, em sua imaginação, todos os passos necessários para nos aproximar.

— Mamãe, eu nem sequer o conheço!

— Não custa nada pedir que seu irmão a apresente ao duque — respondeu ela, como se a solução fosse simples. — Tenho certeza de que ele se renderá aos seus encantos. Você é muito bela, filha, e está na idade perfeita para se casar.

O pior era saber que, com a chegada de Sebastian e Nathan, a pressão provavelmente aumentaria. Nathan, sempre brincalhão, costumava transformar qualquer assunto sério numa oportunidade para me provocar. Era um irmão maravilhoso, embora sua capacidade de encontrar graça nas minhas aflições nem sempre fosse reconfortante. Sebastian, por outro lado, era muito mais sério. Sendo o mais velho, assumira uma postura protetora desde a morte de nosso pai, e sua opinião tinha grande peso dentro da família.

Por trás daquela aparência severa, contudo, havia um irmão dedicado, que se preocupava sinceramente comigo. Eu sabia disso e jamais deixaria de ser grata por sua proteção. Ainda assim, quando ele e mamãe se uniam para organizar apresentações e encontros com possíveis pretendentes, eu me sentia cercada por todos os lados. Os bailes, que deveriam ser ocasiões de música e diversão, acabavam parecendo entrevistas para um cargo que eu nunca me candidatara a ocupar.

Não era que eu já estivesse apaixonada pelo duque — seria absurdo sentir algo por um homem que nunca vira. Minha curiosidade, porém, havia sido despertada. Queria descobrir se Edward Liam Hughes correspondia à imagem que a sociedade construíra dele ou se, por trás do título e da fortuna, existia alguém muito diferente do que todos esperavam.

Quando finalmente terminamos, apanhei meu chapéu e me preparei para sair. A luz da manhã atravessava as janelas, iluminando os móveis e os tecidos espalhados, enquanto o movimento de Londres parecia chamar por nós do lado de fora. Ajustei as fitas do chapéu e acompanhei minha mãe e minha irmã até a porta.

Não podia negar que desejava conhecer o tão comentado duque de Beldon. Talvez fosse apenas curiosidade, talvez uma vontade de descobrir se aquele homem despertaria em mim alguma emoção verdadeira. Eu não esperava que um título nobre ou uma fortuna me fizessem perder a razão. Se algum dia me casasse, queria que fosse por algo mais profundo do que conveniência ou pressão familiar.

Com esse pensamento, ergui o queixo, respirei fundo e segui mamãe e Grace em direção à carruagem. O dia prometia compras, conversas sobre vestidos e, sem dúvida, novas tentativas de convencer-me a pensar no casamento. Eu ainda não sabia o que me aguardava naquela noite, nem que o nome tantas vezes repetido no jornal logo deixaria de ser apenas uma notícia distante. Por enquanto, era somente uma curiosidade guardada comigo — e eu estava determinada a descobrir, por conta própria, se havia algum motivo para toda aquela agitação.

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