Capítulo 2 Um olhar do outro lado do salão

O dia inteiro fora cansativo. Percorremos inúmeras lojas, experimentamos tecidos, escolhemos acessórios e cumprimentamos conhecidos que também se preparavam para o acontecimento mais comentado daquela noite. O baile de lady Beldon ocupava as conversas de toda a velha Londres, sobretudo entre as jovens solteiras. A chegada do filho da anfitriã, depois de tantos anos longe do país, oferecera à sociedade assunto suficiente para alimentar semanas de especulações. E, como se o título de duque e a fortuna não bastassem, Edward Hughes continuava solteiro.

Quando voltamos para casa, encontrei Nathan entrando logo atrás de Sebastian. Meu irmão abriu os braços.

— Nada melhor do que chegar em casa e encontrar a família inteira esperando por nós! — declarou. — E como estão minhas queridas irmãzinhas?

Grace e eu o abraçamos.

— Ah, meu irmão, como é bom vê-lo novamente! — exclamei.

— Estão cada dia mais bonitas — disse Sebastian ao me cumprimentar, antes de voltar a atenção para Grace. — Você também, querida.

— É tão bom tê-lo novamente conosco — respondi.

Sebastian, aos trinta anos, era alto, de ombros largos, pele bronzeada, cabelos castanho-escuros e olhos azuis. Desde a morte de nosso pai, cinco anos antes, assumira a responsabilidade de cuidar da família e prometera que só pensaria em casamento quando Grace e eu estivéssemos bem casadas. Sua proteção, embora amorosa, às vezes se tornava sufocante.

— Hoje recebi notícias de que meu amigo Edward, o duque de Beldon, chegou a Londres depois de vários anos viajando — contou Sebastian.

— É só nisso que se fala — comentou mamãe. — Lady Beldon oferecerá um baile para celebrar o retorno do filho. Naturalmente, vocês nos acompanharão esta noite.

— Creio que sim — respondeu Sebastian.

A curiosidade voltou a me percorrer. Edward era apenas um nome no jornal, acompanhado de um título e de uma palavra que provocava suspiros. Seria tão encantador quanto diziam? No fundo, desejava descobrir se aquele encontro mudaria algo em minha vida, embora não tivesse coragem de confessar isso.

Perto das seis, a casa se agitou com criadas, vestidos e joias. Grace surgiu diante de mim usando um vestido em tons de rosa e branco, que realçava sua beleza delicada. Com os cabelos loiros cuidadosamente arrumados e os olhos azuis brilhando como o céu num dia de verão, parecia um anjo.

— Como estou, irmã? — perguntou ela, dando uma volta.

— Está linda, como sempre. Tenho certeza de que os cavalheiros ficarão encantados.

Grace riu.

Nathan bateu à porta e, quando Mary o deixou entrar, observou-nos com uma expressão teatral.

— As belas damas já estão prontas? Mamãe e Sebastian esperam por vocês na sala.

— Estão divinamente belas! Se eu não fosse irmão de vocês, certamente tentaria conquistar uma dança.

Grace riu e aceitou o braço que ele lhe ofereceu.

Nathan ofereceu o outro braço a mim e nos conduziu até a carruagem, sempre com seu sorriso fácil e os olhos verdes cheios de vivacidade.

Na carruagem, a conversa fluiu animada. Permaneci em silêncio, observando as ruas iluminadas e imaginando como seria o duque. Afinal, era apenas curiosidade.

Em poucos minutos, o cocheiro parou diante da residência iluminada. A fila de carruagens mostrava que boa parte da aristocracia londrina comparecera. Entramos entre cumprimentos e conversas misturadas ao som da música.

Lady Beldon veio ao encontro de mamãe. Era uma mulher elegante, de cabelos castanhos e expressivos olhos azuis-escuros.

— Querida Anna, que prazer recebê-la! — disse ela, abraçando minha mãe.

— O prazer é meu. Lembra-se dos meus filhos, Sebastian e Nathan? E destas duas, Caterina e Grace?

— Claro que me lembro das meninas! Quanto aos rapazes, recordo-me deles ainda crianças. Como cresceram!

Depois dos cumprimentos, avistei lorde Benjamin avançando em minha direção, com passos decididos e um sorriso convencido.

— Senhorita Caterina, é um prazer revê-la — disse ele, inclinando a cabeça.

— Lorde Benjamin — respondi, oferecendo-lhe um sorriso cortês.

— Conceder-me-ia esta dança?

Aceitei sua mão para não parecer indelicada. Sabia que desejava uma resposta ao pedido de casamento. Aos quarenta e cinco anos, Benjamin parecia debilitado, e comentava-se que sofria de gota. Mais desconfortável era a maneira descarada como me observava.

— Cada vez que a encontro, a senhorita está ainda mais bela — murmurou, apertando-me contra seu corpo magro além do necessário.

— Obrigada — respondi com um sorriso forçado, desejando que a música terminasse depressa.

Procurei Sebastian com os olhos. Meu irmão observava a cena com desaprovação, mas não foi ele quem prendeu minha atenção. Ao seu lado estava um homem muito mais alto, talvez com um metro e oitenta, de pele morena e cabelos negros, cortados com elegância e penteados para trás. Vestia um traje de noite impecavelmente negro e conversava com Sebastian. Então, como se meu irmão tivesse mencionado algo a meu respeito, o desconhecido virou o rosto na minha direção.

Nossos olhares se encontraram.

Um calor inesperado percorreu-me. Seus olhos tinham uma cor exótica, impossível de distinguir àquela distância, e havia neles uma intensidade que me fez esquecer por um instante a música e os convidados. Ele sorriu discretamente e voltou a atenção para Sebastian, mas eu continuei intrigada com aquela sensação repentina.

A voz de lorde Benjamin interrompeu meus pensamentos.

— Então, a senhorita aceita acompanhar-me até o escritório do duque? Poderemos conversar com mais privacidade sobre minha proposta de casamento.

Virei-me para ele, certa de que havia escutado mal.

— Não.

O sorriso convencido desapareceu por um instante.

— Mas a senhorita acabou de concordar comigo — protestou ele, apertando minhas mãos mesmo depois de a dança terminar.

A pressão dos dedos dele provocou dor e indignação. Puxei as mãos com firmeza.

— Solte-me, lorde Benjamin!

Sem esperar resposta, afastei-me dele e caminhei depressa na direção de Sebastian. Meu coração batia descompassado, mas já não sabia se era pela raiva, pelo constrangimento ou pela lembrança daqueles olhos desconhecidos. Uma coisa, entretanto, estava clara: eu não permitiria que alguém decidisse meu futuro por mim.

Enquanto atravessava o salão, tive a estranha impressão de que aquela noite estava apenas começando.

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