Capítulo 2
Capítulo 2
O Sr. Patterson não pareceu nem um pouco convencido da mentira que eu tinha contado para não passar vergonha, mas também não insistiu, apenas assentiu, como quem entende. Ele bagunçou o cabelo de Ollie e nos deu um sorriso cansado.
— Bom, ainda bem que você chegou. Esse garotinho já estava me preocupando, esperando por tanto tempo, e lá fora estava ficando escuro demais. Talvez seja melhor você arrumar um plano B, só por precaução, caso isso aconteça de novo.
Um plano B. Como se eu tivesse mais alguém na minha vida que pudesse me ajudar sem pedir compensação sexual. Como se existisse alguém que assumisse de bom grado a responsabilidade pelo filho de um ômega.
— Vou dar um jeito — eu disse, abrindo um sorriso para ele, pegando a mão de Ollie na minha enquanto acrescentava, com gratidão na voz: — Obrigado por ficar com ele.
— Claro. Vocês dois se cuidem e cheguem em casa em segurança, ouviu? E, garoto... — a voz do Sr. Patterson baixou. — Se algum dia você precisar de ajuda, ajuda de verdade, você sabe onde me encontrar.
Eu assenti, sem confiar que minha voz não me abandonaria se eu tentasse falar, e conduzi Ollie até a saída.
Enquanto atravessávamos os corredores vazios, consegui ver nosso reflexo no vidro de uma janela.
Um ômega surrado, mal conseguindo se manter em pé, segurando a mão de um menininho que olhava para ele como se fosse um herói. Que ironia.
— Você está com fome? — perguntei a Ollie quando saímos da escola, soltando o ar e olhando para ele. — A gente pode parar em algum lugar pra jantar e encher a barriguinha de umas gostosuras como compensação por eu ter demorado tanto...
Era mentira. Eu devia ter, no máximo, três dólares no bolso e não fazia ideia de onde viria a minha próxima refeição.
Mas eu precisava manter ele distraído, precisava dar a ele uma última lembrança feliz antes de...
Antes de quê? O pensamento que estava no fundo da minha mente o dia inteiro finalmente veio à tona por completo.
Era o mesmo pensamento que vinha ficando mais forte, mais alto, gritando na minha cabeça a cada surra que eu levava dos cobradores e de Alfas sexualmente privados, a cada emprego perdido em que eu era o descartável a ser mandado embora depois de receber uma mixaria, a cada aviso de despejo colado no nosso “lar” improvisado num depósito, zombando de mim por eu não conseguir dar ao meu irmão a vida que ele merecia.
A ideia de que talvez, só talvez, existisse uma saída desse pesadelo que não envolvesse ver Ollie sofrer.
— Eu já comi — disse Ollie, apertando minha mão com cuidado, e completou, me dando mais contexto: — A Sra. Martinez, do escritório, me deu bolacha e suco. Ela disse que eu fui muito corajoso por esperar tanto.
Corajoso. Meu irmão de cinco anos era mais corajoso do que eu jamais tinha sido. Ele encarava cada dia com esperança e otimismo, apesar de tudo que a gente tinha passado.
Ele merecia muito mais do que essa vida; mais do que um irmão que não conseguia nem se proteger, quanto mais proteger uma criança.
— Foi gentil da parte dela — eu disse, guiando-o até o ponto de ônibus. — Ei, que tal a gente fazer uma coisa especial hoje à noite? Só nós dois.
Os olhos de Ollie brilharam.
— Sério? Tipo o quê?
— Que tal a gente ir ao oceano? Lembra como você sempre quis ver de noite? Com a lua refletindo nas ondas?
Eram três horas de ônibus até o litoral, mas eu tinha dinheiro suficiente para duas passagens só de ida. Só ida era tudo de que a gente ia precisar.
“Será que dá mesmo?” Ollie quicava animado ao meu lado, empolgado com a ideia, embora um lampejo de preocupação atravessasse sua expressão quando a empolgação arrefeceu e ele perguntou:
“Não vai estar frio?”
“A gente vai se agasalhar bem”, eu disse, forçando um sorriso, e acrescentei: “Vai ser uma aventura.”
Quando o ônibus encostou no ponto, ajudei Ollie a subir, com a cabeça já decidida sobre o que eu ia fazer.
O oceano seria tranquilo. Frio, mas tranquilo. E rápido, se eu o mantivesse bem apertado. Ele não sofreria como eu tinha sofrido. Ele não cresceria para ser quebrado, usado e esmagado por um mundo que via os ômegas como nada além de objetos para serem possuídos e nunca ouvidos. Ômegas como nós não tinham um minuto de trégua nem davam sorte, não importava o que fizéssemos.
A viagem de ônibus passou depressa enquanto eu ouvia o falatório empolgado de Ollie sobre golfinhos e conchas e se a gente poderia ver alguma baleia naquela noite, apesar de estar tarde e elas provavelmente estarem dormindo.
Eu o mantive junto de mim, gravando na memória como o corpo dele se encaixava no meu, o jeito como ele tinha o meu cheiro, só que mais inocente, como tudo o que havia de bom no mundo.
Ele era o meu mundo. A única coisa que já tinha feito esse pesadelo de vida valer a pena.
Quando chegamos à costa, já era quase nove da noite. A praia estava deserta; não havia ninguém à vista por quilômetros. Só areia e ondas que pareciam não ter fim, estendendo-se pela escuridão.
A lua estava cheia naquela noite, iluminando o caminho até a água que parecia nos chamar, pedindo que chegássemos mais perto.
“É tão lindo”, Ollie sussurrou — embora eu o ouvisse perfeitamente —, a voz cheia de admiração e encanto, enquanto esticava o pescoço tentando absorver tudo.
“Olha como é grande, Lake. Vai até o infinito.”
“É”, eu disse, com a garganta apertada por um nó que não descia, por mais que eu engolisse.
“Até o infinito.”
Caminhamos até a beira d’água, as ondas lambendo nossos pés. O frio era brutal, mas Ollie não pareceu notar no começo; estava encantado demais com a visão do oceano à noite.
Ele apanhou conchas e me mostrou, falando que a gente devia voltar no verão, quando estivesse quente o bastante para nadar.
Não haveria verão. Não para nós.
“Ollie”, eu disse, me ajoelhando para ficar na altura dele e chamar sua atenção. Os olhos dele deixaram as conchas que admirava e se voltaram para mim.
“Você sabe que eu te amo mais do que qualquer coisa no mundo, não sabe?”
Ele assentiu com seriedade, o rosto firme, como se tivesse certeza disso acima de tudo. “Eu também te amo, Lake. Você é o melhor irmão do mundo.”
“E você sabe que eu nunca deixaria ninguém te machucar, se eu pudesse evitar?”
“Eu sei.” Ele passou os braços em volta do meu pescoço, confiando e quentinho, me olhando com preocupação no rosto. “Você está bem? Você parece triste.”
Eu não podia contar a ele que eu estava me afogando de medo. Abracei-o mais forte e tomei minha decisão.
“Eu só estou cansado”, eu disse. “Vamos, vamos dar um mergulho.”
“Mas está tão frio”, Ollie protestou, mesmo enquanto me deixava começar a tirar o casaco dele.
“Vai ser divertido”, eu menti. “Que nem ursos polares. A gente vai ser corajoso como ursos polares.”
