Capítulo 1
— Senhor, você vai pagar a mais por gozar na minha boca. Você não tem direito ao preço normal. Eu não te pedi porra nenhuma pra despejar aí — disse Bella, friamente.
— Se você tem dinheiro extra ou não, o problema é seu, não meu. Ou é isso… ou eu quebro a sua cabeça em pedacinhos.
Ela sabia o quanto aquilo soava patético. Sabia o quão baixo era. Mas já estava no limite, com contas vencendo pela manhã e nenhuma outra opção à vista.
O homem bêbado cambaleou enquanto fechava o zíper da calça, os olhos passeando por ela com uma luxúria preguiçosa. Estendeu a mão e deu um tapa na bunda dela.
— Então você não vai me deixar comer essa sua bunda gorda, é? — arrastou as palavras.
Bella deu um tapa forte na cara dele, o nojo se revirando no estômago pelo quão baixo ela tinha chegado ao lidar com homens como aquele.
— Você devia agradecer que eu não cuspi esse seu esperma azedo na sua cara ou arranquei com os dentes esse pauzinho inútil — ela rebateu, áspera. — Uma ferramenta que nem consegue satisfazer a minha bunda. Não me enche o saco, seu idiota. Me dá quarenta dólares.
Ele esfregou a bochecha e sorriu de canto.
— Vadia barata.
Bella revirou os olhos. Era imune a insultos… já tinha ouvido todos. Estendeu a mão enquanto o homem contou algumas notas e as largou na palma dela.
Ela lançou um olhar fulminante, molhou o dedo com a língua e contou de novo.
— O que é isso? — rosnou. — Só tem trinta dólares aqui.
— Eu te dou quarenta — disse ele, com um sorrisinho — se você me deixar te comer.
Bella cerrou o punho, tomada pela raiva. Largou o dinheiro na mesa e agarrou o homem pela gola; as mãos se fecharam enquanto ela erguia o braço, pronta para socar até arrancar a vida dele.
A porta se abriu de repente.
— Sua puta! — gritou uma mulher. — O que você está fazendo com o meu marido?
Ela avançou em direção a Bella, que se abaixou e apanhou o dinheiro. Parte caiu no chão quando ela disparou para a porta, correndo noite adentro e olhando para trás a cada poucos passos para se certificar de que a mulher não a estava seguindo.
Aquela era a rotina diária dela nesse bairro lixo.
Desde que fez dezoito anos, Bella sobrevivia vendendo o próprio corpo. Agora, aos vinte e três, continuava na mesma… porra, ela já tinha perdido a conta de quantos paus tinha atendido: grandes, pequenos, médios, enrugados, cheios de veias, grossos, compridos.
Virou outra esquina, seguindo para o seu apartamento caindo aos pedaços — se é que dava para chamar aquilo de apartamento, e não de um buraco.
Abriu a fechadura idiota com facilidade e entrou, suspirando ao ver o estado do lugar.
A tinta descascada esfarelava das paredes. Não havia eletricidade… só uma vela curta, quase no fim, que ela acendia sempre que voltava. Um lençol velho ficava jogado no chão, servindo de cama. Um fogareiro de uma boca estava torto no canto, e sacolas de mercado baratas abarrotavam o que passava por bancada. A fechadura da porta não prestava, embora mal importasse; não havia nada de valor para roubar mesmo.
Bella se deixou cair sobre o lençol remendado, contando o que tinha ganhado no dia.
— Trinta e cinco dólares no total? — gemeu, frustrada.
— Se eu somar com o que já tenho, deve dar pelo menos pra cobrir o trem até Manhattan… o aluguel e uma refeição.
Ela sorriu um pouco, antecipando o emprego novo.
— Isso vai me ajudar a ganhar mais… e eu ainda vou diminuir a venda do meu corpo.
Ela deu um tapa no braço para coçar as picadas de mosquito e se enrolou no cobertor fino, fechando os olhos.
De algum jeito, amanhã tinha que ser melhor.
Naquela mesma noite, em um orfanato do outro lado da cidade, onde os ricos costumavam se reunir para fazer caridade em público.
Lucian estava diante da imprensa, enquanto os flashes das câmeras estouravam sem parar.
— Senhor, o senhor fez um trabalho incrível — disse um repórter. — As crianças adoraram os presentes. Esperamos ver mais iniciativas como essa.
Lucian sorriu, ensaiado e sem esforço.
— É uma honra estar aqui — disse ele, com a mesma suavidade de sempre. — Eu também tenho uma filha, e eu a amo. Como eu não amaria as nossas esperanças para o futuro?
Um murmúrio de aprovação se espalhou pela multidão.
— Também quero expressar minha mais profunda gratidão às mães — continuou, a voz quente, medida. — Às mulheres que trabalham incansavelmente para criar essas crianças.
Ele assentiu de leve quando a babá subiu ao palco, carregando sua filha.
Aplausos explodiram. As câmeras dispararam ainda mais rápido. Flashes iluminaram a sala enquanto Lucian aceitava a criança nos braços, segurando-a tempo suficiente apenas para as fotografias.
Pouco depois, a coletiva terminou; os convidados se dispersaram pela noite, satisfeitos.
O salão foi esvaziando, um a um, até que as luzes se apagaram e as portas se fecharam.
E Lucian foi para casa.
(MANSÃO RODRIGUEZ)
O homem que o público admirava não existia dentro da própria casa.
Ele estava sentado na poltrona da sala de estar, a testa se contraindo de exaustão enquanto a pequena que ele considerava um tormento enchia o ambiente com um choro incessante.
O choro do bebê rasgava o silêncio da mansão; a cada vez que ela abria a boca, cada berrada parecia ficar mais alta.
Lucian beliscou a ponte do nariz, o olhar duro pousando na criança de quatro meses.
Crianças eram passivos... sempre tinham sido. E, ainda assim, de algum jeito, aquela tinha conseguido se infiltrar na vida dele.
Ele nunca tinha querido um filho. A mulher que a havia colocado no mundo já tinha ido embora havia muito tempo... uma prostituta inútil que morrera durante o parto.
A criança fora deixada à porta dele por seu assistente pessoal, com o DNA confirmando que era sua. Se não fosse filha dele, ele já teria se livrado dela havia muito tempo. E ele odiava a ideia de seu sangue vivendo em um orfanato.
Ele olhou para a criança de novo, perdendo o controle.
— Tirem esse inseto da minha frente! — rosnou para a babá, que estremeceu com o tom.
Ela era nova; não sabia que era assim que seria o “trabalho bem pago” com contrato de confidencialidade, e já estava insuportável logo no primeiro dia.
— M-mas, senhor... ela... ela é muito difícil de lidar. Ela precisa da mãe, ou pelo menos que a carreguem, já que é sua filha... — gaguejou a segunda babá do ano.
— Eu pago bem por isso. Prefere morrer, por acaso? E nunca me diga o que eu devo fazer. Só estou deixando passar porque a menina vai chorar até morrer se eu te mandar embora agora mesmo. — A voz dele era fria, cortante, carregada de fúria.
O medo atingiu a babá na hora. Ela se atrapalhou para acalmar a menina chorando, apressando-se para tirá-la da sala.
Os olhos escuros de Lucian acompanharam as duas com uma raiva fervilhante.
O telefone dele tocou, cortando a fúria.
Ele atendeu, já sabendo qual era a notícia do outro lado.
— Senhor, o dono da Neurons Pharmaceutical assinou a transferência da empresa para nós. Parabéns — anunciou a voz na linha.
Lucian encerrou a chamada, os olhos escuros encarando o nada, enquanto um sorriso perverso curvava seus lábios.
Era isso que ele era... ele tomava qualquer empresa que quisesse. Lucro era tudo o que importava; todo o resto, inclusive pessoas, era descartável.
