Capítulo 4 Desejo e passado
Narrado por Caterina Harmon
Não consegui conter o sorriso que insistia em surgir em meus lábios. Quando Edward aceitou o convite para jantar em nossa casa, percebi que seus olhos se demoraram por um instante em minha boca.
Se aquele homem não tivesse interferido, eu poderia ter ficado à mercê de lorde Benjamin. A lembrança fez meu rosto arder de vergonha. Num impulso de alívio, eu me atirara nos braços de Edward e, para completar minha imprudência, beijara seus lábios. A memória era confusa, mas a sensação permanecia nítida: aquele contato fora doce, intenso e perigosamente inesquecível.
Um calor desconhecido percorreu meu corpo. Precisava de ar e, depois de pedir licença, afastei-me dos convidados. O baile chegava ao fim quando mamãe e Grace se aproximaram de mim, ambas com expressões curiosas.
— O que foi aquilo, Caterina? — perguntou mamãe.
— Você saiu sem sequer se despedir do duque! — acrescentou Grace, como se eu tivesse cometido uma falta imperdoável.
— Eu não estava me sentindo bem, mamãe — expliquei, tentando parecer tranquila.
— Falta de modos, querida. Deverá desculpar-se com ele durante o jantar de amanhã. Será uma oportunidade preciosa para conversar com o duque.
Seguimos para a carruagem, e mamãe ainda parecia determinada a transformar qualquer encontro numa possibilidade de casamento.
— Não devemos esquecer que ele é um partido e tanto — comentou ela.
Ainda assim, não consegui impedir a onda de calor que voltou a me envolver. Amanhã seria a ocasião perfeita para me aproximar de Edward, agradecer-lhe por sua bravura e, sobretudo, por ter mantido em segredo o que acontecera no escritório. Se sua discrição não me protegesse, talvez naquele momento eu já estivesse comprometida com lorde Benjamin.
Eu não sabia se o duque pensava em mim com a mesma intensidade, mas a possibilidade era suficiente para tornar cada minuto de espera quase insuportável. Precisava manter a prudência, embora meu coração parecesse disposto a ignorar todos os avisos.
Durante a viagem para casa, a conversa girou quase inteiramente em torno do duque de Beldon. Sebastian o conhecia havia muitos anos e sabia bastante sobre suas viagens e aventuras. No entanto, o que mais despertou minha atenção foi a menção a um antigo desentendimento entre Edward e o falecido duque, seu pai. Meu irmão não conhecia os detalhes, o que apenas aumentou minha curiosidade.
Havia algo por trás da beleza e dos modos reservados de Edward. Seu olhar carregava uma sombra que não combinava com a imagem de um homem rico, livre e admirado. Quanto mais pensava nele, mais desejava descobrir os segredos que guardava. Se existissem feridas ainda abertas, queria compreender sua dor e, se ele me permitisse, ajudá-lo a encontrar algum conforto.
Com esse pensamento, senti a carruagem estremecer ao parar diante de nossa casa. Só então percebi que passara boa parte do caminho de olhos fechados, sonhando acordada com o homem que me fazia sentir como uma árvore sacudida por uma tempestade.
Uma parte de mim ainda desejava acreditar que aquela noite pudesse mudar algo entre nós, apesar dos obstáculos.
Narrado por Edward Liam
O dia fora exaustivo. Entre documentos, livros de contas e assuntos da propriedade, meus pensamentos insistiam em retornar à encantadora senhorita Caterina. O baile da noite anterior me pegara desprevenido. Eu não imaginara que minha mãe organizaria uma recepção tão grandiosa, muito menos que convidaria quase todas as jovens solteiras de Londres.
Apenas uma mulher permanecera em minha memória: aquela que se chocara contra mim enquanto fugia de um pretendente inconveniente. Eu compreendia por que Benjamin desejava prendê-la num casamento. Caterina era bela demais para passar despercebida. Lembrava vagamente de uma menina rechonchuda, de pele clara e olhos verdes, que vira muitos anos antes. Agora, ela se transformara numa tentação difícil de ignorar.
Se não fosse irmã de Sebastian e não pertencesse à aristocracia, talvez eu tentasse conhecê-la melhor. A ideia de tê-la como amante era tentadora, mas eu sabia que não devia sequer alimentá-la. Ela merecia um futuro que eu não poderia oferecer.
Enquanto me perdia nesses pensamentos, uma batida à porta me assustou. A pena escorregou de meus dedos e manchou a declaração que acabara de escrever. Irritado por ter de recomeçar, ordenei que entrassem.
A criada apareceu timidamente.
— Perdoe-me por incomodá-lo, milorde. O senhor pediu que eu o lembrasse de que são seis e meia. Seu jantar está marcado para as sete.
Agradeci, organizei os papéis e segui para o quarto. O banho estava preparado, e minhas roupas aguardavam dispostas sobre a cama. Tomei um banho, vesti-me e conferi o relógio. Restavam quinze minutos.
Ao passar perfume, fui tomado por uma lembrança que sempre tentava manter enterrada. Anos antes, minha mãe e eu viajáramos de nossa casa de campo para surpreender meu pai em Londres. Ao chegarmos, encontramo-lo embriagado, acompanhado da amante e de alguns amigos. Assim que nos viu, seu rosto se contorceu de desprezo.
— O que faz aqui com esse aleijado? — gritara para minha mãe. — Já lhe disse que não quero essa aberração diante de mim! Saia daqui com esse inútil, ou eu a expulsarei pessoalmente!
A lembrança apertou minhas mãos em punhos. Eu ainda podia ouvir a crueldade de sua voz.
Um solavanco da carruagem interrompeu minhas recordações. Havíamos chegado à residência dos Harmon. Eu esperava encontrar o mordomo alto, magro e careca que costumava receber as visitas, mas, para minha surpresa, foi Caterina quem abriu a porta.
Ela me recebeu com um sorriso luminoso.
— Seja bem-vindo, milorde! É um prazer recebê-lo em nossa casa.
Havia timidez em seu olhar, e isso a tornava ainda mais encantadora. Tomei sua mão e depositei um beijo sobre ela. Senti-a estremecer.
— O prazer é todo meu — murmurei. — E ainda maior por poder sentir novamente seu perfume inebriante.
Eu deveria ter soltado sua mão. Deveria ter lembrado que ela era irmã de meu melhor amigo e que eu fizera uma promessa a mim mesmo: não permitir que ninguém se aproximasse o bastante para descobrir minhas fraquezas. Em vez disso, deixei que o desejo falasse mais alto.
Puxei-a para junto de mim. Seus olhos verdes se arregalaram, mas ela não se afastou. Por um instante, ficamos tão próximos que pude sentir sua respiração tocar meu rosto. Então, incapaz de resistir por mais tempo, inclinei a cabeça e beijei seus lábios vermelhos.
Naquele momento, compreendi que o jantar seria muito mais perigoso do que eu imaginara.
