Capítulo 1

Capítulo 1

LAKE

O fedor de legumes apodrecendo e comida estragada foi a primeira coisa que invadiu minhas narinas quando comecei a despertar lentamente, depois de ter ficado inconsciente.

Minha bochecha estava pressionada contra o chão frio do depósito do restaurante, e cada parte do meu corpo parecia rígida demais, doendo em protesto quando tentei me mexer.

Eu ainda conseguia sentir o gosto de sangue na língua, por causa do corte recente que tinha feito, e sentia meu olho esquerdo tão inchado que estava quase fechado.

Quanto tempo eu tinha ficado inconsciente?

As lembranças voltaram em ondas dolorosas enquanto eu fazia uma careta e segurava a cabeça. Tinha sido mais um dia de merda como de costume para mim, até chegar a hora de fechar. Aí apareceram três alfas que eram clientes habituais, tinham bebido demais e acharam que podiam pedir sexo à lavadora de pratos.

Quando eu recusei educadamente a proposta — se é que se pode chamar de proposta agarrar minha bunda e sugerir que eu “ganhasse dinheiro de verdade deitada de costas” — eles ficaram bravos. Muito bravos comigo, e mudaram num instante.

— Acha que é boa demais pra gente, aberração? — o líder tinha dito, com o hálito alcoólico quente no meu rosto, enquanto eu franzia o nariz de nojo.

— Uma ômega sem parceiro como você devia agradecer pela atenção.

Eu tinha tentado explicar que precisava ir buscar meu irmão na escola, que já estava atrasada, mas eles só riram de mim, elogiaram minhas desculpas esfarrapadas e prometeram me dar um jeito.

O primeiro golpe acertou minha bochecha e me fez cair atrás do balcão de preparo. O resto foi um borrão, enquanto eu sentia punhos, botas e risadas até tudo ficar escuro.

Agora eu estava sozinha no depósito, onde tinham me largado como lixo entre caixas de enlatados.

Senti o pânico correr pelo meu corpo enquanto eu procurava meu celular com mãos trêmulas.

A tela rachada mostrava 17:47 em dígitos verdes.

Não. Não, não, não.

A aula do Ollie acabava às 15h30. Eu devia buscá-lo até, no máximo, 16h.

Ele estaria me esperando, provavelmente assustado e se perguntando onde eu estava. O programa depois da escola só ia até as 18h, e depois disso...

Eu me arrastei até ficar de pé, ignorando a dor aguda nas costelas e a forma como o cômodo parecia girar ao meu redor.

Meu reflexo na porta de metal do freezer mostrava um rosto que daria pesadelos até em adultos — lábio partido, olho roxo e sangue seco no queixo. Mas não havia tempo para me limpar e me cuidar direito antes de sair.

Eu precisava chegar até Ollie.

O salão principal estava vazio e escuro, e todas as cadeiras tinham sido empilhadas sobre as mesas, deixadas para a equipe de limpeza noturna cuidar. Eu cambaleei enquanto seguia em direção à saída dos fundos. O Sr. Donovan não estava em lugar nenhum, enquanto eu olhava em volta. Ele provavelmente tinha ido para casa horas antes, sem saber que os clientes dele tinham espancado até desmaiar a lavadora de pratos no depósito. Ou talvez simplesmente não se importasse comigo, desde que eu não morresse.

O ar frio de novembro parecia um tapa quando saí do beco atrás do restaurante. Apertei a jaqueta fina mais junto do corpo e comecei a correr em direção à Jefferson Elementary; cada passo mandava uma fisgada de dor pelo meu corpo surrado, mas eu não podia parar.

As ruas pareciam se embaralhar enquanto eu corria, a respiração vindo em arfadas irregulares que viravam pequenas nuvens visíveis no ar.

Pessoas normais estavam indo para casa depois do trabalho, caminhando em grupos, rindo e falando dos planos para a noite. Nenhuma delas sequer me lançou um olhar: um ômega mancando, disparado pela calçada, com o desespero estampado no rosto cheio de hematomas.

Quando cheguei à escola, eram 18h03. O estacionamento estava vazio, exceto por um carro da segurança, e a maioria das janelas estava escura. Eu atravessei a entrada principal de supetão, o coração batendo forte contra as costelas.

— Ollie! — chamei, minha voz ecoando no corredor vazio enquanto um medo gelado descia pela minha espinha por não vê-lo. Isso não podia estar acontecendo agora. — Ollie, cadê você?

— Por aqui, filho.

Virei na direção da voz e vi o segurança da noite — o Sr. Patterson, um beta gentil de uns sessenta e poucos anos, que sempre tinha tido paciência comigo quando eu me atrasava. Ele estava parado do lado de fora da secretaria e, ao lado dele...

— Lake!

Ollie se lançou em mim, os bracinhos envolvendo minha cintura num abraço feroz, apertando com força, feliz por me ver. Engoli um gemido quando ele pressionou minhas costelas machucadas, mas abracei de volta com tudo o que eu tinha. Ele estava seguro. Estava ali. Eu não tinha falhado com ele por completo.

— Desculpa — sussurrei no cabelo escuro dele, a voz quebrando de choro enquanto eu puxava um ar trêmulo e soltava devagar. — Desculpa por me atrasar, amigo. Eu fiquei preso no trabalho e...

— Eu sabia que você vinha — disse Ollie, simplesmente, afastando-se um pouco para me olhar com aqueles olhos azuis confiantes. — Eu falei pro Sr. Patterson que você ia aparecer. Você sempre vem me buscar.

A fé que ele tinha em mim fez meu peito apertar de culpa, e eu assenti sem saber o que dizer diante daquilo. Mesmo depois de todas as vezes em que eu me atrasara, de todas as vezes em que eu aparecera surrado e quebrado, ele ainda acreditava em mim. Ainda confiava que eu nunca o abandonaria.

— Filho — disse o Sr. Patterson com gentileza, o rosto enrugado tomado de preocupação ao reparar na minha aparência. — Você está bem? Parece que passou por uma guerra.

— Eu estou bem — menti, a mesma mentira que eu repetia havia anos, enquanto dava de ombros e forçava as palavras a saírem. — Foi só um... um acidente na cozinha. Óleo quente.

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